Solidão e Silêncio

Por David Chagas |
| Tempo de leitura: 3 min

Quantos, como eu, esperam por um momento assim, na noite? Penso ser mais uma destas manias que se acomodam na terceira fase da vida permitindo saboreá-la com mais vagar e simplicidade. A insistência com que se repete recomenda alcançar estado de beatitude, de felicidade, buscar conhecimento com a maturidade de agora. Há, no entanto, a rotina imposta, estruturada, capaz de eliminar da sensação, o verniz sobrenatural que a encobre.

O fim da tarde começa a armar o cenário que dará à noite, passadas horas, o ambiente propício. À medida em que o escuro da noite desenha o abismo e ganha profundidade, a janela entreaberta convida a mergulhar no silêncio. Hora de ajeitar o corpo na cadeira com algum conforto para sentir o instante em toda sua grandeza. É quando nada mais perturba, nada mais incomoda, nada interrompe a paz.

Falta ainda para o cantar do galo. Os pássaros, até os de hábitos noturnos, descansam. Não há barulho algum capaz de roubar a extensão do instante. Tudo parece ultrapassar a sensação de limite, ajudando a descobrir, no silêncio, pruridos, desejos e segredos guardados na alma. Encontrar-se consigo mesmo.

O leitor vive igual experiência de paz ao ouvir o silêncio? Consegue, em sossego, reconhecer a mensagem, entende-la, mesmo que não tenha domínio sobre ela?

Fora, alguém, devorado pela ansiedade ou angústia, destrói o instante. Caminho até à sacada. Olho. Não vejo. Perco-me do prazer e do instante. Não identifico nada que se responsabilize por este mal feito. O silêncio povoa outra vez o ambiente não sem negar o rastro de perturbação deixado.

Há lua no céu. Silente. Calma. Entende ter havido ruptura do instante, desassossegando corpo e alma. Sugere recuperá-lo. Como?

No horizonte distante a sombra das montanhas desenha silhuetas. Fixo-me nelas. Parecem guardar segredo que só elas mesmas conhecem. Nada as perturba. Que mistério haverá, no território que ocupam, capaz de isolá-las do alvoroço que nos maltrata já no romper do dia?

É tudo o que venho tentando descobrir, em silêncio. No passar das horas, o alvoroço dos automóveis, o choro de crianças, o descaso pelos vulneráveis perambulando pelas ruas, muitas vezes gritando o que fome e dor provocam, não permitem isso e convidam a que busquemos sair, apesar da imposição do isolamento. Procuro, então, por um texto, a que me entrego em busca do conforto moral e resposta a tantas questões que, nas conversas de antes, talvez não me levasse a conclusões tão precisas.

Tenho lido, como poucas vezes pude fazer, não porque me sobre tempo, mas a convite do silêncio, interlocutor preciso e generoso. É ele que me obriga a dividir o que leio ou tenho relido com prazer de primeira vez. Neste rol, diariamente, encontro em Drummond, Machado, Eça, dona Cecília, dona Clarice e Virgínia Wolf, companhia. Se neles encontro algo que me agrade, trato de dividir.

Em troca, respostas preciosas. Agradável, muito agradável este vaivém de artigos, poemas e canções. Tudo, numa velocidade extraordinária, graças a instrumentos que tanta novidade trouxeram ao mundo. Se assim é, possível obedecer ao que nos determinam em tempo marcado pelo medo e dor, deixando-se unir ao outro graças à tecnologia que se moderniza na velocidade da luz.

É o que alivia o peso da solidão e do isolamento. Permite, senão juntarmo-nos, ouvir, na conversa à distância e ao mesmo tempo próxima, a palavra que alimenta; sentir o gesto carinhoso, sem toque, mas passível de contemplação e de entusiasmo, ao ver, sorrir, chorar, sentir, a alma acariciada com a leveza do afeto.

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