Ginásio do Jaraguá se transforma em ‘Lar das Ruas’ e abriga 43 pessoas

Por edicao_jp |
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O Ginásio Municipal Esportivo, no bairro Jaraguá, ao menos durante a pandemia do novo coronavírus, é o Centro de Acolhimento ao Morador em Situação de Rua, ou Lar das Ruas, como o chama Fabiane Fischer Oliveira, a nova secretária da Smads (Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social). Em nove dias de atividade, do dia 5 de abril até a tarde de ontem, o local já abrigava 43 pessoas em situação de rua, que estão 24 horas monitoradas por equipes de saúde, recebem cinco alimentações diárias, além de ter orientação espiritual e psicológica, biblioteca e TV à disposição, mais aulas matinais de educação física. Neste período, o Jornal de Piracicaba fará doações de exemplares diários para que os abrigados possam ter acesso às informações

O Lar das Ruas é um acolhimento completo para, segundo Fabiane, uma população fragilizada pela experiência de viver nas ruas, cujas adversidades são desde como conseguir alimentação, dormir ao relento e, não raramente, o envolvimento com drogas. “Entendemos que eles fazem parte de uma camada social que não tem muitas escolhas e, com a pandemia, seria um veículo de propagação do vírus. Podem contrair ao receber uma doação ou, então, transmitir a Covid-19 ao pedir dinheiro no semáforo, por exemplo”.

O JP esteve ontem no ginásio, transformado em abrigo de campanha. A reportagem chegou ao local momentos antes do café da tarde. Enquanto aguardavam a refeição, um grupo jogava futebol num campo improvisado no gramado da parte externa; já outros apenas conversam em círculo ou se entretinham com algum jogo.

Na parte de dentro, algumas pessoas se reuniam em frente a TV e, outras, recebiam orientações de saúde. Ainda na área interna estão os alojamentos, devidamente divididos entre setor masculino e feminino, que ocupada metade de onde era a quadra. Para a segurança, uma equipe da Guarda Civil permanece 24 horas no local.

Como destaca a secretária da Smads, o acolhimento é voluntário. “Algumas pessoas vieram por conta própria, mas nossa equipe também fez ações na praça José Bonifácio e da Praça Takaki, no entorno da Igreja dos Frades e na Praça do Parafuso”, revela Fabiane. “Não é um confinamento”, completa. Segundo a titular da pasta, o Lar das Ruas funcionará “até quando for necessário” manter o abrigo provisório em detrimento à disseminação da doença. “Vamos acolhê-los e mantê-los protegidos”.

Fabiane explica que o Lar das Ruas tende a ser uma ação que extrapolará a pandemia. A secretária afirma que, mesmo após o fim da imposição do isolamento social, esta ação no ginásio possibilitará fazer um encaminhamento das pessoas em situação de rua que aceitaram, voluntariamente, participar desta quarentena. “Poderemos ver quais deles estão aptos à frente de trabalho, quem pode ser encaminhado à clínicas e quais podemos fazer a ponte com a família”.

Das 43 pessoas abrigadas, afirma a secretária, nenhuma foi contaminada pela Covid-19 ou apresenta sintomas da doença. Quando chegam, passam por triagem médica. “Apenas dois tinham quadro de gripe, mas já estão curados”, ressalta Fabiane.

Um dos acolhidos é Luciano da Cunha, o Paulista, de 44 anos. Natural de São Paulo, está há cerca de um mês em situação de rua em Piracicaba. Viajou da capital para Piracicaba de forma aleatória, ele conta, a princípio não para fugir da pandemia, mas sim do desemprego. “Foi a primeira vez que estive em situação de rua. Perdi o emprego, a casa e, para não transferir meu problema à família, saí de São Paulo”, revela.

Veio a Piracicaba para progredir, ressalta Luciano. Quando a pandemia acabar, ele quer buscar um emprego e se estabelecer na cidade. “A Covid-19 é mundial e é muita coragem da prefeitura em montar este local para pessoas como nós. Aqui recebemos apoio, instruções de como manter a higiene, manter a distância necessária, usar máscara, etc”.

Ao lado de Luciano, Mario César da Conceição, de 37 anos, concorda com tudo que o colega fala à reportagem do JP. Ele veio a Piracicaba há 23 anos, de Santo André, e está em situação de rua desde agosto de 2019. Foi voluntariamente ao Lar dar Ruas já na semana passada. “Aqui nos dão atenção e ajudam como podem. Participo das atividades e ajudo a limpar o salão, assim como o Luciano”.

Antes de se terminar a entrevista, Mário, que por anos trabalhou em construção civil, fez um apelo. “Na rua, somos constantemente discriminados, mas tem gente que apenas não tem onde morar. Temos sonhos para sonhar, mas nem sempre temos oportunidade de trabalho. Sei que muitos empresários e comerciantes podem mudar nossas vidas. Pedimos, àqueles que têm condição, de nos dar uma oportunidade, um emprego”.

Erick Tedesco

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