Em pleno dia de Natal, esta coluna não poderia chegar às mãos do leitor se não com uma receita prática, gostosa e rápida no preparo para figurar como sobremesa na mesa da festa cristã. Trata-se da rabanada, que os portugueses nos ensinaram a saborear muito antes da chegada dos italianos com seus panetones. Em todas as regiões brasileiras ela está associada ao período natalino, mas no Rio de Janeiro, entre cariocas, é simplesmente insubstituível.
Sobre as origens deste doce é muito interessante ler o que escreveu Luís da Câmara Cascudo, cujo Dicionário do Folclore Brasileiro ainda é a melhor obra erudita sobre cultura popular publicada no século passado. Lembra o escritor que no interior do nosso país, nos rincões mais afastados, é considerado pecado jogar fora o pão, deixá-lo cair e não o recolher, porque este alimento simboliza a vida e resgata a lembrança de Deus na hóstia consagrada. Reaproveitá-lo como doce foi uma solução criativa ainda fora do período das festas de fim de ano. Afinal, bem antes de se firmar a tradição, as rabanadas, com o nome de ‘fatias de parida’, eram preparadas para mulheres debilitadas após o parto. Por sua mescla de carboidratos e proteínas, restauravam as forças das parturientes. Até hoje o hábito se mantém.
A mais antiga referência a esta iguaria encontra-se no primeiro livro de culinária que se conhece, o De Re Coquinaria, escrito por Marco Gavio Apicio, no século 1 de nossa era. Assim ensina o romano: “corte um sigilíneo em fatias grossas. Coloque-as de molho no leite e frite em óleo. Espalhe mel em cima e sirva”. Sigilíneo era o nome do pão feito com aveia em lugar de trigo.
À parte os nomes, o doce é conhecido em diferentes regiões do planeta. No Marrocos seu nome é khobz belbid; na Índia, meetha andewala; na Indonésia, roti telur; nos Estados Unidos, french toast; na França, pain perdu.
A mim me parece que os franceses sacaram bem o espírito da rabanada, pois o que chamam pain perdu é o pão amanhecido. É ele a base de toda rabanada. Servi-la simplesmente com açúcar e canela, conforme se pode ver na imagem que ilustra esta página, é uma opção e a que eu prefiro. Nada impede porém que você crie sua versão com calda de vinho, mel ou Porto.
Algo importante a acrescentar é que nossa receita tem bem menos calorias que as tradicionais, pois é assada, ao contrário da maioria que é frita. Elimina-se assim a gordura e até o trabalho de ir fritando aos poucos. Você escolhe uma assadeira grande, onde possa colocar todas as fatias e depois de prontas as transfere para uma bandeja bonita a fim de serem levadas à mesa.
Vamos começar untando uma assadeira grande (porque as rodelas não podem ficar sobrepostas). Em cima do fundo untado coloque uma folha de papel vegetal e unte-o também. Mas se você tem uma assadeira tipo tefal, pode dispensar o papel. Agora corte o pão amanhecido. Pode ser o francês ou de outro tipo. O da foto é italiano. Em seguida bata os ovos, gemas e claras juntas, numa tigela. Perfume com a baunilha. Em outra vasilha, misture bem o leite condensado e o de vaca. Para facilitar despeje a mistura de leites numa assadeira e a de ovos em outra. Distribua as rodelas de pão sobre a mistura de leite, deixe um minuto, vire, deixe outro tanto de tempo. Elas ficarão umedecidas mas não encharcadas. Feito isso, leve-as à outra assadeira com os ovos batidos e proceda da mesma forma: um minuto de cada lado. Estão prontas para serem colocadas na assadeira que vai ao forno, a esta altura já aquecido a 160 graus. Elas assam rapidamente. Fique de olho; quando dourarem na superfície, retire a forma e vire as rabanadas para dourarem o lado que ficou voltado para baixo. Assim que isso se der, estão prontas. Enquanto amornam, misture numa tigelinha três colheres (sopa) de açúcar e uma de canela. Passe cada rabanada pela mistura e organize-as numa travessa bonita para ser levada à mesa.
O tempo é de doçuras. Feliz Natal!
O tempo é de doçuras. Feliz Natal!
20 rodelas de pão amanhecido
1 lata de leite condensado
1 xícara de leite de vaca
3 ovos
1 colher (chá) de baunilha
Açúcar refinado
Canela em pó
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico