As eleições de 2020, realizadas em meio a pandemia do novo coronavírus, trouxeram mudanças na composição política de Piracicaba. O Partido Democrata representado pelo prefeito eleito Luciano Almeida, pôs fim a gestão tucana, depois de 16 anos no poder.
De acordo com os dados da Justiça Eleitoral, Luciano conquistou 54,20% dos votos válidos (85.081), desbancando Barjas Negri, que teve 45,80% (71.897 votos). A eleição em Piracicaba teve 34,43% de abstenção, 6,25% votos brancos e 11,48% nulos.
“Mudar de orientação partidária pode trazer bons resultados se houver projeto de governo na linha democrática da prática administrativa”, afirma a historiadora Marly Therezinha Germano Perecin, doutora em História Social do Brasil pela USP.
Piracicaba ficou por 16 anos seguidos sob a gestão do PSDB. Barjas Negri foi prefeito entre os anos de 2005 e 2012. Nos quatro anos seguintes, o também tucano Gabriel Ferrato dos Santos (atual vice-prefeito pelo DEM), ocupou o cargo de chefe do Executivo. Barjas retornou ao posto em 2017, onde permaneceu até 2020.
Segundo o psicólogo e cientista social Fernando Albuquerque, professor da Unimep, na democracia, a alternância do poder é necessária para que sejam introduzidos novos métodos e propostas políticas, reformulando antigas práticas.
“Hoje, o processo democrático demanda a participação e o engajamento da população, ou seja, o livre exercício da cidadania através do voto, a vontade popular. Avançamos e até poderíamos avançar mais, já que a legislação permite a reeleição e, após um afastamento de quatro anos, uma nova candidatura”, diz.
O professor ressalta que a democracia não é perfeita, é um projeto em construção. “São necessárias décadas para que ela se consolide e nada garante que o ‘novo’ governo cumpra aquilo que ele propõe, frustrando a alternância de poder. Portanto, compete à sociedade avaliar, fiscalizar e participar, para que as mudanças possam acontecer”, afirma.
De acordo com o cientista social, se a população não estiver satisfeita com os seus governantes, se eles não responderem aos seus anseios, ela tem todo o direito de trocar. “Essa tese, da troca, do direito de resistência, está presente desde os primórdios do pensamento liberal”, destaca.
Na avaliação da historiadora Marly Therezinha, os prefeitos filiados ao PSDB que passaram por Piracicaba mantiveram as suas individualidades. “Faltaram-nos grandes homens de Estado. Mas, a história não tem pressa, sou otimista. Penso que chegaremos ao patamar que buscamos, marcado por uma consciência política esclarecida em níveis nacional, regional e urbana”, afirma.
Questionado pela reportagem do Jornal de Piracicaba sobre de que maneira o governo do DEM vai se diferenciar da gestão do PSDB, o prefeito Luciano Almeida afirmou via assessoria de imprensa que “nesse momento está empenhado, em conjunto com as equipes das secretarias, a diagnosticar e iniciar as estratégias de trabalho”.
MANDATOS MAIS LONGOS
Entre as autoridades que ocuparam a cadeira do Executivo de Piracicaba ao longo dos seus 253 anos, duas delas destacam-se com maior tempo de mandato. O tucano Barjas Negri comandou a cidade por 12 anos, enquanto Adilson Benedito Maluf permaneceu quase 11 anos à frente da Prefeitura.
Formado em Engenharia, Adilson foi eleito pela primeira vez em 15 de novembro de 1972, aos 28 anos de idade. Ao assumir a Prefeitura em fevereiro de 1973, uma das suas primeiras atitudes foi formalizar o Distrito Industrial Unileste. Como prefeito, criou condições para que empresas de grande porte como Caterpillar e Philips se instalassem na cidade.
Com isso, Piracicaba abriu novas perspectivas de trabalho, diversificou o parque industrial e ganhou maior estabilidade financeira. Ele ficou à frente da Prefeitura entre os anos de 1973 até o início de 1977 e de 1983 a 1988.
