Varejo e consumo em patamar diferente de 2019

Por Antonio Carlos Giuliani |
| Tempo de leitura: 3 min

O varejo brasileiro continua crescendo acima do PIB e impulsionando a economia do país, mesmo em um cenário impactado pela crise do coronavírus. Estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), em 2019, intitulado “O papel do varejo na economia brasileira”, faz uma radiografia atual e completa do setor no país, assim como revela que o varejo emprega cerca de 26% dos trabalhadores com carteira assinada, o que representa mais de 8,5 milhões de pessoas.

Esses números mostram a força e a importância do setor para o Brasil, porém, ao analisar sua conjuntura em abril de 2020, pode-se observar que é completamente diferente à do ano passado, quando ele teve uma aceleração do desempenho no segundo semestre e trouxe expectativas positivas, as quais sofreram impacto por causa do coronavírus.

As únicas certezas que temos são estas: a transformação digital dos negócios ganhou um forte impulso; o comportamento dos consumidores mudará, e isso irá gerar um novo ciclo de desafios e oportunidades. Se uma nova surpresa não surgir nos próximos meses, em 2022, o varejo e o consumo do Brasil deverão atingir os mesmos patamares de 2019.

Entretanto, a travessia entre o agora e 2022 será longa, como resultado de um profundo processo de desajuste no varejo e no consumo do país decorrente do quadro atual. O Brasil já estava abalado pelas consequências estruturais no emprego e na renda após a crise 2014-2018.

Por causa da pandemia, houve redução da renda dos empregados do setor privado e aumento do desemprego, pois a oferta de trabalho está abaixo de seu potencial, o que tem gerado uma retração generalizada da renda e feito com que o capital gire pouco no varejo. A recuperação da massa salarial, que é o motor do consumo interno e já vinha sendo enfraquecida, demandará tempo para ocorrer, supostamente para 2022.

Estima-se algo em torno de 80% dos maiores bancos comerciais privados concedendo crédito excessivamente caro às famílias, o que inibe a recuperação e o crescimento interno. Embora nem todos estejam convencidos de que irá faltar renda, emprego e perspectivas, serão muitas as incertezas e as inseguranças quanto ao futuro.

Além de todos esses acontecimentos, vivenciamos uma crise de liderança dos gestores de diversos poderes tanto públicos quanto privados, que não sabem incentivar o pensar positivo e a busca de soluções integradas. A desorganização setorial comprometerá as organizações varejistas, de forma que as mais estruturadas e as de maior porte crescerão substancialmente no tocante à sua participação de mercado.

Por outro lado, as de pequeno e as de médio portes, por falta de crédito e de apoio, poderão perder participação ou até mesmo desaparecer. Basta verificarmos alguns indicadores: o setor de super e hipermercados tem um crescimento estimado em 6%, se comparado com o mesmo período do ano passado; os atacarejos, superior a 20%; as farmácias e drogarias, um crescimento próximo de zero.

Para vestuário, calçados e outros similares, negativo perto de 40%, alimentação fora do lar, negativo em 60%, setor de material de construção, negativo em 10%, percentual que foi mais elevado no início da pandemia. A maior crise concentra-se no turismo, negativo em 92%.

As pessoas estão cada vez mais conectadas ao mundo digital, o que lhes possibilita consultar e comprar produtos pela internet com o conforto de suas casas, portanto o mercado deve se inserir de vez nesse novo ambiente. O uso da tecnologia, e-mails, redes sociais e chats, aliado a ferramentas como o Big Data Analytics, será uma oportunidade para o varejo aquecer as vendas.

As mudanças que estão ocorrendo requerem um repensar nas ações a serem tomadas para a continuidade dos negócios em um contexto de incertezas.

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