CRÔNICA

Ensurdecedor: o minuto de silêncio do homem que calou o Maracanã

Por Guilhermo Codazzi | Taubaté
| Tempo de leitura: 3 min
Editor-chefe de OVALE
Arquivo Nacional

Dia 18 de outubro de 1964. 
O Maracanã, maior templo do futebol, está colorido de Fla-Flu.

A bola desfila pelo tapete verde à procura de chuteiras imortais, com o poder de hipnotizar 136.606 apaixonados torcedores.

Por 90 minutos, não é de se duvidar, até o Cristo Redentor só tinha olhos para o testemunhar o clássico, aquele, que teve apito inicial 40 minutos antes do nada.

Ainda no primeiro tempo, após receber um passe letal pelo meio da zaga, Ubiracy recebe e empurra a bola para o fundo das redes rubro-negras: Fluminense 1 x 0 Flamengo. Festa pó de arroz!

Um gol, literalmente, de cinema, imortalizado pelas lentes das câmeras do Canal 100. Aos 22 anos, Ubiracy calou o Maracanã.

“O silêncio da torcida do Flamengo no gol de Ubiracy foi mais ensurdecedor do que a comemoração da torcida tricolor”, declarou aos jornais, na época, o genial Nélson Rodrigues, fanático torcedor do Fluminense.

Com aquele tento, Ubiracy foi alçado aos status de herói. O Tricolor das Laranjeiras seguiu forte rumo ao título carioca, com um escrete repleto de craques, como Castilho, Carlos Alberto Torres e Didi. Uma seleção!

Após decidir o Fla-Flu, a sorte parecia sorrir para aquele jovem atacante negro, especialista em calar o maior estádio do mundo. Um ano antes, na final dos aspirantes, Ubiracy já havia assinalado gol do título Tricolor contra o Flamengo, diante de 177 mil torcedores. Quanto silêncio cabe no Maracanã?

Alçado à condição de herói predestinado, o atacante via o futuro desabrochar diante de seus olhos, como um gol aberto e, aparentemente, sem goleiro.

Quem poderia imaginar que aquele mineiro de Leopoldina, veja só, chegaria a ofuscar até mesmo o Rei do futebol?  “O público veio ver Pelé, mas viu Ubiracy”, dizia a manchete do jornal após o Flu bater o mítico Santos por 4 a 2 no Pacaembu, pelo Torneio Rio-São Paulo, em 1963. Naquela noite, com dois gols, Ubiracy foi o rei.

Com a bola no pé, na sequência da carreira, o craque desfilou seu talento e faro artilheiro por equipes no México, onde foi ídolo, e no Equador. “A gente jogava por amor”, recordava Ubiracy.

Porém, a fama é efêmera quanto um jogo de futebol e o tempo, muito além de 90 minutos, empalidece a memória.

Em 2009, 45 anos após a glória de calar o Maracanã, Ubiracy era o silêncio.

Eu o encontrei distante da fama, dos refletores e holofotes, das manchetes de jornais, dos gritos da torcida ou da festa da vitória.

Absolutamente anônimo, como um geraldino da vida, o ex-craque vivia aos 66 anos em uma casa simples no Parque Três Marias, bairro na periferia de Taubaté, vivendo com R$ 460 de aposentadoria.

Aqueles pés que tocavam a bola para o fundo das redes e levavam a torcida a tocar  o céu com as mãos, agora raramente tocavam a rua. Não gostava de contar para os vizinhos as suas histórias do tempo de jogador, tinha medo de que alguém o acusasse de mentiroso. “Aqui, ninguém me conhece, quando está no auge, tem aplausos, depois, ninguém se lembra de você”.

Para dominar as lembranças no peito e aquietar a saudade, Ubiracy lia velhos recortes de jornal, que testificavam as suas glórias. Em um duro golpe da vida, a sua memória estava em risco. Médicos tinham diagnosticado mal de Alzheimer.

Por isso, correndo contra o tempo, o velho craque sentava-se no quintal de casa, com os recortes na mão, e parecia contemplar o passado, como se estivesse sentado nas arquibancadas do tempo. Voltava no tempo. Parecia ouvir 150 mil almas em coro.

Com um corte seco, como o trilar estridente de um apito, a realidade logo anunciava a substituição: sai o passado de glória, volta o presente inescapável.

O diagnóstico abateu o ex-craque. A impressão era que ele só aguardava o tempo passar, à espera de seu apito final. De seu minuto de silêncio. Anos mais tarde, em 5 de maio de 2015, Ubiracy morreu.

Em silêncio. Um silêncio capaz de ensurdecer o Maracanã.

* Texto originalmente publicado no livro Cartas Perdidas em um Mar de Palavras

Comentários

Comentários