A estudante Carolina Ferreira, 21 anos, que acusa um professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de São José dos Campos de estupro, publicou um texto nas redes sociais para celebrar o próprio aniversário. Nele, ela diz que “ainda é uma menina” e que, apesar de tudo, “é feliz, sensível, cheia de sonhos, que ama viver apesar da dor”.
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A dor a levou a deixar a universidade e adiar o sonho de ser dentista. A denúncia do estupro foi feita há duas semanas, por meio de um vídeo nas redes sociais. Segundo ela, o crime ocorreu em 2023, quando ela tinha 18 anos. “Eu sou muito mais do que a violência que sofri”, disse.
O caso foi revelado por OVALE e culminou na apresentação de novas denúncias de abuso na Unesp, tendo repercussão nacional.
“Os últimos tempos tomaram proporções que eu nunca imaginei. Ver meu nome na imprensa, ouvir pessoas falando sobre a minha história, lidar com tudo isso… foi assustador. Mas também foi libertador. Pela primeira vez, eu consegui falar. E existe um alívio enorme em não carregar mais esse peso sozinha”, afirmou.
“Eu não queria que a minha vida fosse resumida ao que fizeram comigo. Porque eu sou muito mais do que a violência que sofri. Hoje, no meu aniversário, eu escolho celebrar a coragem que tive de sobreviver, de denunciar e de continuar existindo”, destacou a jovem.
Que completou, falando de flores: “Rosas cor-de-rosa sempre foram minhas favoritas. Talvez porque, mesmo delicadas, elas continuam florescendo. E eu acho que hoje eu me sinto um pouco assim também: tentando florescer de novo, mesmo depois da tempestade”.
E terminou a publicação, pedindo justiça: “Espero que meu maior presente seja a justiça sendo feita. Mas enquanto ela não vem, eu sigo tentando reencontrar a menina feliz que sempre existiu em mim”.
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Denúncia gerou mobilização
A denúncia de violência sexual feita por Carolina mobilizou centenas de estudantes da Unesp de São José dos Campos, que se reuniram na última segunda-feira (4) para prestar solidariedade à estudante e cobrar a universidade para pôr fim aos casos de assédio e abuso.
O caso também ganhou repercussão nacional, com ofícios encaminhados por parlamentares federais e estaduais cobrando apuração e rigor na punição por parte da Unesp.
Após a denúncia, outras estudantes também passaram a relatar episódios de assédio, ampliando o debate sobre segurança no ambiente universitário.
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Relato emocionante
Em outro vídeo, Carolina voltou a descrever o episódio que diz ter ocorrido em 2023, quando tinha 18 anos. Segundo ela, o crime aconteceu após aceitar uma carona oferecida por um professor, que não teve o nome mencionado.
A jovem, à época, morava em Taubaté e estudava em São José. Segundo o relato, uma noite, na saída da faculdade, o professor teria oferecido uma carona e ela entrou no carro. “Eu nem sei como cheguei em casa. Cheguei com as roupas todas rasgadas e toda machucada. Eu não conseguia falar com a minha mãe, só chorava”, relatou.
Ameaças e abandono da graduação
Após o episódio, a estudante afirma que passou a sofrer ameaças dentro do ambiente universitário. De acordo com o relato, o professor teria mostrado fotos de sua família e insinuado consequências caso a denúncia fosse formalizada.
O trauma, aliado ao medo, levou ao abandono do curso de odontologia. “Chegou um ponto em que eu não conseguia mais entrar na faculdade sem entrar em crise”, disse. Carolina registrou um boletim de ocorrência, após sofrer novas ameaças.
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Unesp afasta dois professores
A direção do ICT (Instituto de Ciência e Tecnologia) da Unesp, campus de São José dos Campos, informou que dois docentes citados em relatos de assédio foram afastados das atividades acadêmicas por 30 dias. O prazo poderá ser prorrogado, conforme o avanço das apurações.
A medida foi divulgada em nota oficial da universidade, após a repercussão de denúncias envolvendo situações de assédio e abuso no ambiente acadêmico.
Ainda segundo a universidade, todos os casos devidamente registrados são apurados conforme as normas institucionais e a legislação vigente. A direção ressaltou, no entanto, que sem a formalização da denúncia, a instituição não dispõe de meios para investigar oficialmente os episódios narrados.
A instituição informou que disponibiliza canais oficiais para acolhimento, orientação e encaminhamento de denúncias, com garantia de sigilo, imparcialidade e possibilidade de anonimato. As denúncias podem ser formalizadas por meio da Ouvidoria Geral, da Ouvidoria Local e da Direção da Unidade.