Março é um mês simbólico na luta por igualdade de direitos. No Dia Internacional da Mulher, mais do que celebrar conquistas, somos convidados a refletir sobre os desafios que ainda persistem no enfrentamento das desigualdades de gênero. Entre eles, o feminicídio, expressão mais extrema da violência contra a mulher.
O debate se torna ainda mais urgente quando observamos os impactos que vão além da perda de uma vida. O feminicídio desestrutura famílias, deixa órfãos, mães enlutadas, irmãos e parentes mergulhados em sofrimento. A violência não termina com o crime: ela se prolonga na dor e nas consequências emocionais e sociais vividas por quem permanece.
Nesse contexto, o fortalecimento de políticas públicas de proteção e acolhimento é essencial. Desde 1998, a Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo mantém o Centro de Referência e Apoio à Vítima (CRAVI), programa que oferece atendimento psicossocial e jurídico gratuito a pessoas impactadas por crimes como feminicídio, homicídio e latrocínio, tentados ou consumados.
Os números mostram tanto a gravidade do problema quanto a importância do suporte oferecido às vítimas indiretas da violência. Em 2024, o programa realizou 8.013 atendimentos, dos quais 981 estiveram relacionados a casos de feminicídio. Já em 2025, dos 6.478 atendimentos registrados, 1.021 foram destinados a familiares de vítimas desse tipo de crime.
Nosso trabalho busca minimizar os impactos da violência, oferecendo apoio no processo de elaboração do luto, na reconstrução de vínculos familiares e no fortalecimento emocional. A proposta é ajudar as pessoas a retomarem seus projetos de vida, mesmo diante de uma perda tão profunda.
O atendimento é realizado por uma equipe multidisciplinar formada por assistentes sociais e psicólogos, que fazem a triagem das demandas e encaminham os usuários tanto para atendimento nas unidades do programa quanto para a rede socioassistencial. Além do acolhimento, o CRAVI também atua na prevenção da violência e na promoção da educação em direitos humanos, por meio de oficinas, palestras e rodas de conversa.
Atualmente, o programa conta com nove unidades, localizadas em São Paulo (capital) e nos municípios de Araçatuba, Santos, São Vicente, Barueri, Caieiras, Guarulhos, Pindamonhangaba e Suzano. Também oferecemos atendimento online, ampliando o acesso para quem não pode se deslocar presencialmente. O contato prévio pode ser feito pelo telefone (11) 3666-7778 (também é WhatsApp), de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
O enfrentamento ao feminicídio exige um esforço coletivo e permanente. Mais do que punir a violência, é preciso investir em prevenção, educação e cuidado com quem sofre suas consequências. Garantir acolhimento e apoio às famílias das vítimas também é uma forma de afirmar que nenhuma vida perdida pode ser tratada com indiferença.
Luane Natalle é coordenadora do Centro de Referência e Apoio à Vítima (CRAVI), da Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo