O GOL MAIS BONITO

O álbum da Copa do Mundo e a figurinha que faltava

Por Guilhermo Codazzi | Taubaté
| Tempo de leitura: 2 min
Editor-chefe de OVALE
Reprodução

Faltava só uma figurinha!

O ano era 1990. Eu estava a um passo de realizar um sonho: completar o álbum de figurinhas da Copa do Mundo.

Era o primeiro Mundial que eu, então com 9 anos, acompanhava de perto. Havia no ar aquela atmosfera única, com ruas pintadas, fitas em verde e amarelo enfeitando a cidade, fogos de artifício pipocando o céu e camisas da Seleção Brasileira por todos os lados.

Para mim, além de toda a empolgação, o gostinho era de superação. Afinal, entrei em campo com pé esquerdo e fui para o DM no meio da competição: peguei caxumba.

Mas calma, ainda pode (e vai) piorar. Após três vitórias na fase de grupos, nada convincentes, diga-se de passagem, o Brasil entrou em campo contra a Argentina, de Maradona, com amplo favoritismo. No entanto, em um lance magistral de Don Diego, Caniggia bateu Taffarel e eliminou a Seleção, ainda nas oitavas de final.

O resultado caiu como uma bomba lá em casa. Meu irmão Julio e eu, em protesto, ficamos dias sem falar com a minha mãe, nascida em Buenos Aires. Também pintamos chifrinhos e batons nas figurinhas de Maradona (vi que hoje em dia ela chega a custar R$ 300), Goycochea e companhia.

Se dentro de campo o Brasil decepcionou, o álbum de figurinhas tornou-se a nossa Copa. Completá-lo era como conquistar o título!

E nós não medíamos esforços. Pegávamos o dinheiro do lanche escolar e comprávamos figurinhas (crianças, por favor, não façam isso em casa). Eram tempos de grana curta e os gastos eram em dobro: o Julio tinha o álbum dele, eu tinha o meu. E era uma competição, para ver quem seria campeão.

Abre um pacotinho aqui, outro ali, troca aqui, troca ali, bate bafo na escola... e a Copa foi passando, passando e chegando ao seu final. Perto da decisão, o placar era de empate. Às vésperas da decisão, cada um de nós carregava o mesmo drama: uma única figurinha separava o sonho da eternidade. Estávamos a uma figurinha do sonho.

E havia um requinte de crueldade naquele empate, coisa dos deuses do futebol ou de Nossa Senhora da Panini: eu tinha a figurinha que faltava para o meu irmão, o escudo da Colômbia; Julio tinha o escudo da Suécia, que faltava para mim.

Diante daquele impasse, em uma tarde taubateana qualquer, eu estava emburrado com o álbum incompleto na mão (já sem nenhum tostão no bolso). “Julio, à época com 8 anos, aproximou-se e me deu a figurinha da Suécia. Ele havia arrancado do álbum dele, em um gesto mais bonito do que um gol de Pelé, Messi, Ronaldo ou Maradona. Aquele foi o maior gol da história das Copas do meu mundo.

Naquele gesto de campeão, entendi que quando Julio nasceu, um ano depois de mim, pouco antes do Mundial de 1982, eu já havia tirado a figurinha que faltava para completar o álbum da minha vida.

* Crônica originalmente publicada no livro Cartas Perdidas em um Mar de Palavras

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