Já o economista e professor Barjas Negri foi prefeito de Piracicaba de 2005 até 2012 e de 2017 a 2020. Ele iniciou a vida pública como secretário Municipal de Educação e também foi ministro da Saúde e secretário Estadual de Habitação.
Em suas redes sociais, o ex- -prefeito destaca entre suas conquistas para o município a construção de mais de 100 academias ao ar livre; criação da Patrulha Maria da Penha para amparar as mulheres vítimas de violência doméstica; vinda do BAEP (Batalhão de Ações Especiais da Polícia) para a cidade; construção da sede da 5ª Cia da Polícia Militar em Santa Terezinha; e conclusão das obras do Jardim Botânico. Condenado em segunda instância por improbidade administrativa, Barjas Negri participou das eleições sub judice, sendo considerado inelegível pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral).
Depois de 54 anos, cidade volta a ter um Luciano como prefeito
Essa é a segunda vez que Piracicaba tem à frente do Executivo um prefeito chamado Luciano.
No ano de 1955, com o apoio de uma coligação formada por quatro partidos, Piracicaba elegeu o comendador Luciano Guidotti. Ele ficou no cargo por quatro anos e se candidatou novamente em 1963. Saiu mais uma vez vencedor nas urnas para um mandato que deveria estender-se de 1964 a 1968. Guidotti, no entanto, morreu subitamente, em 1967, após participar de um almoço festivo no Lar dos Velhinhos.
Proveniente de família modesta de italianos e com escolarização limitada, o ex-prefeito foi obrigado a trabalhar desde muito cedo. Fixou residência em Piracicaba em 1928.
Durante a 2ª Guerra Mundial, dedicou-se à comercialização de óleo de laranja. Foi, no entanto, na instalação de uma concessionária de automóveis e caminhões, que viu crescer sua fortuna, tornando-se um empresário bem-sucedido.
Colaborou com a construção das torres da Catedral e as obras do Asilo de Velhice (Lar do Velhinhos) e do Lar-Escola Coração de Maria Nossa Mãe.
Em seu primeiro mandato, levou adiante a cobertura do riacho Itapeva para o prolongamento da Avenida Armando Salles de Oliveira; remodelou o Mercado Municipal; reformou e ampliou o Serviço de Abastecimento de Água; melhorou praças e jardins; ampliou a rede de esgotos; e instalou em prédio próprio a Faculdade de Farmácia e Odontologia.
Em sua segunda vez à frente da Prefeitura, o ex-chefe do Executivo construiu as Avenidas Comendador Luciano Guidotti – endereço do Jornal de Piracicaba -, Cássio Paschoal Padovani e Centenário. Criou a Fundação Municipal de Ensino, concluiu o Estádio Barão de Serra Negra, ampliou e modernizou a iluminação pública da cidade, entre outras obras. Doou, durante os dois mandatos, os subsídios que recebia como prefeito, para entidades assistenciais, culturais e esportivas de Piracicaba.
Além do nome e da vocação para política, o atual prefeito do município, Luciano Almeida, tem em comum com Guidotti o fato de ser um empresário bem sucedido.
De família tradicional portuguesa, Luciano nasceu em São Paulo e mudou-se para Piracicaba, aos 4 anos de idade, junto com os pais: comendador Manuel Tavares de Almeida e Gilberta Almeida. A família dele construiu um conglomerado formado por produtoras de aguardentes e indústria de máquinas para o setor sucroalcooleiro.
Casado, pai de dois filhos e formado em Administração de Empresas, recebeu no ano de 2008 o título de Cidadão Piracicabano, concedido pela Câmara de Vereadores. Em 2013, foi condecorado com a Medalha do Mérito Legislativo por sua contribuição com a cidade.
Ana Carolina Leal
ana.carolina@jpjornal.com.br
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