‘Cuidando do amor de alguém’, definem os profissionais de saúde que trabalham no Natal

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 3 min

Médicos e enfermeiros enfrentam a pandemia do novo coronavírus e a distância da família e amigos

Em mais um ano envolvidos na linha de frente em meio à pandemia do novo coronavírus, os profissionais de saúde foram os que mais tiveram que abrir mão da vida pessoal e da convivência familiar neste ano ainda marcado pelo distanciamento. Na noite de Natal, para muitos médicos, enfermeiros, técnicos e atendentes a rotina vai seguir sem mudanças; com muito trabalho e cuidados com pacientes que, a exemplo deles, também vão estar distantes das famílias e dos amigos.

Para eles, o fato de trabalhar enquanto a maioria está me casa, faz parte da rotina e do juramento de dedicação á profissão. “Vou estar cuidando do amor de alguém”, com essa definição, o técnico de enfermagem Bruno Pereira Gomes da Silva, 23 anos, define sua função na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) coronariana da Santa Casa de Piracicaba.

“Quando entramos nessa área de enfermagem sabemos que o trabalho não para, é de segunda a segunda-feira, nessas datas em que a família se reúne é um pouco diferente (sentimento) mas não é problema”, define.

Por causa da pandemia, Bruno avalia que vive um misto de sentimentos: ansiedade, estresse e medo, mas o profissionalismo e comprometimento devem falar mais alto. “Mesmo assim, a gente está ali porque está cuidando do amor de alguém, é um pai, uma mãe, um filho, uma filha, um tio, uma tia e isso é o que nos motiva, essa é a razão para estarmos ali”, aponta.

Casado há 11 meses, ele disse que gostaria de estar com a família na noite de Natal, porém, observa que os pacientes sob seus cuidados também gostariam. “Então é o tocar essa pessoa com carinho, fazer a diferença no cuidado, no consolo, é isso que vale a pena”, afirma.

Para o cardiologista Rafael Tineli, é como se encontrar entre duas realidades opostas e cita o poeta grego Hesíodo. “Ele nos diria que o próprio ambiente do qual participamos pode sugerir o contraditório como noite e dia , frio e calor, por exemplo. Assim posso lhe dizer que fico feliz em estar tendo o privilégio de cuidar de muitas pessoas na UTI mas também sinto falta do convívio com as pessoas que amo. Ainda mais nessas datas comemorativas”, definiu.

Segundo o médico, embora o Brasil registre atualmente queda nos principais indicadores da doença, a pandemia ainda não acabou. “Assim como no final do ano passado, com o surgimento da variante delta, a descoberta da (variante) Ômicron representa um alerta sobre a pandemia e a necessidade de manter os cuidados durante as festas de fim de ano”, destacou.

Ao citar os cuidados necessários nesse período de confraternizações, Tineli acrescenta que a vacinação segue como forma mais importante de prevenção, mas que algumas das recomendações formuladas no ano passado continuam valendo, especialmente para as pessoas que não sabem se todos os que estarão presentes nos encontros e eventos de fim de ano foram vacinados ou se são do grupo de risco.

A enfermeira cirúrgica Camila Stefanie Baptista admite a dificuldade de se manter distante da família nesta data, mas acrescenta que foi a profissão que escolheu. “Por mais que seja dolorido deixar minha família, lá dentro do hospital eu sou a ‘família’ de alguém que está sozinho e precisa de cuidados e apoio”, afirmou. “Essa profissão não é tão simplificada como muitos pensam, não é só aplicar uma medicação e mandar pra casa. Envolve muito amor, carinho e dedicação, porque ali não são apenas pacientes, eles são pai, mãe, avó, avô, são filho ou neto de alguém”, acrescentou.

Beto Silva
beto.silva@jpjornal.com.br

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