A história de Ângela: nascimento de uma criança e de uma aldeia

Por Cristiane Bonin |
| Tempo de leitura: 3 min

De mãe solo a mãe ‘EAD’: uma mãe sem pai, sem parceiro, que preparou sua filha para o mundo

Um provérbio africano diz que: – ‘’É preciso de uma aldeia para se educar uma criança’’. E esta é a referência da coordenadora comercial Ângela Souza, 41, sobre a maternidade. Parte das estatísticas – 12 milhões de mães cuidam sozinhas de seus filhos no Brasil, segundo IBGE – Ângela estava sem aldeia e com a pequena Luiza no colo quando se viu numa cidade estranha e sem seu parceiro. Separada quando a criança tinha pouco mais de três anos e recém-chegada a Piracicaba, não conhecia o novo espaço e nem tinha amigos. Dedicada exclusivamente à maternidade, desempregada, já se considerava mãe solo mesmo antes da separação. “Os primeiros dois anos de Luiza foram desafiadores e nada românticos. Vivi um puerpério de muita solidão e exaustão. Não tinha ajuda nenhuma para os cuidados com ela, visto que minha mãe, na época, já cuidava da primeira neta. O pai participava pouco ou quase nada, de seus cuidados.”

Pressionada, a jovem mãe adotou a cama compartilhada com sua bebê visando “ter um pouco mais de descanso”. “Fui muito julgada por minhas escolhas, inclusive por minha mãe, e minha irmã. Foi um período difícil, mas, a forma que superei essa fase foi acompanhar, dia a dia, o pleno desenvolvimento de minha filha e vibrar com suas pequenas conquistas diárias. A força vinha dela.”

A falta da presença paterna já era recorrente na vida de Ângela, já que o seu pai faleceu deixando a família com cinco filhos. “Eu lidei com a questão da separação da única maneira que poderia lidar: encarando de frente. Óbvio que, em um primeiro momento, duvidei da minha capacidade, me vitimizei, me senti fraca. Mas tinha o maior exemplo de que era possível cravado em minha própria história. Fora que no nosso país, exemplos de mães solos não faltam.”

Sobre ser pai e mãe, Ângela decidiu que seria só mãe. “Mas estar 100% disponível para tudo é exaustivo. Por mais que a maternidade seja uma experiência incrível, cheia de recompensas, não dá para romantizar tudo. Te exige demais, te suga, e, às vezes, você precisa tirar de onde não tem mais nada, para suprir as necessidades de um ser em formação.”

APOIO

Amigas, avô paterno, amigos de amigos, companheiro, professoras, instituições e até empregadores. Assim Ângela formou sua própria aldeia. No trabalho, a pequena Luiza frequentou o ambiente por três anos. Aos sábados, o passeio com o avô no Sesc Piracicaba. No meio da semana, o suporte da escola. “Abdiquei de muito, mas não aconselho. É preciso buscar uma rede de apoio de confiança. Não somos apenas mães e é extremamente saudável e necessário que façamos coisas somente por nós. É saudável inclusive, para a relação com nossos filhos.” Há exatamente um ano, Ângela saiu da condição de mãe solo para, como ela chama, mãe EAD. Após 11 anos de extrema união, Luiza partiu para o Reino Unido para morar com o pai. “A síndrome do ninho vazio chegou antes por aqui, mas a melhor coisa que podemos fazer nessas horas, é cuidar de nós mesmas.”

Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br

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