O humorista Hélio de la Peña, um dos criadores do "Casseta & Planeta", chega a São José dos Campos com seu espetáculo solo de stand-up comedy, "Preto de Neve".
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O artista utiliza o humor ácido que o consagrou na TV para abordar temas sensíveis como racismo, envelhecimento e a atual cultura do cancelamento. A apresentação será na sexta-feira (15), no Teatro Colinas.
Preto de Neve
O título do show é uma provocação direta à presença do negro em espaços tradicionalmente elitizados. A inspiração veio de uma experiência real: sua tentativa desastrada de esquiar.
"Definitivamente não é minha praia", brinca o comediante, que prefere o mar de Copacabana, onde pratica natação diariamente para manter o vigor físico.
Politicamente incorreto
Veterano que iniciou a carreira sob a censura da ditadura militar, Hélio encara o cenário digital com o pragmatismo de quem já viveu tempos de repressão institucional. Em entrevista exclusiva à OVALE, ele comparou os períodos:
"Naquele tempo o cancelamento era de CPF", brinca. "Hoje em dia as pessoas andam muito sensíveis. Então, uma coisa que você está levando na brincadeira, as pessoas estão interpretando aquilo ao pé da letra (...) É metáfora. A pessoa quer analisá-la como se fosse uma verdade absoluta. E isso acaba criando dificuldade para você produzir, para você consumir. Eu acho que a gente vive um falso moralismo. Hoje em dia tem uma coisa assim que você nunca sabe se a pessoa está de fato querendo dar a sua opinião ou se ela está aproveitando aquele assunto para ter algum destaque nas redes sociais. A pessoa quer lacrar, quer aparecer", analisa.
O humor como crônica do racismo
Questionado sobre como utiliza a comédia para tratar de questões identitárias, de la Peña defende que o palco permite retratar absurdos sociais por meio da caricatura.
"O racismo na sociedade pode ser apresentado tanto como uma sugestão de como fazer, como também um retrato de como as coisas estão acontecendo, um retrato exagerado, uma caricatura de como as coisas acontecem na realidade", explica Hélio, reforçando que o riso não é concordância ideológica.
"Risada não é aprovação. Aplauso não significa que você concorda com aquela opinião. Muitas vezes você está fazendo um retrato de uma situação absurda", complementa.
Novas conexões
Com mais de 500 mil seguidores nas redes sociais, Hélio transita com sucesso entre os fãs saudosos da TV aberta e os jovens que consomem conteúdos digitais. Na apresentação em São José dos Campos, ele manterá a tradição de convidar talentos locais, como os comediantes Caio de Sá e James Costa, para dividir o palco.
“Desde que encerrou-se o ciclo do Casseta e Planeta, uma das coisas que me interessava era buscar outros tipos de parceria e de diálogo justamente com essa geração mais nova. Acabei conhecendo muitos comediantes dessas novas gerações que encontro nos palcos”, explica.
O artista aposta em sua autenticidade para se comunicar com novos públicos e acredita que apresentar sua "personalidade com sinceridade" é o segredo do sucesso. "Ali a pessoa percebe alguma verdade, apesar de que no show eu conto muitas mentiras", brinca.
Uma dessas "mentiras" envolve um suposto encontro com um tubarão-baleia no Rio de Janeiro, uma história que ele admite ter alimentado para não decepcionar um repórter de TV e desmoralizar a pauta.
"Foi cerca de zero experiência, não tive nenhum contato, mas quando o repórter chegou lá, eu não podia decepcionar aquele cidadão e acabei contando que realmente estive com o tubarão."
Maturidade
Aos 66 anos, ele encara a maturidade com leveza. "Sou um cidadão da terceira idade, cidadão da melhor idade, não sei para quem é melhor", ironiza.
"Eu me cuido (...) faço ginástica e tal. Agora, de manhã cedo para sair da cama, está tudo enferrujado. Até começar a me movimentar, sentir dor na lombar, na perna. Eu gosto muito da minha idade, desse momento que estou passando. Até porque os filhos crescem também, a gente vive outro contato com eles."
Fora dos palcos, o engenheiro de formação tem uma rotina ativa. Pratica atividade física diariamente, incluindo natação em mar aberto. Além das viagens constantes, mantém uma coluna no portal UOL e coordena uma biblioteca comunitária no Morro da Babilônia (RJ), um projeto social pelo qual tem muito carinho.
Planos para o futuro
Sobre planos para o futuro, diz que segue trabalhando. O show viaja pelo Brasil todo e está com a agenda lotada até junho de 2026. Ele afirma que tem se divertido muito com os encontros nos palcos com novos humoristas, com as viagens e com o contato direto com o público e ,assume ser bastante assediado ao fim das sessões. "É muito bom ser querido", conclui.
“Uma coisa na televisão é você estar em uma TV aberta, você estar dialogando com uma série de pessoas, inclusive gente que não estava ali para te ver. No show, as pessoas saem de casa, pagam o ingresso para me ver, para ver o meu trabalho, para ter alguma atenção. Então, a conversa ali é bastante franca e bastante próxima."
Serviço
Em São José, "Preto de Neve" tem sessão única nesta sexta-feira às 20h, no Teatro Colinas. Os ingressos variam de R$ 60 a R$ 100 e a classificação etária é de 16 anos.
O teatro fica na avenida São João, nº 2000, no Jardim Colinas.