ARTIGO

O respeito a liberdade de consciência e crença: o caso da hóstia

Padre Silvio José Dias, ao recusar-se a entregar a hóstia diretamente na boca do fiel, estava seguindo orientações litúrgicas que visam preservar o respeito ao sacramento

Por Fabrício Correia, presidente da Academia Joseense de Letras | 19/05/2024 | Tempo de leitura: 4 min
São José dos Campos

Reprodução

Vídeo viralizou nas redes sociais
Vídeo viralizou nas redes sociais

Essa semana, um vídeo que viralizou mostra o padre Silvio José Dias, da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Taubaté (SP), recusando-se a entregar a hóstia diretamente na boca de um fiel ajoelhado. O episódio gerou intenso debate nas redes sociais, dividindo opiniões entre críticas e defesas do sacerdote. O incidente nos convida a refletir sobre o respeito ao sacramento da Eucaristia, a liberdade de consciência e crença, a obediência às normas litúrgicas e a ética de expor a prática da fé em redes sociais.

A Eucaristia é um dos sacramentos mais significativos da fé cristã, representando a presença real de Cristo para a comunidade católica, o ápice da celebração litúrgica e um momento de profunda comunhão espiritual, o que contrapõe a exposição “instagramável” ou até mesmo o registro da prática de fé.

O padre Silvio José Dias, ao recusar-se a entregar a hóstia diretamente na boca do fiel, claramente estava seguindo orientações litúrgicas que visam preservar a dignidade e o respeito ao sacramento. Segundo o "Sacramento da Redenção", todo fiel tem o direito de escolher se deseja receber a comunhão na mão ou na boca, em pé ou de joelhos. No entanto, em situações específicas, como grandes aglomerações ou emergências sanitárias, as conferências dos bispos ou os próprios bispos de uma diocese podem recomendar que a comunhão seja preferencialmente dada na mão.

Um dos motivos para a preferência pela comunhão por meio da entrega  pelas mãos é a prevenção de profanações acidentais da Eucaristia, que pode ocorrer quando há risco de queda da hóstia. Além disso, em tempos de crises sanitárias, como a pandemia de COVID-19, essa prática foi amplamente adotada para reduzir o risco de contaminação. A atitude do padre Silvio, portanto, pode ser vista como um ato de zelo pela santidade do sacramento e de cuidado com a saúde dos fiéis. Os sacerdotes têm a responsabilidade de garantir que a celebração dos sacramentos ocorra de maneira reverente e em conformidade com as normas da Igreja. O cumprimento dessas diretrizes não pode ser interpretado como arrogância ou desrespeito, mas sim como um compromisso com a integridade e a santidade dos ritos litúrgicos, visto estar em uma comunidade que tem seus ritos e a liberdade para essa expressão.

A polarização das opiniões nas redes sociais revela uma falta de compreensão sobre as motivações e as responsabilidades dos sacerdotes. É crucial que, como comunidade de fé, busquemos entender e respeitar as normas estabelecidas pela Igreja, reconhecendo que elas existem para proteger os sacramentos. Estamos falando da fé católica, mas esse conceito aplica-se a todo credo.

Defender a atitude do padre Silvio José Dias é compreender a integridade da prática fé cristã e por meio da liberdade de credo expressar o profundo respeito pelo que é sagrado.

Ao ponderarmos sobre a controvérsia gerada pelas redes sociais em torno do comportamento do padre Silvio, devemos considerar que a Eucaristia não é apenas um símbolo, mas uma expressão tangível da presença de Cristo entre os católicos. A exposição desse incidente na internet, e por meio de sua reverberação, na mídia nacional também levanta questões sobre as intenções de quem divulgou o vídeo. Vivemos em uma era onde a busca por visibilidade e notoriedade leva indivíduos a exporem situações de maneira sensacionalista, sem considerar as repercussões para os envolvidos. É lamentável ver que, muitas vezes, a reputação de pessoas dedicadas pode ser atacada por motivos que nada têm a ver com uma busca sincera pela verdade ou pela justiça. Em vez disso, o foco é muitas vezes desviar a atenção para si mesmo, em busca de holofotes.

Devemos questionar a ética de usar um momento litúrgico sagrado, protegidos pela liberdade de credo, para ilustrar nossos feitos em redes sociais, ganhos pessoais ou para criar polêmicas desnecessárias. Tal comportamento não apenas desrespeita os envolvidos, mas também trivializa a seriedade e a santidade do que está sendo vivenciado na imersão da prática de fé. Precisamos reconhecer que a exposição de tais incidentes, muitas vezes fora de contexto, pode destruir a reputação de pessoas que dedicaram suas vidas ao serviço de Deus e da comunidade, simplesmente para satisfazer um desejo de notoriedade momentânea de alguém.

Defender a postura do padre Silvio José Dias é, ao meu ver, uma defesa da Eucaristia como um sacramento que merece todo o respeito e reverência, de cristãos ou não cristãos. É um lembrete de que a fé não é apenas uma série de rituais, mas uma vivência contínua do sagrado, que exige de nós um coração disposto a compreender a profundidade dos ensinamentos de fé e da busca pela espiritualidade.

Que possamos, através deste incidente, renovar nosso compromisso com o respeito e a devoção aos que creem no sacramento da Eucaristia. Que possamos também ser críticos da forma como informações são disseminadas e refletir sobre as verdadeiras motivações por trás dessas ações. Ao fazer isso, contribuímos para uma comunidade de fé mais respeitosa, justa e dedicada à verdadeira essência do cristianismo e da liberdade de credo.

* Fabrício Correia é escritor, musicoterapeuta e professor universitário com especialização em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão. Preside a Academia Joseense de Letras e é sócio acadêmico da Academia Brasileira de Cinema.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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