Empoderamento feminino: Lute e vença como uma mulher

Por Edilson Morais |
| Tempo de leitura: 4 min

A presença feminina nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão, foi recorde e muito mais do que simplesmente participarem do maior evento esportivo do planeta, elas fizeram história na Terra do Sol Nascente.

Mais de 120 anos após a criação dos jogos pelo historiador francês Pierre de Coubertin, que tinha opinião contrária à participação feminina na competição, as mulheres representaram 48,8% dos 11.091 atletas olímpicos que competiram em Tóquio. Entre os paralímpicos, dos 4,4 mil esportistas, 40,5% são do gênero feminino.

Com uma atuação expressiva, elas quebraram barreiras e derrubaram recordes em várias modalidades. A nadadora Katie Ledecky, dos Estados Unidos, terminou as Olimpíadas de Tóquio, com duas medalhas de ouro e duas de prata. Anteriormente, no Rio de Janeiro, ela fez história como a mulher mais vencedora dos Jogos Olímpicos de 2016 com cinco medalhas (quatro ouro e uma prata).

Na delegação brasileira, a participação feminina chegou a 140 atletas, o equivalente a 46,5% do total entre os representantes de nosso país. E as mulheres arrasaram! Nos mares, Ana Marcela Cunha se tornou a primeira brasileira a conquistar o ouro nos 10km da maratona aquática, enquanto que a ginasta Rebeca Andrade subiu ao pódio em duas ocasiões, com inéditas medalhas: ouro no salto e prata no individual feminino.

No skate street, a fadinha Rayssa Leal, 13, quebrou preconceitos e mostrou que é possível ser vencedora sobre quatro rodinhas com manobras radicais e a conquista da medalha de prata na primeira exibição da modalidade em Jogos Olímpicos. 

E as brasileiras não pararam por aí, teve bicampeonato olímpico na classe 49erFX da vela com Martine Grael e Kahena Kunze, o bronze da dupla Luisa Stefani e Laura Pigossi no tênis, e a medalha de prata para Beatriz Ferreira na categoria até 60kg no boxe, além da conquista de Mayra Aguiar, que trouxe o bronze na categoria até 78kg no judô e registrou o seu nome como a primeira atleta mulher brasileira a conquistar três medalhas olímpicas em esportes individuais.

E se nos esportes olímpicos foram necessários mais de 120 anos para romper barreiras e abrir espaços para uma efetiva participação feminina, imagina no âmbito das artes marciais? 

A atleta de taekwondo Débora Fernanda da Silva Nunes sabe muito bem quais foram os caminhos percorridos para ser destaque em sua modalidade. No ano de 2011, ela foi a representante do Brasil nos Jogos Mundiais Militares no Rio de Janeiro, onde venceu barreiras e fez história como a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha de ouro nessa competição. Na edição 2014 dos Jogos Militares realizados no Irã, ela voltou ao pódio com a prata.

 “Eu tenho orgulho dessas conquistas e espero que muitas outras meninas tenham as condições para quebrarem muitas outras barreiras em seus caminhos. Que elas tenham a força necessária para vencerem e chegarem aos seus objetivos.” – disse Débora.

Em sua carreira com atleta de alto rendimento, Débora foi exemplo em sua modalidade ao ser titular da seleção brasileira por nove anos, num ciclo vitorioso em que representou o Brasil nas Olimpíadas de Pequim/2008. Em quase uma década como representante brasileira no taekwondo, foi campeã dos Jogos Sul-Americanos 2006 em Buenos Aires, na Argentina, vice-campeã mundial universitária 2006 em Valência, na Espanha e medalha de bronze no evento teste em Pequim/2008.

“No começo da minha carreira esportiva, as artes marciais não ofereciam os espaços para as mulheres e hoje, a participação delas nesses esportes só aumenta, como uma ferramenta de resistência e de auto-estima, o que demonstra que nós estamos na linha de frente em todos os setores da sociedade e no esporte isso não é diferente.”

A outra representante do taekwondo de Piracicaba é a professora Leidiane Aguilar, responsável pelas aulas ministradas no Centro de Alto Rendimento Dojan Nippon. “Quando iniciei na modalidade em 2001, existiam poucas mulheres na prática das artes marciais em Piracicaba. Com o passar dos anos, isso mudou muito e hoje, até mesmo na turma dos pequenos, com idade a partir dos três anos, já existe um equilíbrio com 50% de meninos e meninas.” – disse Leidiane, que avalia os efeitos do empoderamento feminino nessa transformação da sociedade:

“Os pais compreendem a necessidade da prática esportiva para seus filhos e filhas. Existem casos, aqui na Nippon, de mamães que realizaram os seus sonhos a partir das aulas de seus pequenos, já que na própria infância não tiveram o apoio de seus pais para a prática da arte marcial, hoje tão importante para a saúde e a defesa pessoal das mulheres que, infelizmente, são vítimas frequentes da violência.”

A professora começou a praticar o taekwondo nas aulas de um projeto social, oferecido pela própria Dojan Nippon. Alguns anos depois, já era faixa preta e passou a integrar a equipe de competição, onde foi tricampeã brasileira universitária, quinta colocada mundial universitária, bicampeã dos Jogos Abertos e decacampeã dos Jogos Regionais.

A partir de 2014, a professora de educação física passou a dedicar-se como treinadora de taekwondo e hoje, é responsável pela formação de mulheres de todas as idades que, assim como ela, buscam quebrar paradigmas ao provar no dia-a-dia, que o esporte e as artes marciais também são espaços que podem e devem ser ocupados pelas mulheres.

Edilson Morais

edilson.morais@jpjornal.com.br

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