Arnaldo Gouveia Jr: distanciamento social contra a Covid-19

Por edicao_jp |
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O médico infectologista Arnaldo Gouveia Júnior , 56 anos, é coordenador do Serviço de Infecção Hospitalar do HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana) de Piracicaba. Nascido na Capital paulista, ele é filho do casal Nilda Paes e Arnaldo Gouveia e irmão de Elaine, banca?ria; Ricardo, engenheiro meca?nico; Giselle, engenheira florestal; Danielle, funciona?ria pu?blica federal e Hermes, gerente de supermercado.

Gouveia mora em Americana, onde coordenou as Comissões de Controle de Infecção Hospitalar de hospitais das redes pública e privada, além de atuar em outras cidades como Sumaré e Santa Bárbara d’Oeste.

Atualmente, o infectologista atua no HFC, após ser convidado pela diretoria do hospital. O médico é casado com Cristiane, enfermeira obste?trica e pai de Esteva?o 27 anos e de Theodoro, 24.

O coordenador é me?dico formado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde fez reside?ncia me?dica na a?rea de mole?stias infecciosas e parasita?rias.

Ao terminar a reside?ncia, começou a trabalhar em Americana em 1991, onde estruturou a Comissa?o de Controle de Infecc?a?o Hospitalar do Hospital Municipal e ajudou a implantar o Ambulato?rio de DST/AIDS do munici?pio.

Gouveia também coordenou a CCIH nos Hospitais Unimed de Americana, Sa?o Lucas, Sa?o Francisco, Estadual de Sumare? e em Santa Ba?rbara d’Oeste.

O infectologista conta que sempre atuou como me?dico integralmente, prestando atendimento aos pacientes tanto ambulatoriamente, como depois de internados.

De 1990 a 2019 tambe?m trabalhou em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em va?rios hospitais da região.

De 1992 a 2000 ele foi responsa?vel pelo setor de Vigila?ncia Epidemiolo?gica na cidade de Americana, fez formac?a?o como facilitador em ana?lise bioenerge?tica e depois, ana?lise transacional e Gestalt Terapia, tendo atuado em grupos terape?uticos.

No HFC ele chegou no momento em que parte do mundo enfrenta a pandemia de Covid-19. Até a última quinta-feira (data desta entrevista) o hospital registrava 24 casos de coronavírus, sendo 16 profissionais e oito pacientes, enquanto 27 suspeitos aguardavam resultados de exames. A instituição tem uma morte confirmada pela doença e outras três são investigadas.

Em Piracicaba, até essa data, a Secretaria de Saúde do município registrava dez mortes por coronavírus, 115 casos confirmados, 191 aguardavam resultado de exame e 289 foram descartados.

Na avaliação do infectologista, em Piracicaba a disseminação da Covid-19 está com menos velocidade, ao que ele atribui o isolamento social.

Nesta semana, apesar da agenda carregada – como a maioria dos profissionais de saúde - o infectologista aceitou o convite do Jornal de Piracicaba para ser o entrevistado do Persona e, por email, respondeu as questões sobre o assunto que é evidência no mundo e coloca os profissionais da área na linha de frente dessa batalha contra um inimigo invisível e que conta com a conscientização da sociedade para o enfrentamento.

Como o senhor avalia o comportamento do coronavírus, no Brasil, Estado de Sa?o Paulo e, em especial, na cidade de Piracicaba?
O Brasil na verdade esta? vivendo epidemias em momentos diferente, uma nas capitais, ja? se aproximando do pico epide?mico e outra no interior incluindo Piracicaba e regia?o, onde a doenc?a esta? se instalando de modo menos abrupto (provavelmente devido a?s medidas de distanciamento social).

Quais as estati?sticas do HFC ate? o momento?
Dia 29 de abril ti?nhamos 24 casos confirmados, sendo 8 pacientes e 16 profissionais de sau?de – curiosamente, a grande maioria dos profissionais na?o adquiriu a doenc?a durante os cuidados aos pacientes, mas sim atrave?s da transmissa?o de um profissional ao outro. Outros 27 pacientes aguardam resultado. Tivemos uma morte confirmada por Covid-19 e estamos investigando outras três.

O senhor acredita que o isolamento seja a maneira mais eficaz de evitar o conta?gio da doenc?a?
O distanciamento social e? a maneira mais efetiva encontrada ate? o momento para desacelerar a disseminac?a?o do coronavi?rus, de modo a na?o termos um nu?mero de doentes superior ao que somos capazes de atender

A me?dia de adesa?o a? quarentena em Piracicaba, segundo dados do Governo do Estado de Sa?o Paulo, tem sido de 47%, esse percentual e? suficiente, do ponto de vista me?dico, para combater a Covid-19?
Para ser plenamente efetiva, a adesa?o a?s medidas de distanciamento social deveria superar os 70% e ha? evide?ncias de que seria bene?fica a exige?ncia do uso de ma?scaras para frequentar espac?os com aglomerac?a?o de pessoas com mercados, bancos, igrejas e conge?neres.

