Empatia, em rápidas palavras, é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Então, um convite: imagine-se em meio a uma pandemia, na qual precise ter acesso a informações corretas e claras de como agir para proteger você e aqueles que ama, mas, ao assistir ao telejornal ou ler uma reportagem, tudo é muito confuso porque os apresentadores e repórteres não falam a sua língua. Esta é a situação vivida por muitos surdos usuários de Libras (Língua Brasileiras de Sinais) em meio à pandemia da Covid-19.
Para chamar a atenção das emissoras de TV e de outros veículos de comunicação pela falta de acessibilidade, a Febrapils (Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais) e a Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos), em parceria com outras entidades da área, lançou a campanha #LibrasNaTV. Os surdos usuários de Libras precisam da tradução simultânea, já pessoas com deficiência auditiva, as legendas.
“Em tempos de pandemia é urgente que as diferentes mídias responsáveis pelo jornalismo se responsabilizem pela garantia de acesso às informações em Libras para nossa comunidade”, diz Thiago Pereira da Silva, 35, um dos líderes da comunidade surda de Piracicaba.
Até o momento, o Grupo Libras Piracicaba e Região tem coordenado a campanha na cidade e contabiliza mais de 460 fotos publicadas de apoio, segundo a coordenadora e intérprete de Libras, Beatriz Aparecida dos Reis Turetta, responsável também pela tradução das entrevistas desta reportagem. Para participar, basta publicar uma foto nas redes sociais usando as hashtags #LibrasNaTV, #Apoio, #SãoPaulo.
“Eu assisto à televisão, mas não consigo entender as notícias, as pessoas falam, mexem as bocas, mas eu não consigo acompanhar. Eu tento entender o contexto pelo visual, pelos desenhos e pelas fotos, mas às vezes não tem nada visual e fica mais difícil ainda”, conta Pedro Domingos Grella, 54, surdo. Assim como Grella, a jovem Lívia Rodrigues Pereira, 19, surda, também sente essa dificuldade. “Eu assisto televisão com minha família e não entendo nada”, relata.
São poucos os canais de televisão que oferecem a tradução simultânea em Libras. Por isso, as federações chegaram a enviar um ofício aos veículos de telecomunicações do país solicitando atenção à acessibilidade, porém, segundo mensagem aberta publicada pelas federações, não obtiveram respostas. “O não acesso a conteúdos tão importantes e essenciais, ainda mais no momento crítico que vivemos, fere os direitos linguísticos dos surdos que têm a Libras como seu meio de comunicação e expressão reconhecida pela Lei 10.436/2002.”, diz o ofício.
Nem todos os surdos foram alfabetizados na língua portuguesa. “Algumas informações com legenda são um pouco mais fáceis mas também não resolvem o problema porque eu não conheço todas as palavras”, conta Grella. Quando também se vê nessa situação, Lívia recorre a sua mãe, que não aprendeu Libras e mesmo tentando ajudar a filha com gestos nem sempre é eficaz. “Às vezes fico triste, outras vezes fico muito nervosa. Queria muito que tivesse janela de Libras na televisão”.
Para ter acesso e compartilhar informações sobre o novo coronavírus, os participantes do Grupo Libras Piracicaba e Região utilizam um chat compartilhado no WhatsApp.
Andressa Mota