Mulheres revelam por meio da arte faces da vida em isolamento

Por edicao_jp |
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A pandemia da covid-19 mudou tudo, inclusive o processo criativo de artistas. O isolamento necessário, forçado pela disseminação do vírus, alterou rotinas e também aguçou o senso crítico, a percepção da realidade e escancarou tanto fragilidades como poderes da mente humana. Transpor todos estes sentimentos em palavas, fotografias, filmagens, desenhos é o denominador comum de 16 mulheres, entre elas a piracicabana Lídice Salgot, na obra colaborativa Expandir o presente, criar o futuro, que será lançado online neste sábado, às 15h, em um sarau virtual pelo aplicativo Zoom.

A obra, que é um E-Book (em PDF), será comercializado pelo preço simbólico de R$ 10 e, posteriormente, será lançado em versão física. Como conta a organizadora desta edição, Mirlene Simões, a intenção é que o livro seja distribuído a mulheres do setor da saúde. O citado lançamento, inclusive, pode ser acompanhado pelo público, basta acessar o link de acesso que está nas redes sociais do projeto – busque por Expandir o presente, criar o futuro.

Lídice representa Piracicaba entre dezesseis mulheres de diferentes espaços territoriais, nacionalidades, com culturas e formação profissional diversas. Poucas se conhecem pessoalmente e a ideia, segundo Mirlene, foi mesmo expandir o isolamento social. “Surgiu de um grupo de mulheres organizadas num sentido só, o de como organizar um futuro diferente daquele que estamos vivendo”, conta a organizadora sobre a diversidade. “Fala de mulheres para outras mulheres”.

Sobre o trabalho nesta obra, Lídice revela que aceitou desafio de atuar além do ofício a qual é conhecida e prestigiada – e muito além de fronteiras piracicabanas. “Escrevi e também fiz três aquarelas figurativas, o texto é uma reflexão sobre os desenhos”. A produção da artista no livro é reflexo do atual momento imposto pela pandemia. “Sinto que neste momento em que produzo mais em casa, e vou menos ao ateliê, crio com mais detalhes, um olhar mais minucioso. É como uma forma de preencher o tempo”.

Assim como Lídice, cada autora escolheu, entre março e maio de 2020, um dia, ou os dias, que refletiam seu cotidiano no isolamento. Surpresas, frustração, insegurança, descobertas, carinho e buscas. O encadeamento entre essas expressões ficou a cabo das editoras Mirlene Simões e Fabíola Notari, e da artista visual Priscila Bellotti.

Na obra, entre outras vozes, uma poetisa cubana, doutoras em Ciências Sociais, Planejamento Energético, Literatura Russa ou Ciência da Informação, uma escritora finalista do Jabuti, uma psicanalista, artistas visuais que nos revelam sentimentos da Serra, da cidade grande ou do Alentejo.

Com o ouvido atento, Ana Paula Meneses Alves, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Granada, na Espanha, reverbera a angústia destes dias: “Entro no banho e escuto a água batendo no meu cabelo. Gritos. Gritos. Gritos da vizinha que sempre grita. Sempre me incomodou os gritos dela com a filha. As palavras que, para mim, eram piores do que qualquer surra. Mas hoje é diferente”. “A água continua a rolar pelos meus cabelos. Escuto mais gritos. Gritos de mulher, gritos de homem, coisas quebrando, coisas rolando”, relata.

A inspiração para o título do livro, revela a organizadora, veio do professor Boaventura de Souza Santos.

Erick Tedesco

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