Sem-teto espera ter comida todos os dias; família carente espera não chegar à condição de sem-teto
O Natal e as festas de fim de ano, em geral, são um período consumista e de reunião afetiva, com muita comida. Diante de um quadro de pobreza alastrada, o JP foi falar com uma família prestes a ser despejada de sua humilde residência e com uma pessoa em situação de rua. A aflição está estampada nos olhos deles e a esperança é unicamente ter alguma segurança alimentar ou moradia – independente dos festejos. Diante da disparidade entre a esbórnia e a miséria, o psicólogo e mestre em educação, Sérgio de Oliveira Santos, chama a atenção ao modo de vida capitalista quanto a semelhanças e diferenças do impacto do fim de ano para a população de baixa renda.
“Para alguns, se faz necessária a mesa farta e para outros, não. E a fartura, aquilo que se encontra para além do necessário, é relativa para cada família. Tanto em sua quantidade como qualidade. O que é muito para uns, é nada para outros. Aquilo que é um produto ostentação para uns, é, para os olhos, paladares e bolsos alheios, produto de quinta categoria. Essa é a dança do capitalismo: para seu bom funcionamento, a desigualdade é necessária e sempre haverá tipos de produtos, e confort foods, para todos os bolsos. Assim, por exemplo, todos podem beber cachaça e ficarem, relativa e momentaneamente, satisfeitos. No entanto, uns tomam corote e outros, Havana”, contextualiza o psicólogo especializado em suicídio e coordenador da Clínica Psyché.
A análise de Sérgio Santos vai ao encontro da rotina de José Carlos, 47, que está morando na rua há oito anos e tinha uma oficina mecânica, com curso no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) no currículo, inclusive. Ele não quer banquete: o mecânico deseja ter comida todos os dias. “Não é só no Natal que tem que comer bem, é o ano inteiro. Não precisamos de um panetone ou champanhe. Para nós, um arroz, feijão, óleo, fubá e trigo já é uma boa ajuda. Uma sardinha em lata, um macarrão, um molho também.” Para José Carlos, o período só traz uma mudança: as saudades da família.
Desta forma, o psicólogo também destaca que o período traz lembranças, contatos e expectativas em potencial para aumentar ou diminuir a potência de vida de cada pessoa. “Sendo assim, para uns, esse período do ano é uma ocasião de celebração e para outros, não.” Para Jacina Raimunda Souza Santos, 77, o Natal é a esperança de que a compaixão toque o coração do proprietário do terreno aonde está instalada a comunidade Vitória.
“O que me incomoda é pensar em sair daqui. A gente depende de moradia. Muitos pais de família estão necessitados {economicamente] e estão sem saber para onde é que vão. O Natal não muda nada, o que eu peço, de coração, é não sair daqui. O Natal todo ano tem. E a moradia da gente? Se sairmos agora, vamos para onde? A minha maior felicidade seria saber que eu não precisaria sair daqui. Agradeço aos advogados e peço a Deus, todo dia, para tocar o coração desse povo para que tenham compaixão. Essa é a minha esperança. O meu pedido é moradia.”
“E, nesse sentido, caem bem alguns questionamentos, a fim de evitarmos a proliferação de alguns maus encontros consigo e com os outros: o quê ou quem te (faz) falta? Sobre o quê você criou expectativas e elas não se realizaram ou se realizaram parcialmente? Qual é a realidade física e psíquica na qual você está vivendo neste final de ano? Onde em você dói? Como o sofrimento alheio, a desigualdade social, as inseguranças e incertezas da pandemia e de (des)governos lhe afetam? Qual é a emoção que está mais predominante em você e em seus atos neste momento – a alegria ou a tristeza, a esperança ou o nojo, o medo ou a raiva?”, pontua o psicólogo e mestre em educação.
Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br
LEIA MAIS