Colcha de retalhos

Por Marisa Bueloni |
| Tempo de leitura: 3 min

*Meu pai enrolava entre os dedos um cigarro de palha caprichoso. Moviam-se ali tantos segredos daquele fumo sempre bem cheiroso. Meu pai me oferecia um pedacinho do fumo preto para que eu cheirasse. “Faz espirrar!” – dizia com carinho, esperando que em seguida eu espirrasse. E num espirro, a saudade bate. Meu coração mais uma vez se abate e nas lembranças, triste, me retiro. Ó pai querido, não me queres triste. Posso senti-lo, desde que partiste, quero espirrar… e só suspiro!..

  • Se o céu desabar, não haverá como sair de baixo. Feliz de quem construiu seu próprio refúgio dentro do coração. É coisa espiritual, que não se compra com dinheiro do mundo. Não é coisa física, tipo uma construção segura, senhores.
  • Os homens gostam de fazer a corte às mulheres. Clarice eternizou a abordagem masculina num texto onde ela conta do homem da fronteira, que a convidou para um “passeíto”. Hummm… A escritora, como sempre, espertíssima. Clarice romantizou o evento numa crônica soberba e respondeu: “Eu, hein?”.
  • Ainda estou nocauteada de sonho. Mas também indignada. As coisas dão uma volta muito longa para chegar onde desejam. Dona Vida é cheia de nove horas, reparou? Ela se adianta, se atrasa, chega no meio da festa e, às vezes, sai de fininho. Ninguém pode abrir a boca. Resta um caixão tristíssimo, flores de um perfume ruim, uma cova na terra, a conta maior que tiveste em vida.
  • É de bom tamanho, nem largo nem fundo. É a parte que te cabe neste latifúndio.
  • Durante a confissão, num momento inspirado, em que os santos nos altares pararam para ouvi-lo, o frei disse: “Minha filha, Deus conhece o barro de que fomos feitos”.
  • As coisas da Terra são sempre muito sombrias. Devem ser mais belas e mais alegres as do Céu. Buscai as coisas do Alto. É para as alturas que dirijo meu olhar solene, à espera de solenidades.
  • Na vertigem da vida, quero a voragem do que não acontece. Do sonho não realizado. Da sorte que nunca tivemos. Do concurso que não ganhamos. Do encontro jamais tido. Do beijo não dado. Dá para entender? Melhor o mistério eterno, que a revelação absoluta, escandalosa e cruel. Essas deixam marcas e a gente tem um medo colossal delas.
    Ou não?
  • Declaração de amor em tempos de violência explícita: Pare com isso ou eu chamo a polícia.
  • Às vezes, penso que estou no campo. Desperta-me o senso das andorinhas. Alisa-me a rosa dos ventos. Acordo do sono dos séculos. Abraça-me a força de que todos nós precisamos para ir em frente. Mais ali adiante, naquela curva, haverá uma rosa orvalhada. Será que chego lá?
  • Minha irmã mais velha é sábia e repete sempre este ditado: “Você é escravo da sua palavra e rei do seu silêncio”. Quero ser a rainha de mim mesma, enquanto viver. A não ser que caia em desgraça. Ninguém tá livre, fala sério.
  • Olho as frutas verdes e a floração de algumas coisas imperecíveis à minha volta. Maturação, parto, sonho. Adivinho um perigoso fragor de astros caindo. O rumor do canavial ao vento, o coração da Terra pulsando. O Sol se move entre as palavras. Perdida de amor, pergunto: Deus, por que fizestes tudo isso, assim, sem ao menos nos avisar?
  • Uma vez, quando a manhã se abria, me fechei. Foi a pior coisa que fiz na minha vida. O coração não pode se fechar. Nunca. Nem um dia sequer. Não é verdade, meu anjo?

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