OPINIÃO

Quando o passado invade o presente

Por Viviana Madisson, | Psicóloga
| Tempo de leitura: 2 min
Quando o passado invade o presente
Quando o passado invade o presente

A expulsão de Sol do BBB26 reacendeu um debate que vai além do entretenimento. Após um episódio que foi considerado agressão física e resultou em sua desclassificação, parte do público passou a discutir um ponto sensível: o impacto que experiências traumáticas do passado podem ter no presente.

Sol já havia participado do reality há mais de duas décadas. Durante a edição atual, ela mencionou no programa que situações vividas anteriormente, inclusive relacionadas a episódios de racismo, ainda ecoavam emocionalmente. Não cabe a nós afirmar diagnósticos, tampouco atribuir comportamentos específicos a uma causa única. Mas o debate público abre espaço para uma reflexão importante.

Trauma não é apenas o que acontece conosco. É o que permanece em nós depois do que aconteceu.
Experiências de humilhação, exclusão ou violência simbólica podem deixar marcas emocionais profundas. Quando não elaboradas, essas marcas podem ser reativadas em contextos que lembram, ainda que indiretamente, o evento original. Ambientes de alta pressão, exposição constante e conflito, como um reality show, tendem a intensificar emoções e reduzir a margem de tolerância ao estresse.

Isso não significa que o comportamento esteja justificado. Regras existem e precisam ser cumpridas. Mas compreender não é o mesmo que absolver. É reconhecer que reações humanas nem sempre nascem apenas do presente.

Um trauma não tratado pode influenciar a forma como percebemos ameaças, críticas e conflitos. Pode aumentar a hipervigilância, tornar respostas emocionais mais intensas e dificultar a regulação em momentos de tensão. E, sobretudo, pode impedir que a pessoa viva novas experiências com leveza, porque o corpo e a mente continuam reagindo como se ainda estivessem em situação de perigo.

Muitas vezes, a pessoa sequer percebe que está reagindo ao passado. Buscar psicoterapia não é sinal de fraqueza. É um ato de responsabilidade emocional. É o espaço onde memórias dolorosas podem ser reorganizadas, ressignificadas e integradas à história de vida sem que continuem comandando o presente. O processo terapêutico não apaga o que aconteceu, mas ajuda a reduzir o poder que essas experiências têm sobre nossas reações.

O caso de Sol, independentemente de julgamentos individuais, traz uma mensagem importante: todos nós carregamos histórias invisíveis. E quanto mais expostos estamos, maior a chance de que essas histórias sejam ativadas.

Cuidar da saúde mental é, também, proteger futuras oportunidades. É permitir que novas vivências não sejam atravessadas por dores antigas.

Em um mundo que exige performance constante, aprender a olhar para dentro pode ser o gesto mais corajoso de todos.

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