“A memória da minha sociedade é relevante”

Por edicao_jp |
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Pedro Vicente Ometto Maurano é o novo presidente do IHGP (Instituto Histórico e Pedagógico de Piracicaba). O primeiro ato na função foi participar, no mês passado, de uma homenagem ao escritor Thales Castanho de Andrade em frente ao túmulo do prodígio piracicabano das letras, no Cemitério da Saudade.

Engenheiro e advogado, assumiu o instituto no lugar de Valdiza Caprânico. Assumir o IHGP, contou Maurano, é uma forma de expressar gratidão por Piracicaba. “Quero, por meio do instituto, retribuir à cidade o carinho que recebi quando vim de São Paulo para cá na década de 1970”. Ele é casado desde 1971 com Maria da Graça Ranzani Maurano, filha do ex-professor Guido Ranzani, da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), e pai de quatro filhos.

Aliás, Guido Ranzani é o tema do livro que Maurano escreveu e será lançado em breve pelo IHGP. “Escrevi com ajuda do professor Queiroz e foca o lado humano e de realizações sociais do ex-professor da Esalq”. À frente do instituto, Maurano promete continuar o trabalho de digitalização do vasto acervo do IHGP.

Maurano assumiu mês passado em cerimônia rápida, a qual seguiu os principais protocolos indicados para este período de pandemia, A chapa encabeçada pelo advogado foi eleita e empossada para o biênio 2020/2022. A assembleia geral ordinária valida o edital que clamou eleição em março passado, agendada para a segunda quinzena do mês e não realizada devido ao decreto da pandemia do coronavírus estipulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como surgiu a oportunidade de ser o novo presidente do IHGP?

Há dois anos, surgiu a ideia de fazer um livro sobre o meu sogro, o professor Guido Ranzani, jáa falecido, catedrático de solos da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Queríamos um livro que contasse o lado humano dele, o de avô, pai, sogro. Porque livros técnicos têm bastante e não é a minha área de conhecimento, não sou agrônomo. Então para este projeto, contatei, além de familiares, um velho amigo meu, o professor e jornalista Adolpho Queiroz, à época diretor do IHGP. Ele foi o responsável pelo livro e eu o incentivador, ajudando na pesquisa, e isso reviveu nossa antiga amizade. Também me aproximei do instituto e conheci a Valdiza Caprânico. Nestas conversas, em dezembro de 2019 me fizeram o convite. Aceitei o desafio, mas ai veio a pandemia. A assembleia foi adiada e feita apenas no começo de outubro, eleita a nova diretoria, com Edson Rontani Jr. na vice-presidência e Vitor Pires Vencovsky como primeiro tesoureiro, enfim, uma diretoria muito boa. Estamos registando a ata nestes dia, nos passos finais para representar o IHGP.

O senhor é membro do IHGP desde quando?

Faz um ano e meio, mais ou menos, na época em que começamos a escrever o livro. O convite de me tornar sócio foi durante uma reunião numa pizzaria da cidade, as famosas pizzadas do instituto. O IHGP é quem indica, o conselho aprova e então se convida para ser sócio. Valorizo muito a memória. Estou com 77 anos e quero resgatar nossas origens.

E sobre este livro, o que o senhor pode adiantar sobre ele?

Há quatro anos, eu, minha esposa Magá, nos encontramos num bar o Gustavo Hermann – eles são primos. Começamos a levantar ideias para homenagear o professor Ranzani, que já havia falecido. Falaram em um instituto, o que seria algo caro. E surgiu a ideia do livro, para contar nossa vida com o professor Guido. Foi conversado ali, cada um foi para sua casa e não se pensou mais nisso. Um dia, fui em um lançamento do livro do professor Hugo Leme, com o selo do IHGP. Achei lindo e pensei em fazer algo assim com o Guido. Então reuni a família para falar o que cada um viveu com ele. O Adolpho ceio para organizar tudo. Pegou as histórias de todos e alinhavou. Esperamos a pandemia passar para lançá-lo na sede do instituto.

Como foi a sua vinda a Piracicaba?

Todo mundo tem uma história e a história da minha vida já está com uma porção de páginas. E Meu sogro dizia, com 96 anos quando faleceu, que eu era uma criança e não ficaria velho. Minha mãe é piracicabana, filha mais velha de Narcisa e Pedro Ometto, nasceu no Água Santa e ficou por anos interna no Colégio Assunção. Naquela época, meus avós moravam no sítio (Água Santa) e sequer tinha estrada para a cidade. Só ia nas férias para casa. Um dia, minha mãe conheceu meu pai, farmacêutico, que visitava muito o interior de São Paulo. Começaram a namorar em 1942 e casaram  em janeiro de 1943. Eles foram para São Paulo e nasci lá, onde estudei e me formei na faculdade. Em julho de 1967, meu tio Júlio Ometto, no Bicentenário de Piracicaba e ano de fundação do IHGP (1º de agosto de 1967), me convidou para trabalhar na Usina da Barra e depois na Costa Pinta. Em 1971 conhecia a Maria da Graça, Magá, filha do doutor Guido Ranzani (engenheiro agrônomo, formado pela Esalq). Casamos, constituí família e aqui fiquei. Tenho quatro filhos, todos Ranzani Maurano.

E quem o introduziu a convívio em Piracicaba?

Foi meu tio, Celso Mello, que era o diretor da Usina Costa Pinto na época. Na casa dele, na Vila França, uma casa que parecia uma fortaleza, de concreto, onde hoje funciona um restaurante. Na Costa Pinto fiquei até 1975. Morei no Tamandupá até, perto do Recreio, terra do Roberto de Morais, e depois fui para a usina em Santa Bárbara d’Oeste, até 1981, quando comecei carreira solo. Trabalhei também com o falecido João Hermann. Hoje trabalho com a família num negócio que montei e gosto dar meus pitacos na área jurídica. Não sou especialista, mas adoro dar um conselhamento jurídico.

