KELMA JUCÁ

Jantar de véspera

Por Kelma Jucá | Jornalista
| Tempo de leitura: 2 min

O tempo cuidou de lhe dar uma grossa camada de proteção. Tornara-se impermeável. Não tinha cupim de mau agouro ou inveja alheia que lhe atingisse. No mais, os anos de estrada lhe deixaram cascudo.

Não se poderia dizer, entretanto, que fosse um sem coração. Ele apenas não se apegava a pessoas de carne e osso. Gostava dos entes familiares e daqueles que já tinham morrido. Cultuava cartazes de ídolos de décadas passadas pendurados na parede da memória, enquanto venerava uma miniatura de Padre Cícero colada com epóxi no painel do carro. Dizia em alto e bom som, sempre que a conversa fosse conveniente, que o auge do samba de breque era o melhor que o Brasil produzira no quesito música.

Se não tinha paciência com os humanos vivos, nutria compaixão extrema pelos bichanos. Os cães de rua eram os seus preferidos. Talvez por que também se julgasse um vira-lata. Não que fosse ruim ser um vira-lata, é que a sociedade brasileira preferia pagar altos preços por cachorros de pedigree enquanto os Sem Raça Definida amargavam os perigos do asfalto quente.

Poder-se-ia supor que era isso que ele pensava de si mesmo. Ele, pobre – não claro o suficiente para ser branco nem escuro o necessário para ser preto. Ele, um legítimo representante da espécime mestiça nacional.

Como não se enquadrava nos padrões já fabricados, o próprio cabelo não era liso nem crespo. Mas o corte tão rente à raiz simulava um fio capilar sem ondulações, especialmente por que ele sempre tinha no bolso da calça aquele pente redondo que se encaixa na mão e faz algo como se fosse um carinho na cabeça de quem o usa.

Evitava o contato físico até com os filhos, pois fora criado para ser o homem macho-masculino-machista, feito em linha de produção nos anos de 40, 50, 60, 70, 80. Autodenominado linha-dura, somente uma coisa era capaz de abalar o nosso anti-herói: o Natal.

Era difícil se misturar com toda a parentada barulhenta do lado da esposa. E ele só queria um tempo para si. Não contava ele que a algazarra daquele jantar num dezembro quente fosse lhe elevar tanto a pressão.

Passou mal até desmaiar. As crianças e os adultos congelaram de susto e medo. Alguém lhe esfregou um pano com álcool no nariz, o que lhe fez de imediato recobrar os sentidos, embora tonto. O silêncio se apossou do imóvel que ele já pagava há 28 anos. Se emocionou pelo que sentiu, mas não sabia o que era. Talvez fosse o espírito de Natal. Estava vivo. E era bom.

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