A crise gerada pela pandemia do novo coronavírus forçou o fechamento de pelo menos 53 comércios em Piracicaba. De acordo com levantamento da Jucesp ( Junta Comercial do Estado de São Paulo), entre os meses de janeiro e novembro do ano passado havia 543 estabelecimentos ativos na cidade. Em 2020, no mesmo período, o número era de 490, uma diminuição de 9,7%.
Segundo o presidente da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), Luiz Carlos Furtuoso, essa redução realmente foi em função do isolamento social provocado pela covid-19. “No período que o comércio esteve fechado houve uma queda de abertura de empresas. Embora tenha dado uma melhorada depois que as lojas voltaram a funcionar, não foi o sufi ciente para suprir os estabelecimentos que não tiveram como se estabelecer nesse período da pandemia”, afirma.
Professor do Instituto de Economia da Unicamp, o economista Marco Antonio Rocha explica que várias empresas já se encontravam fragilizadas financeiramente quando teve início a pandemia. “Desde 2015, a massa salarial crescia muito pouco, houve pouca geração de postos de trabalho e um crescimento da renda relativa ao trabalho muito baixo. Isso já criava um cenário de fragilização para esses estabelecimentos comerciais, no sentido que eles vinham de uma queda acentuada da demanda. Muitos deles estavam bem endividados quando a pandemia começou”.
Além disso, de acordo com o economista, pela própria natureza de alguns serviços, tiveram comércios que encontraram dificuldade em se adaptar às mudanças impostas pelo isolamento social, como, por exemplo, as vendas online. “É o caso de bares, restaurantes e academia. Algumas atividades sentiram, além da conjuntura econômica que já vinha de alguns anos, os efeitos da pandemia e não conseguiram sobreviver”, afi rma Rocha.
Considerando esse cenário e um menor poder aquisitivo dos consumidores, o presidente da Acipi indica que o faturamento do comércio em 2020 deverá sofrer uma retração de 15% em relação ao ano passado. “Tem setor que conseguiu registrar um crescimento como é o caso dos supermercados. No entanto, no geral, houve uma queda nas vendas, acentuada principalmente entre o fi nal de março e julho”, destaca.
Economista e professora da PUC Campinas, Eliane Rosandiski diz que a crise da pandemia atingiu em cheio os comércios e serviços, em especial os que demandam maior contato com a população. “O cenário atual está muito incerto com a chegada da ‘segunda onda’, que no nosso caso nem seria correto chamar de segunda onda, mas independente do nome estamos retrocedendo para a fase amarela, com grande chance de voltar para fase laranja após o Natal”, destaca.
Segundo a professora, se, de fato, essa segunda onda se agravar, o ano que vem será muito difícil, uma vez que o governo federal, por enquanto, anunciou que irá suspender os programas de protetivos do emprego e da renda. “Se considerarmos que no período de pandemia os pequenos comerciantes tiveram dificuldades em acessar às linhas de crédito e, em 2021, sem essas linhas especiais, sem demandantes (visto que a renda estará comprometida e o desemprego muito maior), o cenário para os comerciantes está bastante incerto”, diz Eliane.
Para o professor da Unicamp, a perspectiva para o ano que vem é que 13 milhões de pessoas voltem a procurar emprego numa economia que está estagnada. “Não se sabe como será a evolução, o prosseguimento que vai se dar para o auxílio emergencial e isso vai ser fator chave para defi nir a conjuntura de 2021. O que estamos vendo é um crescimento rápido da taxa de desocupação, do desemprego, isso é bem preocupante porque no fi nal do ano tem o fi m do auxílio emergencial e também dos contratos temporários”, afirma Rocha.
FUTURO
Na avaliação de Eliane, para contornar a atual situação, o governo federal teria de, em primeiro lugar, reconhecer que existe uma pandemia e que ela não acabará no dia 31 de dezembro. “Feito isso, manter os programas protetivos do emprego e da renda e assim garantir consumo. Num segundo momento, lançar um programa de proteção aos pequenos produtores, garantindo que a estrutura de oferta não quebre”, opina.
Rocha diz que a questão principal é viabilizar uma política de grande porte de transferência de renda. “Isso é necessário para a gente combater a explosão de pobreza extrema. Certos municípios têm capacidade de articular uma política de transferência de renda e alguns já estão fazendo isso. Mas pelas condições de financiamento, o governo federal é o mais indicado para organizar e fi nanciar esse tipo de política”, explica.
O economista também fala da importância de uma política de geração de empregos. “Os governos municipais têm uma capacidade maior de fazer isso, podem contratar, realizar obras e atuar na geração direta de empregos. E, por fi m, tem de ter uma política de crédito de grande porte. O governo federal tem que aumentar o fundo para micro e pequenas empresas, facilitar o crédito para microempreendedores individuais e organizar uma possível renegociação de certas dívidas a partir dos bancos públicos, para melhorar o endividamento de todo setor privado”, afirma.
Em Piracicaba, segundo o presidente da Acipi, o primeiro trimestre de 2021 deve ser bem “ajustado”, sem grandes mudanças. “Tudo vai depender se o comércio vai ser mantido aberto em horário integral, se vai ser parcial. Acredito que vamos conseguir um avanço maior com a vacina já sendo disponibilizada, no segundo trimestre. Daí sim a gente acredita que vamos ter um crescimento mais acentuado”, enfatiza Furtuoso.
Ana Carolina Leal
ana.carolina@jpjornal.com.br
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