E agora, Jair?
O governo acabou,
o café esfriou,
os aliados sumiram,
nos quartéis, silêncio sepulcral,
e agora, Jair?
e agora, você?
você que é sem graça,
que zombou da morte de milhares dos nossos,
que faz fake news,
que incita o ódio, perdeu?
e agora, Jair?
Está sem foro,
sem discurso,
sem sigilo,
já não pode demolir,
já não pode destruir,
cuspir ainda pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
os tanques não vieram,
as tropas também não,
apenas alguns incautos que ainda ouvem o som daquela flauta de Hamelin
a mentira não virou verdade
e tudo acabou
e todos fugiram
e tudo mofou,
e agora, Jair?
E agora, Jair?
Suas palavras jocosas,
sua ira febril contra os divergentes,
sua gula por leite condensado,
sua reserva de cloroquina,
sua gana da imprensa livre,
seu telhado de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?
Com a caneta ainda na mão
quer mudar a história,
mas a tinta acabou;
quer partir como herói,
mas haverá justiça e não vingança;
quer ir para a casa,
não há mais lar.
Jair, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
um trecho de Lohengrin,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você se arrependesse...
Mas você não se arrepende
você é nulo, Jair!
Sozinho no escuro de sua alma
sem as heresias do puxasaquismo de valdomiros, malafaias, macedos e felicianos
sem o Deus, do acima de tudo
sem o cercadinho
para inflar o ego
sem a motocicleta
que usa sem capacete,
você ainda marcha, Jair
Jair, para onde?