Sem dinheiro para comprar absorvente e com muitas dúvidas, estudantes têm a escola como aliada
A cada dez alunas, duas sofrem com pobreza menstrual, conta a vice-diretora Aline Oliveira Santos, da Escola Estadual Professor Attílio Vidal Lafrata, no bairro Costa Rica. A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que uma entre dez meninas no mundo sofre por não ter acesso a absorventes. No Brasil, estima-se que esse número seja uma em cada quatro. Em 2014, a ONU reconheceu o direito à higiene menstrual como uma questão de direito humano e à saúde pública. Desde junho, um decreto do Governo do Estado de São Paulo viabilizou o uso dos recursos do PDDE-SP (Programa Dinheiro Direto na Escola) para compra e distribuição gratuita de absorventes para estudantes da rede estadual. Dentro do programa estadual, o Dignidade Íntima, a escola local recebeu, na semana passada, uma série de palestras.
A vice-diretora da Attílio Vidal conta que a falta de acesso à itens de higiene e à informação prejudicam o desempenho escolar das estudantes que já menstruam. “Em média, entre dez alunas, duas sofrem com a pobreza menstrual em nossa comunidade escolar, atrapalhando a rotina escolar dessas alunas, que faltam frequentemente da escola nos dias em que estão menstruadas e que, por muitas vezes, com vergonha, não justificam as faltas aos professores e acabam se prejudicando nas atividades escolares e até mesmo nas avaliativas”, conta a vice-diretora. A psicóloga clínica e escolar do programa Psicologia Viva, Melissa Pomaro, e a professora de português da Attílio Lafrata, Rainez Franco, fizeram a abordagem com as alunas na escola em Piracicaba.
Melissa conta que as dúvidas sobre o período menstrual vão desde o antigo “não pode lavar o cabelo” até sobre assuntos mais atuais, como a mulher transgênero. Já a professora Rainez relata preocupação das estudantes tem relação com a imprevisibilidade do período menstrual. “O que relatam é a dúvida e a falta de segurança em agir com naturalidade, diante de algo, que ainda se configura, em nossa sociedade, como um tabu.” A psicóloga destaca que é preciso conscientizar a população, tanto homens como mulheres, que a menstruação acontece por um longo período, em média, 38 anos – com início aos 13 e término aos 51 anos. “Existe um custo mensal em higiene feminina com a menstruação que não é considerado nem na cesta básica. Um bebê usa fralda cerca de cinco anos e todos têm essa consciência do custo e não há a mesma consciência para higiene feminina. Por isso é importante falar sobre menstruação e inserir em nossa realidade econômica nacional”, explica Melissa.
O PROGRAMA O programa Dignidade Íntima é composto por cinco eixos: formações para todos na escola; protagonismo dos jovens; distribuição de material informativo; construção de rede de apoio na escola; e aquisição e distribuição dos produtos de higiene íntima menstrual. “Desde sempre, nossa gestão tem o cuidado de atender as alunas no período menstrual e, a partir de julho de 2021, com a implementação do programa, a escola passou a receber uma verba estadual destinada exclusivamente para esse fim”, relata a vice- -diretora da Attílio Vidal.
Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br
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