A Unesp (Universidade Estadual Paulista) confirmou, em nota enviada a OVALE, que recebeu a denúncia de estupro feita pela estudante Carolina Ferreira, em São José dos Campos, mas afirmou que "não dispunha de elementos para dar sequência" à queixa.
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A manifestação da Unesp foi enviada a OVALE nesta quarta-feira, após a repercussão do relato publicado pela aluna nas redes sociais e noticiado pelo jornal em primeira mão. Carolina, hoje com 21 anos, afirma ter sido estuprada por um professor (leia aqui).
Segundo a aluna, o caso aconteceu em 2023, quando ela tinha 18 anos e estava no primeiro ano do curso de Odontologia.
"Eu entrei na faculdade no curso que eu sempre sonhei e lutei tanto pra conquistar. No meu primeiro ano, esse sonho foi interrompido de forma violenta: eu fui estuprada por um professor", disse ela, que acusa a Unesp de omissão. "Perdi o meu sonho", complementou a jovem.
O nome do professor não é mencionado. A jovem, à época, morava em Taubaté e estudava em São José. Segundo o relato, uma noite, na saída da faculdade, o professor teria oferecido uma carona e ela entrou no carro. Depois, Carolina relata que foi violentada.
Unesp diz que recebeu a denúncia, mas que não havia 'elementos'
De acordo com a instituição, a jovem e seus familiares foram recebidos pela direção do ICT (Instituto de Ciência e Tecnologia) em 2023, ano em que teria ocorrido o episódio. Na ocasião, de acordo com a Unesp, foram oferecidos canais de acolhimento e orientação para registro formal da ocorrência.
Em nota enviada a OVALE, a universidade informou que, naquele momento, não houve identificação nem acusação formal contra pessoas vinculadas à instituição. Além disso, destacou que os fatos narrados teriam ocorrido fora das dependências do campus.
De acordo com a Unesp, "a decisão da família, à época, foi a de não levar o fato adiante".
“Como não havia a identificação nem a acusação de pessoas relacionadas à Unesp naquela altura, e considerando que os fatos narrados tiveram lugar fora das dependências da Universidade, a Direção não dispunha de elementos para dar sequência à denúncia”, afirmou a Unesp.
A Unesp também informou que a estudante segue regularmente matriculada, com última matrícula realizada em fevereiro deste ano.
"De todo modo, a Unesp reafirma seu compromisso com o bem-estar de toda a sua comunidade. A qualquer momento, a comunidade unespiana pode recorrer a nossos canais para o registro de acontecimentos que mereçam a nossa atenção e cuidado", informa a nota.
Relato da vítima
Carolina afirmou à reportagem que teve o sonho de se formar em odontologia interrompido após ser vítima de estupro cometido por um professor da instituição.
Após o episódio, Carolina afirma ter enfrentado graves consequências físicas e psicológicas. “Meu cérebro bloqueou memórias, transformando tudo em fragmentos confusos. Enquanto isso, meu corpo respondia com sangramentos, desmaios e sintomas sem explicação”, disse.
Ela relata que tentou continuar os estudos, mas passou a ter crises frequentes.
"Chegou um ponto em que eu simplesmente não conseguia mais entrar na faculdade sem entrar em crise. Foi quando eu tranquei minha matrícula e, pela primeira vez, contei aos meus pais. Procuramos a instituição. A resposta foi negligência. Disseram que “nunca houve nada parecido”, contou Carolina.
Sem condições emocionais de formalizar uma denúncia à época, a estudante decidiu abandonar o curso. “Abri mão de tudo. Eu estava em choque, com medo, tentando apenas sobreviver”, declarou.
Repercussão e novas denúncias
O caso gerou repercussão dentro da comunidade acadêmica. A Associação Atlética Acadêmica Cervantes Jardim divulgou nota de repúdio e cobrou medidas efetivas por parte da universidade.
Após a divulgação do relato, outras estudantes também passaram a relatar episódios de assédio na mesma unidade, reforçando o debate sobre segurança no ambiente universitário.
Até o momento, não há confirmação de investigação formal sobre o caso por órgãos competentes. A vítima afirma que não denunciou anteriormente por medo e falta de condições emocionais.
A Unesp enviou uma nota oficial a OVALE, em que "manifesta seu firme repúdio a qualquer forma de assédio no ambiente universitário e reafirma seu compromisso com a promoção de um espaço acadêmico seguro, respeitoso e acolhedor para toda a comunidade".
Veja abaixo íntegra da nota da Unesp
"A Direção do Instituto de Ciência e Tecnologia, câmpus de São José dos Campos da Unesp, manifesta seu firme repúdio a qualquer forma de assédio no ambiente universitário e reafirma seu compromisso com a promoção de um espaço acadêmico seguro, respeitoso e acolhedor para toda a comunidade. Solidarizamo-nos com todas as pessoas que possam ter vivenciado situações de desrespeito. Reforçamos que a Universidade dispõe de canais institucionais adequados para acolhimento, orientação e encaminhamento dessas ocorrências. As denúncias podem ser formalizadas por meio de canais oficiais, que asseguram o tratamento responsável, com sigilo, imparcialidade e possibilidade de anonimato, bem como o devido acompanhamento dos casos:
- Ouvidoria Geral da Unesp: https://sistemas.unesp.br/ouvidoria/pages/externo/manifestacao.xhtml?idUnidade=1
- Ouvidoria Local: https://sistemas.unesp.br/ouvidoria/pages/externo/manifestacao.xhtml?idUnidade=30
- Direção da Unidade: diretor.ict@unesp.br
"Ressaltamos que todos os casos devidamente denunciados são e sempre serão rigorosamente apurados, em conformidade com as normas institucionais e a legislação vigente, com a adoção das providências cabíveis. Destacamos, ainda, que o ambiente universitário conta com medidas permanentes de segurança, incluindo controle de acesso com reconhecimento facial, presença de agentes de portaria e vigilância, além de sistema de monitoramento por câmeras, visando à proteção de todos que circulam na Instituição.
A Universidade também disponibiliza suporte por meio do Programa Acolhe Unesp (https://www2.unesp.br/portal#!/ouvidoria_ses/acolhe-unesp24870/) e, no âmbito do ICT/CSJC, a Seção Técnica de Saúde conta com profissionais capacitados para acolhimento presencial. Reiteramos nosso compromisso com a integridade, o respeito mútuo e a convivência ética. Permanecemos à disposição para acolher, orientar e agir com responsabilidade sempre que necessário", diz a nota.