PREVIDÊNCIA

Em 5 anos, lei de Felicio usou R$ 1,2 bilhão do IPSM para abater de aporte da Prefeitura

Por Julio Codazzi | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Charles de Moura/PMSJC
IPSM (Instituto de Previdência do Servidor Municipal) de São José dos Campos
IPSM (Instituto de Previdência do Servidor Municipal) de São José dos Campos

Nos primeiros cinco anos de vigência, uma lei municipal criada em outubro de 2017 permitiu a utilização de R$ 1,248 bilhão de aplicações financeiras do IPSM (Instituto de Previdência do Servidor Municipal) para abater de aportes que a Prefeitura de São José dos Campos deveria ter feito ao órgão.

O levantamento foi feito pela reportagem com base nos balancetes publicados pelo IPSM. Antes da lei em questão, que é de autoria do ex-prefeito Felicio Ramuth (PSD), o cálculo de eventual aporte era simples: a Prefeitura precisava fazer repasses mensais ao instituto sempre que a receita do órgão (essa parte vem da contribuição descontada em folha, que atualmente é de 14% para servidores e 26% para o poder público, como Prefeitura e Câmara) fosse inferior à despesa (valor gasto para o pagamento de aposentados e pensionistas).

Para reduzir a necessidade dos aportes, a lei de outubro de 2017 passou a permitir que, de eventual diferença entre receita e despesa, seja deduzido o excedente financeiro (tudo que o IPSM obtiver além da meta com suas aplicações de recursos) ou dois terços do total de rendimentos (correção monetária e juros das aplicações do instituto).

Apenas de outubro a dezembro de 2017, por exemplo, essa lei serviu para abater R$ 23,5 milhões de possíveis aportes. Em 2018 foram R$ 215,4 milhões. Em 2019, R$ 334 milhões. E em 2020 o maior valor, de R$ 394,7 milhões. A partir de 2021, começou a haver uma redução. O valor abatido foi de R$ 151,4 milhões. E em 2022, de janeiro a setembro, de R$ 129,5 milhões.

CALOTE.
Essa redução coincide, justamente, com o calote aplicado pelos governos Felicio e Anderson Farias (PSD) no IPSM. Como o uso do excedente financeiro e dos dois terços dos rendimentos deixou de ser suficiente para equilibrar as contas do instituto, passou a ser necessário que a Prefeitura realizasse aportes mensais ao órgão, mas os repasses não ocorreram no patamar devido.

De janeiro do ano passado até setembro de 2022, durante as gestões de Felicio Ramuth e Anderson Farias, a Prefeitura deixou de repassar R$ 308,9 milhões ao IPSM – desse total, o município tenta parcelar R$ 165,9 milhões em 20 anos.

O órgão é responsável pelo pagamento, atualmente, de 5.600 aposentados e mais de 1.000 pensionistas. Os servidores ativos, que um dia também receberão do IPSM, passam de 7.000.

PATRIMÔNIO.
Desde a criação da lei de 2017, o patrimônio do IPSM, que é uma espécie de poupança do órgão, diminuiu 28,7%, passando de R$ 2,14 bilhões em outubro daquele ano para R$ 1,542 bilhão em setembro de 2022, uma queda de R$ 614,4 milhões.

“Qual é o motivo da queda do patrimônio? É a utilização dos dois terços dos rendimentos. É simples esse cálculo. Se você utiliza dois terços do rendimento todo mês para cobrir parte do aporte, a tendência do patrimônio é ir caindo, não é subir. Se fosse ao contrário, se não utilizasse, esse patrimônio só subiria”, disse o superintendente do IPSM, Devair Pietraroia da Silva, em audiência pública realizada em junho.

O último estudo atuarial aponta uma previsão de saldo negativo de R$ 8 bilhões nos próximos 35 anos.

REPERCUSSÃO.
A reportagem pediu que Felicio fizesse uma avaliação dos resultados obtidos nos primeiros cinco anos da lei. O ex-prefeito, que é candidato a vice-governador na chapa de Tarcísio de Freitas (Republicanos), não respondeu.

Questionada sobre os efeitos da lei de 2017 nas finanças do instituto e na queda do patrimônio do órgão, a Prefeitura alegou que o déficit mensal do IPSM é de R$ 32 milhões, e que esse fator é o “principal causador da diminuição do patrimônio do instituto, uma vez que o patrimônio é usado exclusivamente para o cumprimento de seu fim: pagar as aposentadorias e pensões”.

Sem dar mais detalhes, o governo Anderson afirmou ainda que, “diante desse cenário, agravado pela crise financeira da Covid-19, o município estuda medidas para mitigar e conter o déficit, que diminui a capacidade que o instituto tem para honrar os seus compromissos”.

Comentários

3 Comentários

  • Laurence Benatti 01/11/2022
    Gostaria sinceramente de ouvir nosso prefeito a respeito desta questão. As notícias são veiculadas e há um silêncio mortal da administração. São 6.600 indivíduos e também suas famílias que aguardam uma resposta. Estão esperando o quê? Dinheiro não cai do céu para cobrir o déficit. Que o PSDB nunca gostou de servidor público nós já sabemos. Agora, deve-se ter competência para passar em concursos públicos de qualquer esfera, e parece que esquecem que São José dos Campos só se tornou o que é hoje devido ao esforço destes milhares de servidores que desenvolveram suas atividades honesta e eticamente. Esquecer disso é torcer para o PT voltar a administrar nossa cidade.
  • Jeferson Toledo 28/10/2022
    Para quem não entendeu ainda, este Governo não tem a menor paixão por servidor público. Governo e vereadores que votam para prejudicar os servidores, paixão 0.
  • Albert 27/10/2022
    É muito simples, a quantidade de servidores ativos necessários para provisão das seguridades dos servidores inativos é insuficiente, visto que muitos setores onde haviam servidores efetivos, hoje há terceirização através de OSCIP (Creches, UBS, UPAs, etc). Isso num sistema colaborativo de previdência tende a falência, al´ém disso, a má gestão do IPSM, por culpa dos projetos ruins aprovados pelo Legislativo, tal como esse do uso de 2/3 dos rendimentos financeiros, al´ém dos repasses insuficientes corroboram com o déficit apontado no estudo atuarial. O problema é que o povo aceita tudo hoje em dia ou é alienado em questões desse tipo, além do próprio governo influenciar a população a ficar contra servidores efetivos. Parabéns Exelentíssimo Prefeito Anderson Farias e Sr. Felício Ramuth.