Piracicaba registra mais mortes pelo coronavírus do que 94 países

Por edicao_jp |
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O total de mortes em decorrência da Covid-19 em Piracicaba é maior do que o registrado em 94 países. Em números absolutos, o município supera desde pequenas nações, como Mônaco e Vaticano, até territórios populosos como o Vietnã, que possui 95 milhões de habitantes.

Levantamento realizado pelo Jornal de Piracicaba cruzou dados compilados pela Universidade Johns Hopkins com informações locais, divulgadas pela Secretaria Municipal de Saúde (confira nesta página). Até a manhã de sexta-feira (11), Piracicaba havia registrado oficialmente 19,6 mil casos da doença e 393 mortes.

Em número de óbitos, a cidade supera até mesmo países como a Noruega e Luxemburgo, que atribuem, respectivamente, 382 e 384 mortes ao novo coronavírus, apesar de já terem confirmado mais de 40 mil casos da Covid-19. Com mais de 140 mil casos confirmados da doença, o Catar é outro território com menos mortes que Piracicaba em decorrência do novo coronavírus, 240 no total.

Desde o início da pandemia, 16 países, a maioria deles pequenas ilhas, não registraram nenhuma morte pela doença. A Nova Zelândia, apontada por especialistas como bom exemplo no combate à pandemia, registrou 2.092 casos e 25 óbitos. Na América do Sul, o Uruguai confirmou, até o momento, 8.487 casos e 90 mortes.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde destaca que, pela dimensão de Piracicaba, “não faz sentido a realização de comparações sem critério”. Ainda de acordo com a secretaria, cada cidade tem uma característica econômica e cultural que explica a movimentação das pessoas no espaço urbano, o que implica diretamente no grau de transmissibilidade do coronavírus.

A nota também ressalta que o município conta com um grau de letalidade pela Covid-19 muito baixo se comparado com outras cidades e Estados. “A média mundial é de 2,29%; a média brasileira é de 2,68%; na Espanha é de 2,72%; na França, 2,41%; no Estado de São Paulo, de 3,34%; na cidade de São Paulo, de 3,47%, e na região de Piracicaba (DRS-X), de 2,23%”.

Para a infectologista Rachel Stucchi, coordenadora da Sociedade Brasileira de Infectologia, a letalidade não é um bom índice para avaliar a gravidade da doença nem se a atenção médica está adequada. “A letalidade avalia o número de óbitos dividido pelo número de diagnósticos confirmados. Então, a partir do momento que se faz muito diagnóstico, a letalidade cai e parece que tem um excelente serviço de saúde. Se testa pouco, a letalidade aumenta e parece que o serviço de saúde é péssimo, o que nem sempre corresponde à realidade”, explica.

A pesquisadora destaca que os países que controlaram bem a pandemia são aqueles que testaram muito. “Para cada caso diagnosticado, eles testavam todos os contatos com o exame de PCR, que faz o diagnóstico da presença do vírus, para então isolar essas pessoas”, afirma, ressaltando, ainda, que esses locais também instituíram precocemente medidas para evitar aglomerações.

Já o infectologista Arnaldo Gouveia Júnior, responsável pelo comitê Covid-19 do HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana), acredita que a comparação de Piracicaba com outros países como Uruguai e Nova Zelândia é pouco adequada. “A Nova Zelândia é um arquipélago isolado no meio do Oceano Pacífico, com pequena população. Quanto ao Uruguai, além de pequenino, está entrando na epidemia agora. Não custa lembrar que o ‘lockdown’ rigoroso da Argentina foi elogiado por especialistas, mas o resultado epidemiológico e econômico se mostrou desastroso”, afirmou.

Por outro lado, ele exalta a abordagem de Araraquara. “Sem distribuição de drogas de eficácia duvidosa, mas com uma estrutura de atendimento primário bem organizada, a cidade contou com equipes para rastreio precoce de infectados entre os que tiveram contato com os casos confirmados da doença”, explicou. Nesta semana, o município registrava pouco mais de 7 mil casos e 83 mortes em decorrência da Covid-19.

Rachel Stucchi ressalta que o papel do município frente à pandemia é o de fiscalizar todos os estabelecimentos abertos, para verificar o cumprimento adequado do uso de máscara e do distanciamento entre as pessoas. “As prefeituras devem saber se o número de pessoas dentro das lojas é o permitido, assim como se o horário de funcionamento está adequado e, principalmente, se todos estão de máscaras. O município pode tentar conter a transmissão punindo os que não estiverem dentro das regras”.

Dor Imensurável

O registro de 393 mortes em decorrência da Covid-19 numa cidade que conta com mais de 407 mil habitantes pode parecer pouco significativo, uma vez que o total de óbitos atingiu 0,09% da população. Para as famílias que perderam apenas uma pessoa, no entanto, a dor é imensurável.

“Foi quase um mês entre idas e vindas em hospitais, de sofrimento, de angústia, todo dia sentia tremor, calafrio quando tocava o telefone, porque eram poucas as notícias boas, eram notícias que dilaceravam, acabavam com as esperanças”, afirma a jornalista Luciane Cestari Masson. Em agosto ela perdeu o pai, José Carlos Masson, em decorrência da doença.

“A parte mais dolorosa, que a Covid rouba da gente, é não poder se despedir. Por serem idosos, do grupo de risco, meus pais já estavam isolados. Não tive contato com eles nesse período, para poupá-los da doença, mas não adiantou”, conta Luciane, que ainda não sabe onde o pai contraiu a doença.

Ana Carolina Leal

ana.carolina@jpjornal.com.br

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