FRAN GALVÃO

O que a roupa revela até na prisão de um presidente

Por Fran Galvão | Consultora de imagem e estilo
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
O que a roupa revela até na prisão de um presidente
O que a roupa revela até na prisão de um presidente

Na última semana, duas imagens viralizaram mais do que as próprias reações ao fato: Nicolás Maduro preso, usando um moletom da Nike e em outro momento, o mesmo usando um gorro da Charles Jeffrey Loverboy (considerado uma marca de luxo), que custa mais de dois mil reais. Foi um prato cheio para a internet fazer o que ela sabe fazer como ninguém: questionar, ironizar e claro, julgar.

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Dois pontos são importantes na coluna de hoje – o primeiro é que esta não é uma coluna sobre política e que em nenhum momento estou concordando ou discordando sobre a prisão que procedeu. O segundo ponto e que pouco importa para o centro da reflexão, é se ele estava vestido com o tal moletom da Nike no momento da prisão ou se foi vestido depois pelos militares americanos - até como uma precaução protocolar. O que importa aqui e quero trazer para vocês é o efeito da imagem. O ruído que ela causou. O que ela comunicou.

Um presidente que construiu sua narrativa política em torno do socialismo, do discurso anticapitalista, aparece usando uma das marcas mais icônicas do capitalismo global – um verdadeiro símbolo de consumo, um logo altamente reconhecido, um detalhe que virou mensagem.

E é aqui que eu quero chegar com você: roupa comunica. Sempre. Mesmo quando não queremos, mesmo quando estamos em silêncio, mesmo na paz e, principalmente, na guerra.

Vivemos na era da imagem. E, gostemos ou não, concordando ou não, a roupa é um dos primeiros textos que o outro lê sobre nós. Antes de falar qualquer coisa, antes de qualquer justificativa ou contexto, sua imagem cria uma narrativa imediata.

No caso de Maduro, uma peça que poderia significar apenas conforto (um moletom leve) virou contradição. Mais que isso, virou meme. Virou símbolo de incoerência para alguns, de ironia para outros. A roupa passou a falar por ele e detalhe, sem pedir licença.

E é isso que acontece todos os dias, em escalas diferentes, com todos nós.

Quando você escolhe o que vestir para uma reunião, para um jantar, para um encontro, para um dia comum de trabalho… você está dizendo algo. Algo sobre você, seu momento, suas escolhas, suas crenças e principalmente sobre como você se posiciona no mundo. Provando que sua imagem, suas roupas, nada tem a ver com futilidade. Tem a ver com linguagem.

Muitas vezes escuto:“Mas eu não penso tanto assim na roupa.”

Tudo bem. Ainda assim, ainda escolhendo não pensar, ela comunica.

Aliás o problema não é não pensar. O problema é não perceber que, mesmo sem intenção, existe comunicação. Haverá uma leitura, uma interpretação.

Querendo você ou não a roupa pode reforçar discursos ou desmontá-los.Pode sustentar uma imagem ou gerar ruído.Pode trazer coerênciaou escancarar contradições.

No mundo hiper conectado e em tempos de attention economy (economia da atenção) em que vivemos, um deslize vira pauta. Um moletom vira símbolo político (e esgota nas lojas). Um look vira manchete. E se isso é capaz de acontece com líderes mundiais, imagine o impacto na nossa vida cotidiana, nas nossas relações profissionais, pessoais e sociais.

Não se trata de vestir marcas caras, nem de seguir tendências. Trata-se de consciência e intenção. De entender que o vestir é uma ferramenta poderosa de comunicação não verbal.

A imagem de Maduro viralizou porque trouxe como significado algo que incomoda: a distância entre discurso e a prática. E é exatamente isso que a roupa faz quando não está alinhada com quem somos ou com o que defendemos. Ela revela, entrega, fala – uma verdadeira fofoqueira.

Por isso, minha provocação para vocês é simples: o que a sua roupa tem comunicado sobre você?Ela sustenta a imagem que você deseja projetar?Ela conversa com seus valores, seus objetivos, seu momento de vida?Ou ela está contando uma história que nem você presta atenção?

Se você nunca parou para pensar sobre isso, se faça essas perguntas. Como vimos nos últimos dias, a roupa nunca é apenas roupa. Ela é ferramenta de comunicação mesmo quando não estamos tentando comunicar.

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