Lembranças

Por David Chagas |
| Tempo de leitura: 4 min

Nem tristeza nem saudade. Lembranças. Têm sido estas manhãs tão distintas daquelas que subsistem, preservam sua força e brincam na memória. Culpo o leitor, a quem respeito e sou grato pela leitura generosa, especialmente quando me escreve, celebrando, como no último domingo, enviando-me notas de carinho e apreço, fazendo-me saber da parecença entre nós e nossa infância. Sei que o leitor está comigo, lado a lado. Se caminha em sentido contrário ao meu, deseja ajudar-me a encontrar o passo. Na maioria das vezes, no entanto, injeta estímulo, lustra a autoestima.

Maria José Palo, professora da PUCSP aliviou-me a saudade: “Este seu artigo, de domingo passado, sugeriu-me a ideia de você começar já, já um romance moderno, contemporâneo, oferecendo-nos uma nova realidade, e otimizando o que sobrou da humanidade pós-Covid-19.Sua escrita cósmica dará conta desse novo tópico. Certo, amigo Chagas?”

Heloísa Vilhena de Araújo, doutora em Letras, diplomata de carreira, escritora notável, ser humano único, escreveu: quantas celebrações! Que bela infância esta de correrias e brincadeiras, música, árvores, gado, liberdade do espaço! Que privilégio o seu! E tudo revivido com amor na sua lembrança, graças a Deus!

Escrever é dom de Deus. Devolve-se um dia. Há, é claro, a formação e a herança recebida, no meu caso, dos dois lados que, juntos, me ofereceram vida. Jornalista, o avô materno cuidou passo a passo da formação da mãe que repetiu o ensinamento conosco todos, Professora que era. A maiúscula faz jus. Do pai, bom leitor, escrevia e gostava. Sem falar de uma das tias, poesia no nome, acaipirada, quase sem cultura alguma, derramando lirismo na fala e nas canções que inventava. Sempre e quando me apresentava seus rabiscos ou cantarolava suas canções, era nítida a influência de João Pacífico (conhece?)com suas incríveis modas e incomparáveis poemas.

Cabe bem aqui na minha crônica, poeta caipira assim como eu, ele genial e notável, de Cordeirópolis, deixando no ar um rastro de lirismo e beleza que muitos pensam só existir em poetas consagrados. João Pacífico, o da Cabocla Teresa, a quem conheci pessoalmente quando me visitou no Teatro em Piracicaba, durante meu tempo de Secretário de Ação Cultural, vertia gratidão por me saber o primeiro secretário de Cultura – e jovem! capaz de prever glórias para o universo caipira. Não quero usar termo que me remeta ao passado como se me tivessem tirado o motivo da alegria destas lembranças. Sinto alegria igual, aquela mesma que aflorava nas caminhadas sem fim em busca da escola. Nenhuma tristeza, garanto. Falta, sim.

As manhãs estão aí, tecidas com primor absoluto pelos pássaros, pelos galos, pelos cães na rua, pelo sol, pelos famintos moradores de rua a quem, com olhar de Cristo, só mesmo o padre Júlio Lancelotti e seus colaboradores sabem olhar e ouvir seu entusiasmado bom dia ajudando a dar cor e vida à manhã.

A estas últimas, por vezes, tem faltado o rubor daquelas. Por quê? Porque as madrugadas andam vazias, não de estrelas nem de lua, de esperança. Ninguém mais parece vencer feliz a neblina criando mistério até o momento em que o sol, dono de tudo, afasta esta cortina de encantamento e beleza, revelando a paisagem.

As manhãs, apesar destes apocalípticos tempos, continuam um acontecimento. Beleza única. Até mesmo os galos que as tecem, sabem disso, tanto que seu canto busca notas distintas, sons diversos na comunicação com outros tantos na construção da manhã, ritmo novo, para não faltar força ao sol e incendiar a madrugada.

Naquelas do início do texto, minha irmã, meu pai e eu seguíamos por estrada que ainda existe, torneada, fazendo inveja à nova, feita com rigor de engenharia, passando por ela, mas sem a sua graça e beleza, sem barrancos enfeitados de flores do campo, sem animais que podiam estar em meio à mata cuidando de sua própria vida, sem pássaros.

Vínhamos da zona rural para a cidade. Seguíamos o ritual da vida e, com o pai, a nosso lado, percorríamos aqueles tantos quilômetros com entusiasmo, descobrindo o que a natureza nos oferecia ao redor.

Todos os anos, até que viemos para a cidade grande, foram iguais. O mesmo horário, quase sempre as mesmas conversas, igual trajeto. Iguais mesmo, só nosso sentimento de afeto, de amor incontido, de saber, mesmo sem a presença protetora dos pais, prosseguir.

Tento pinçar no tempo, um daqueles dias, de preferência o quatro de julho ao encontrar num registro diário que fazia, igual data para assuntos tão distintos. Nele descrevo o caminho percorrido. Tentado a ver como está hoje, opto por fazer igual percurso, sem o prazer da bicicleta, redobrando cuidados. O mundo anda às avessas. Trajeto inverso. Da cidade onde vivo, vou na contramão daqueles dias pueris, como se insistisse em revisitar o passado. Nada, absolutamente nada, igual. Falta até mesmo a florada do cipó de São João ornamentando nosso caminho de ponta a ponta, despertando o entusiasmo e a alegria de minha irmã, encantada com o adorno oferecido pela natureza, ano após ano.

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