Como o senhor avalia a ocupac?a?o dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) na cidade, sera? suficiente para atender a? demanda de pacientes?
A soma do nu?mero de leitos de UTI disponi?veis nas redes pu?blica e privada da cidade e? suficiente para atender a demanda local. A questa?o e? que Piracicaba polo regional para sau?de e doentes de munici?pios vizinhos vira?o para ca?, o que torna mais difi?cil o ca?lculo. Provavelmente, no pico da epidemia teremos uma grande pressa?o sobre o sistema, complicada pelos esperados casos de adoecimento de profissionais de sau?de.

O nu?mero de mortes pelo coronavi?rus no Brasil esta? aumentando a um ritmo mais acelerado do que o registrado na Espanha quando o pai?s europeu estava na mesma fase da pandemia, tre?s semanas atra?s.

O Brasil pode se tornar um novo epicentro da doenc?a?
Do ponto de vista do Covid-19 o Brasil esta? enfrentado va?rias epidemias com dina?micas diferentes. As piores taxas de ataque proporcionalmente a? populac?a?o sa?o as da regia?o Norte. Minas Gerais esta? comec?ando, a Grande Sa?o Paulo se aproximando do pico. Na?o faz muito sentido comparar o que se passa no Brasil com a Espanha, pai?s muito menor e menos heteroge?neo, com nu?mero de habitantes equivalente ao do Estado de Sa?o Paulo.

O pai?s esta? em uma curva ascendente da doenc?a, qual a previsa?o para chegarmos ao pico?
Estimativas preveem que nos grandes centros, onde se concentram a maioria dos casos, estaremos chegando ao pico da epidemia em meados de maio. Contudo e? de se esperar que cidades que iniciarem o surto mais tarde, tera?o o pico epide?mico mais tardiamente.

Qual a sua avaliac?a?o das estrate?gias adotadas pelos governos municipal (Piracicaba), estadual e federal no enfrentamento a? doenc?a?
Os governos estadual e municipal vêm agindo de forma concertada e coerente, o ministe?rio da Sau?de tambe?m tem tido ac?o?es acertadas, embora tumultuadas por interfere?ncias presidenciais.

A situac?a?o atual, com nu?mero de mortos e infectados, está dentro do previsto pelas autoridades em sau?de?
Com relac?a?o ao munici?pio de Piracicaba e regia?o considero que o nu?mero de casos esta? ate? abaixo do esperado, evidenciando-se o acerto das medidas de distanciamento social. A ni?vel dos grandes centros esta? dentro do esperado (com excec?a?o de Manaus), na?o se observando ate? o momento as situac?o?es drama?ticas de cidades como Nova Iorque, Wuhan, Barcelona e Be?rgamo.

Quanto a cura, o senhor acredita que as pesquisas esta?o no caminho para encontrar o medicamento de combate à Covid-19?
Cura, certamente na?o. Toda a divulgac?a?o atabalhoada de tratamentos “milagrosos” tem sido desafortunadamente, permeada de voluntarismo e ma? evide?ncia cienti?fica. Nenhuma das medicac?o?es propostas ate? agora passou por validac?a?o te?cnica adequada. A vacina deve vir, mas na?o nos pro?ximos seis meses.

O trabalho com anticoagulante ganhou destaque recentemente, e e? defendido pela médica Elnara Negri. Como o senhor avalia as pesquisas em torno da cura para a Covid-19? Qual a expectativa para a descoberta de um medicamento eficaz?
A abordagem da Dra. Negri, baseada no uso de anticoagulantes para pacientes graves e? cientificamente interessante e esta? sendo estudada tambe?m por pesquisadores de Mila?o. Ha? outros medicamentos em avaliac?a?o para o tratamento de formas graves da doenc?a, como o tocilizumabe e o uso de soro de pacientes que se recuperaram da doenc?a. Quanto a um medicamento que leve a uma cura radical, com as dos antibio?ticos para as infecc?o?es bacterianas na?o existe nada em vista.

O que o senhor recomenda a? populac?a?o nesse momento para o enfrentamento do coronavi?rus?
Recomendo seguir as orientac?o?es oficiais quanto ao distanciamento social, higienizac?a?o das ma?os e uso de ma?scaras em ambientes com aglomerac?a?o, inclusive o ambiente de trabalho; preservar os idosos evitando visitas e mesmo proibindo o acesso aos asilos e cli?nicas para idosos (onde podem ocorrer surtos explosivos e de alta mortalidade); evitar a automedicac?a?o e sempre ter olhar cri?tico sobre as informac?o?es obtidas das redes sociais sem fonte confia?vel.

Beto Silva

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