Da primeira bebida que os astecas apresentaram aos espanhóis quando estes chegaram ao México resta pouco. Ela era bem amarga, recebia acréscimo de especiarias, não raro continha também um traço de pimenta. Mas desde o contato inicial os primeiros europeus chegados ao Novo Mundo compreenderam que estavam diante de um alimento poderoso, que revigorava o ânimo e as forças de tal forma que uma caneca do líquido permitia a um nativo trabalhar durante horas sem reclamar de cansaço. Chamava-se xocoatl.
Muita água rolou desde que as sementes trituradas do cacau fossem mescladas ao leite, formando a bebida consumida apenas pela elite até final do século XIX. E foram necessários três séculos para que, com o advento da revolução industrial, um suíço resolvesse aprimorar técnicas autorais e conseguisse produzir a barra seminal. Desde então as fábricas se espalharam pelo mundo, para alegria dos consumidores.
Tim Burton, o célebre cineasta, presta bela homenagem ao produto, às crianças e aos consumidores adultos no filme de 2005, A fantástica fábrica de chocolate, que teve John Depp como protagonista da história sobre o garoto sorteado para visitar os domínios de Willy Wonka e seus estranhos empregados- os Oompa-Loompas, seres de 30 cm de altura. Nosso Jorge Amado tratou do tema em alguns romances ligados à saga do cacau no sul da Bahia, especialmente em Ilheus, região produtora até final dos anos 70.
O chocolate tem poder viciante; olhe ao seu redor e será impossível não detectar pelo menos meia dúzia de confessos viciados. Para eles, tudo o que leva chocolate é uma tentação irresistível: bombons, balas, bolos, sorvetes, mousses e... tortas como esta cuja foto ilustra a página. Para eles, a notícia que circulou recentemente , de que o chocolate pode acabar, deve ter sido recebida com apreensão. Acabar? Como assim? Acabar talvez seja uma afirmação muito peremptória. Mas que ele pode se tornar mais raro e mais caro é uma tendência. O principal motivo é a escassez dos frutos. Grande produtor de cacau até 2012, o oeste da África sofre com a seca e com as pragas que reduziram a safra em 40%. Sem dinheiro, muitos fazendeiros passaram para outras culturas, como a do milho. A escassez é um fator, não o único. Outro é o grande consumo; as pessoas estão consumindo muito mais chocolate do que a indústria pode produzir. No Brasil, como na China, o aumento do consumo a cada ano é de impressionar. E a preferência pelo chocolate amargo cresce também, o que é sintomático do problema a enfrentar. Enquanto uma barra de chocolate ao leite tem 10% de cacau, outra de chocolate amargo tem 70%! Vai daí que dois conhecidos fabricantes já avisaram: vai faltar cacau e a crise vai se agravar ali por volta de 2020. Existem grandes pesquisas em andamento para o desenvolvimento de árvores mais resistentes e capazes de produzir mais frutos em menos tempo. Enquanto isso não se resolve, aproveitemos o que ainda temos. A torta de chocolate pode fazer parte da mesa natalina, se ela já começa a ser pensada.
Prepare a massa em primeiro lugar. Depois, enquanto ela permanece na geladeira, você faz o recheio. Então, vamos lá. Coloque numa tigela média 240 gramas de farinha de trigo peneirada. Junte 120 gramas de pedaços de margarina em temperatura ambiente. Com as pontas dos dedos forme uma farofa. Acrescente 60 ml de água fria e 1 pitada de sal. Sove até que tudo vire uma bola. Coloque em uma vasilha, cubra com papel filme e leve à geladeira por meia hora. Passe ao recheio. Ponha numa panelinha 180 gramas de chocolate meio amargo picado. Quando começar a derreter, agregue a manteiga. Mantenha o fogo brando, mexendo a mistura até ficar homogênea. Acrescente 3 colheres de nozes picadas ao chocolate derretido com manteiga. Elas vão conferir um crocante delicioso à torta. Reserve até esfriar. Bata os ovos inteiros junto com o açúcar. Não precisa ser na batedeira; use garfo ou fouet; a massa ficará ainda mais leve e vai se incorporar melhor ao chocolate. Reúna as duas misturas- chocolate e ovos. Mexa bem. Aromatize com o licor de sua preferência, rum ou kirsch. Usei Grand Marnier, um licor de laranja. Preaqueça o forno a 180 graus. Retire a massa da geladeira, estenda-a com rolo em superfície lisa, forre com ela uma forma de aro descartável. Com as mãos, ajeite pedaços de massa nas bordas. Usando um garfo fure toda a superfície e as bordas. Asse a massa por cerca de quinze minutos. Aliás, isso pode ser feito na véspera, para agilizar seu tempo. Guarde fria, fora da geladeira, até a hora de usar.
Massa assada, é hora de rechear. Derrame o recheio sobre ela e leve ao forno por 25 minutos. Rale o resto do chocolate e reserve. Quando fria, decore a torta com estas raspas, chantilly e laranjinhas em compota. Vale ainda um toque de geleia de pimenta, folhas de hortelã, morangos ou o que mais a sua imaginação sugerir. Cozinha é criação. Sirva a torta bem gelada.
INGREDIENTES
Massa
240 gramas de farinha de trigo
120 gramas de margarina
60 ml de água fria
1 pitada de sal
Recheio
200 gramas de chocolate meio amargo em barra
200 gramas de manteiga ( + manteiga para untar a forma)
2 ovos
100 gramas de açúcar
1 colher de licor
3 colheres de nozes picadas
150 ml de chantilly
Raspas de chocolate
Frutas em calda para decorar
Folhas de hortelã para o toque de frescor