Comer Bem: Doce de manga caseiro


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As louças e utensílios usados na produção desta receita foram fornecidas pela Espaço Casa
As louças e utensílios usados na produção desta receita foram fornecidas pela Espaço Casa
Fui criança nos anos 50, quando em quase toda casa havia quintal. Das três onde morei até os dez anos, em duas havia um, mas pequeno, onde minha mãe plantava num cantinho um chuchuzeiro e no outro alguns pés de milho. Dava para o gasto. Mas na vizinhança existiam grandes quintais com mangueiras, espaço para brincadeiras diversas que incluíam subir aos galhos e apanhar os frutos. De vez em quando alguém aparecia com gesso no braço. Mas isso só em final de ano. 
 
Não víamos mangas maduras senão a partir de meados de novembro, com os preparos domésticos para as festas de fim de ano. Mas as verdes já estavam crescendo devagar desde muito antes, e nos temporais de final de primavera caiam ao chão e formavam um tapete verde. Um desafio para as mulheres que viam naquela ocorrência a oportunidade de fazer o doce que duraria meses. Doce de manga verde, só um tantinho ácido... Hummm! Melhor que marmelada, até hoje avalio. Sempre gostei dele e da faina que representava seu preparo. Primeiro montavam um tipo de fogão rústico no quintal, com tijolos, algum apoio em metal e uma trempe. Sobre ela colocavam uma lata de vinte litros cheia de água onde os frutos iriam ser cozidos. Nesta altura, nós crianças havíamos participado de um campeonato para ver quem recolhia mais mangas do chão. 
 
Elas eram bem lavadas e a tarefa seguinte pertencia a adultos que cortavam o lado do cabo e a ponta da manga. Depois de cozida e esfriada, um movimento da mão fazia soltar a casca. Dessa maneira rapidamente dezenas de frutas eram destinadas a uma grande peneira colocada sobre tacho. Voltávamos então,  para a necessária ajuda, representada por muitas mãozinhas passando a manga pelas tramas para obter um purê amarelado. Os caroços eram todos colocados num saco de lixo. As mulheres que conduziam o trabalho mediam o purê para estabelecer quanto de açúcar deveriam misturar. Lembro-me perfeitamente desta medição: tantas latas de purê, as mesmas de açúcar. Depois era reunir, misturar com a enorme colher de pau e ficar por ali mexendo, atiçando o fogo quando preciso. No final, quando a massa estava beleza, alguém olhava e calculava quanto caldo de limão iria colocar. Um pouco de doce era retirado antes, para se comer com colher. Mas o restante, maioria, ia sendo apurado até que se pudesse ver o fundo do tacho raspado. Era o sinal de que estava no ponto de cortar. Já se encontravam então sobre comprida mesa de madeira, devidamente à espera, uma latas retangulares com suas respectivas tampas. Seriam guardadas para muito além da mesa de Natal. Por muito tempo este doce que eu comia com tanto prazer desapareceu da minha mente e da minha mesa, não descobri até hoje a razão. E para que eu retornasse no tempo foi preciso descobrir que minha nora Milena o tem como sua sobremesa de eleição.
 
Fui então para a cozinha, totalmente diversas dos tempos de antanho, eu e ela. E com mangas verdes, do tipo comum, que já rareiam pois a preferência do consumidor é pelas belas Hadens & Atkins, preparei o doce da infância que hoje apresento aos leitores desta página. Não chegou no ponto ideal de cortar; mas segundo Milena, “ficou uma delícia!”. Garanto que da próxima vez acerto. 
 
Breve capítulo sobre a manga. Ela é tão abundante no Brasil que algumas pessoas acham ser uma espécie nativa. Pois não é que crescem e produzem em ruas, terrenos baldios e até laterais de rodovias? Mas não; a espécie é originária da Índia. Foi descrita em 1753 pelo botânico Linneus, mas muito antes, no século 4 de nossa era, tinha sido mencionada nos poemas de Kalidasa, o que leva a crer que sua domesticação data de tempos muito antigos.
 
Ao Brasil a manga chegou pelas mãos dos portugueses que se aventuravam pela Índia em busca de especiarias. Nosso país foi o primeiro a cultivá-la na América e hoje ocupa o oitavo lugar na produção mundial. O curioso é que não fizeram sucesso de imediato, dado o grande número de frutas por aqui facilmente encontradas e hoje já correndo risco de extinção, como araçás, gabirobas, jabuticabas, muricis, cambucis e jambos que a devastação da Mata Atlântica dizimou ou reduziu. Atualmente as variedades mais apreciadas pelos brasileiros são a rosa, a bourbon, a ubá, a haden e a tommy atkins. Na forma variam bastante: redondinhas, ovais, alongadas, pequenas, médias e grandes, pesando entre dois e dez quilos- caso da coração-de-boi.
 
O doce cuja receita repasso pode ser feito com qualquer uma das espécies, maduras ou verdes. O sabor vai variar um pouco, mas sempre será bom. Este da página foi feito com comuns e verdes, conforme expliquei. Lavei as mangas, descasquei, cobri com água e cozinhei durante meia hora, até que espetando um garfo vi que estavam bem moles. Esperei esfriar e passei por uma peneira. Rapidamente cumpri esta etapa. Vinte mangas em dez minutos. Medi a quantidade de polpa, fiz a correspondência em açúcar, coloquei em panela ( se você tiver um tacho, o doce ficará mais bonito ainda), mexi para misturar bem, levei ao fogo médio. De vez quando mexia, deixando a panela semi tampada pois a certa altura o doce espirra. No final, quando estava apurando, destampei de vez e mexi por uns cinco minutos, até sentir que estava bem espesso. Neste momento coloquei o suco de limão e voltei a mexer por outros cinco. Estava pronto e a casa deliciosamente perfumada.
 
 
Ingredientes
 
 20 mangas verdes
 Açúcar
 Suco de dois limões
 
 
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico

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