Apesar da pandemia...

Por Marisa Bueloni |
| Tempo de leitura: 3 min

A vida transcorre, apesar de tudo. Mais de um ano em isolamento, saindo apenas para as necessidades extremas, tomando rigorosos cuidados a cada momento. O frasco do álcool gel na bolsa, no carro, na bancada da cozinha. As sacolinhas plásticas vão todas para o sol antes de se aproveitar para o lixinho da casa, e assim a rotina da esterilização de objetos e de coisas do nosso convívio vai se tornando um hábito.

Nunca imaginei lavar uma penca de bananas com água e sabão. No entanto, cumprimos este ritual automaticamente. Parece que nunca mais vamos agir de outro modo. Estas práticas já se incorporaram ao nosso cotidiano. Maçã, laranja, abacaxi, melão, mamão, abacate, as frutas da nossa preferência, todas lavadas com água e sabão, debaixo de água corrente.

Ali, na pia da cozinha, higienizando as frutas e alguns frascos fechados, repenso a vida, o momento pelo qual passamos e ouso sonhar. Há de haver uma estrada florida em algum canto do mundo, um convite à caminhada e ao prazer de aspirar o ar puro do campo. Há de haver uma praia deserta, onde as ondas quebram e quebram sem cessar, sob o sol maravilhoso de abril.

As frutas me olham mudas e minhas mãos cuidam delas com carinho. Há rumores de um ânimo intenso dentro da minha alma e tento adivinhar o que seja esta energia vibrando, apesar de tantas lágrimas, apesar da pandemia. A dor e o luto destes tempos sombrios não conseguiram apagar a chama interior, a sarça ardente que queima sem se consumir.

Apesar da pandemia, um pouco de sonho à beira da pia, lavando tomates. Lá fora, abril anoitece sereno, a despeito de tudo, dos números implacáveis do Jornal Nacional, da notícia de mais um menino sacrificado pela mente doentia de quem não sabe amar. O amor salvaria este mundo, se os homens permitissem. A gentileza, a graça e a bondade fariam milagres, se fosse possível. Se as pessoas fossem menos tóxicas, menos arrogantes e mais caridosas. Quanto bem o mundo não conheceria!

Mas há uma ferocidade em toda parte, um clima de disputa maligna, de eterna queda de braço nas almas que não possuem um pingo de respeito e de consideração pelo próximo. Uma amiga querida aposta na Lei do Retorno. Eu também. Aqui se faz…

Ah, eu sonho com o silêncio e a paz, meus amigos! Uma Pasárgada sem rei mesmo. Não preciso ser amiga dele. Basta uma casinha com varanda, um lugar santo e abençoado, de quietude celestial, onde repousar o corpo e o espírito. Basta um pouco de frutas e legumes, peixe, água fresca, roupa suficiente, o necessário para sobreviver. Há rumores de caos no ar. Quando virdes estas coisas, fugi para os montes.

Mas nós não vamos fugir. Até por falta de condições. Não conseguiremos deixar nossa casa sagrada e os nossos amados. Que tipo de vida teríamos longe de tudo e de todos? Já estão ensinando a fazer uma cabana no meio da mata. Vi na internet. Canais de sobrevive ncialismo. Será? Mais esse tipo de luta?

Os da minha idade já lutaram bastante. Estamos quase encerrando nossa peleja aqui no planeta, embora à espera de melhores dias. Deus seja louvado em cada prece pequenina, o coração pegando fogo nas Ave-Marias. Ó Virgem Santíssima, Mãe do nosso Salvador! Rogai por nós.

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