A sua formação com direito pode ajudar de alguma forma o IHGP?

Considero que sim. Meus conhecimentos jurídicos podem ajudá-los e um pouco da experiência administrativa. Fico feliz em meus amigos e todos envolvidos no instituto confiarem em mim neste mandato de dois anos. Tomo posse agora, provavelmente em maio de 2022, então, já passo o bastão para outro presidente. Posso concorrer à reeleição, mas é bom o rodízio.

O senhor já demonstrou preocupação, na gestão, em dar continuidade à digitalização do acervo. De que forma pensa neste processo?

O IHGP já trabalha forte na digitalização do acervo há algumas gestões. Tem documento lá com mais de 100 anos que deteriora, por mais que tomamos cuidado. Quero prosseguir com este cuidado e colocá-lo na mídia, inclusive para facilitar consultas. O pesquisador tem que ir lá. Agenda o dia e o Leandro Pavan, o diretor do acervo, acompanha a pessoa e tem que tomar cuidado, com luva e máscara. Como prevenção até da pessoa contra os ácaros. A digitalização é uma tendência que se acelera, ainda mais com a pandemia. O velho será guardado, tem muito valor.

E como entende a importância de preservar a memória de Piracicaba?

É hiperimportante. Piracicaba tem hoje uma população com mais de 400 mil habitantes. Do meu tempo, na década de 1960, não tinha 100 mil habitantes. O jovem precisa consultar a memória dos antigos. Ajuda a entender o que acontece hoje e como esse fato pode ter relação com algo de 50 anos atrás. A memória da minha sociedade é relevante. Como o livro que o Edson Rontani Júnior lançará em breve, sobre a participação de piracicabanos na Revolução Constitucionalista. Meu pai, apesar de não ter nascido aqui, mas casou com uma piracicabana, lutou em 1932. Tinha um grande orgulho de ter lutado em Cunha. Estes dias, meu irmão resgatou um capacete que ele usou, e estamos conversando sobre o que fazer com o capacete do velho Arthur Maurano. São coisas antigas bacanas de ler e conhecer.

Quais personagens de Piracicaba que o senhor gostaria que tivessem reconhecimento público, importantes para a memória do coletivo local?

Conheci uma pessoa, o Sálvio, um caricaturista, já falecido, citado num livro de caricaturas de autoria do professor Adolpho Queiroz. Em 1967, estava em um bar da cidade, na companhia de amigos, fim de tarde, e chegou um senhor com bolsa a tira colo e nos perguntou, humildemente, se gostaria que fizesse uma caricatura minha. Eu falei, ‘tudo bem’, e ele me questionou se gostaria que fosse ‘séria’ ou jocosa’ - achei graça naquela época ainda usar esse termo. Optei pela jocosa. Perguntou-me minha formação e simplesmente falei Engenharia Metalúrgica. Só falei isso e fez uma caricatura muito bonita. Desenhou um homem de bigode, tomando uma cerveja, fumando, com um cadinho de metalurgia escrito cobre, castanho. Tenho até hoje guardado. Fiquei sabendo, depois, que ele dormia na sede do Diário de Piracicaba – funcionários deixavam ele entrar porque era pobre e não tinha onde dormir. Era um grande artista. Sua memória está perpetuada neste livro.

Lembra de outros personagens?

Sim, por exemplo, o Nhô Lica. O Cecílio (Elias Neto) fez ótimos trabalhos sobre ele. Pegava pedras nas ruas e mandava guardar, pensando que era ouro. Outro é o Coronel Passa-Quatro, que segundo meu sobro, era um senhor do Centro da cidade, um personagem de Piracicaba por volta da década de 1940.

E quanto a lugares de Piracicaba que, de alguma forma, o senhor como presidente do IHGP, considera essencial para entender a cidade?

Acho maravilho o Salto de Piracicaba, o Engenho Central e o Monte Alegre, com um ótimo trabalho de recuperação do Balú Guidotti – precisa de mais investidores! Além disso, o nosso rio é um indiscutível cartão de visitas, e o Cemitério da Saudade é uma visita ao passado. Basta visitar os túmulos que estão lá para acessar a memória de Piracicaba. São pessoas ilustres, como Thales de Andrade, Prudente de Moraes, Dr. Losso Netto. Não tive contato pessoal com o Dr. Losso, mas é uma pessoa importante, que estava envolvida com muitas questões da cidade. Além de médico, diretor clínico da Santa Casa por anos, foi um homem muito habilidoso, trabalhou com grandes figuras. Piracicaba está cheia de pessoas que deixaram marcas boas.

E os próximos lançamentos do IHGP, o que pode adiantar?

Houve um atraso nos lançamentos, de livros que já deveriam ter acontecido na gestão da Valdiza Caprânico, como um livro do Edson Rontani Júnior, o próprio livro que escrevi sobre meu sogro. São entre cinco e seis livros que sairão na minha gestão, mas são processos que começaram com a Valdiza e do grupo que está saindo. O atraso, claro, é devido à pandemia, e serão lançados assim que a política sanitária da cidade permitir eventos, coisa simples no prédio do instituto, no Jaraguá. Aliás, estamos com uma pequena manutenção no prédio, cedido pela Prefeitura.

O IHGP já reabriu após o fechamento em meio à pandemia?

Por causa desta reforma ainda não, mas em breve vamos abrir para o agendamento de pesquisas, sempre com o diretor do acervo junto, o Leandro Pavan. Vamos divulgar isso.

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