FACÇÃO CRIMINOSA

PCC: coronel do Vale relembra tensão e falhas do Estado em 2006

Por Xandu Alves | Taubaté
| Tempo de leitura: 3 min

Vinte anos após os ataques promovidos pela facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, o tenente-coronel da reserva da Polícia Militar Lamarque Monteiro relembra os dias de medo, tensão e alerta máximo vividos em maio de 2006.

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Na época, ele atuava como subcomandante do Centro de Formação de Soldados e Cabos da PM, em Pirituba, na capital paulista, unidade responsável pela formação de cerca de 1.600 profissionais de segurança pública.

Autor de livro sobre a Casa de Custódia de Taubaté — conhecida nacionalmente pela ligação com o surgimento e fortalecimento do PCC — Lamarque afirma que o episódio deixou marcas profundas na segurança pública brasileira e escancarou falhas históricas do sistema prisional paulista.

Segundo ele, o clima dentro das unidades militares era de atenção permanente diante da onda de violência coordenada pela facção criminosa. Entre os dias 12 e 20 de maio de 2006, o estado viveu uma das maiores crises de segurança pública da história recente.

“Foram registrados ataques contra quartéis da PM, bases do Corpo de Bombeiros, delegacias, fóruns e ônibus. O risco era constante e todas as unidades precisavam reforçar a segurança”, relembra.

Ataques do PCC

Na ocasião, 78 unidades prisionais tiveram rebeliões simultâneas. Além disso, dezenas de agentes de segurança foram atacados e 93 ônibus acabaram incendiados em diferentes regiões do estado. O terror provocado pelo PCC também atingiu os estados do Paraná e Mato Grosso do Sul.

O que começou como uma reação à transferência de líderes do PCC para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau rapidamente se transformou em um ataque sem precedentes. Em apenas nove dias, os confrontos deixaram 564 mortos e 110 feridos, segundo dados oficiais e levantamentos de entidades de direitos humanos.

Nas ruas, a facção executou ataques contra bases policiais, viaturas e delegacias. Entre os mortos, estavam 59 agentes públicos, sendo que 40 deles foram assassinados nas primeiras 48 horas.

'Ambiente serviu de aprendizado'

Apesar da tensão, o centro de formação da PM em Pirituba não sofreu ataques diretos. Ainda assim, o oficial destaca que o ambiente serviu como um aprendizado intenso para os alunos soldados e futuros cabos que iniciavam carreira na corporação.

“A atividade policial exige compromisso com a missão, mesmo diante do risco da própria vida. Aqueles jovens policiais viveram uma experiência extrema logo no início da carreira”, afirma.

Lamarque Monteiro acredita que, atualmente, as forças de segurança estão mais preparadas para enfrentar o crime organizado. Para ele, o aparato tecnológico, a inteligência policial e a integração entre órgãos de segurança dificultam a repetição de ataques semelhantes aos de 2006.

Falhas do Estado em conter o PCC

Mesmo assim, o oficial da reserva avalia que o avanço do PCC poderia ter sido contido décadas antes. Segundo ele, houve falha do Estado ao ignorar os primeiros sinais de fortalecimento das facções criminosas no sistema penitenciário.

O tenente-coronel cita denúncias feitas ainda em 1983 pelo então diretor da Penitenciária Regional de Presidente Venceslau, Zwinglio Ferreira, sobre a atuação da organização criminosa conhecida como “Serpentes Negras”. Na visão de Lamarque, os alertas foram desacreditados pelas autoridades da época.

“Se o Estado tivesse criado penitenciárias de segurança máxima para líderes de facções e presos de alta periculosidade, talvez o PCC não tivesse alcançado a dimensão atual”, analisa.

Duas décadas depois dos ataques que pararam São Paulo, a lembrança daqueles dias ainda serve como alerta sobre os desafios do combate ao crime organizado no Brasil e sobre a importância do fortalecimento das políticas de segurança pública.

Veja entrevista de Lamarque Monteiro ao OVALE Cast

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