Quando eu era criança e via minha mãe amolando a lâmina da faca na pia da cozinha, já ficava assustada. Ela iria matar um frango da forma que me parecia mais cruel: cortando-lhe o pescoço, segurando-o até que o sangue escorresse todo para um pratinho adrede preparado. A maior das agonias, achava eu, era morrer com os pés amarrados. Nossa vizinha Geralda também matava galinha. Mas era de outro jeito. Ela pendurava a coitada de cabeça para baixo, no caibro de uma cozinha que ficava fora da casa, e depois de alguns minutos torcia-lhe o pescoço. Nhac! E a gente até escutava o ruído da vértebra se arrebentando.
Após estes dois rituais macabros havia outros, mais interessantes porque ensejavam asas à nossa imaginação infantil. Ao arrancar as penas da ave Geralda nos contava que em tempos muito antigos as pessoas usavam as penas para escrever. Molhavam aquela parte branca em alguma tinta que poderia ser até ( no caso dos ciganos) o sangue, credo!, e escreviam. Daí o nome da pena da caneta. A gente entendia direitinho a lição que, muito tempo depois, saberíamos se tratar de uma figura de linguagem. Minha mãe era mais ficcional; relatava para nós, minha irmã e eu, duas histórias nestas ocasiões. A da galinha dos ovos de ouro, que nos deixava perplexas com a burrice do homem que a havia matado; e a de um garimpeiro que tinha ficado rico ao encontrar na moela da galinha um diamante. Isso nos levava a lhe pedir que nos deixasse ver as entranhas do bicho, o que ela nos negava peremptoriamente.
Antigamente era assim. Bem diferente de nossa contemporaneidade pós -moderna. Galinha viva inspirava até escritores. Clarice Lispector tem um conto antológico chamado “Uma galinha” que começa assim: “ Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.” Cecilia Meirelles também escreveu sobre este personagem instigante, lembrando-se de cozinheira de sua meninice que cozinhava para ela ovinhos que retirava dos ovários de algumas galinhas a serem preparadas para almoço de domingo.
Contar essas coisas para uma criança de nossos dias deve parecer algo surreal. Desconfio de que muitas delas, principalmente as que vivem nos grandes centros urbanos, nem sabem como é de fato uma galinha, pois quando não a comem retirada da máquina de assar, veem a dita cuja já em pedaços na bandejinha, tudo compartimentado: asas, sobrecoxas, peito com osso, peito sem osso, corações... Não é lá muito fácil montar o quebra-cabeça. Sem falar no caso das que pertencem a famílias vegetarianas ou defensoras do politicamente correto, onde assunto “ galinha assassinada” é o supra sumo do mau gosto, pois pode levar a criança a ter uma crise de choro.
Mas aposto que diante de um filé grelhado ou de um hambúrguer dessa carne branca as crianças bem que gostariam de saber mais sobre o frango. Por exemplo, que a origem dele remonta à pré-história. O Archaeopterix é considerado pelos paleontólogos como o antepassado de todas as aves. Que criança não adora ouvir falar sobre dinossauros?
A sério, tudo indica que a domesticação do frango foi iniciada no Neolítico, período em que os humanos começaram a se agrupar e a desenvolver técnicas rudimentares de criação, de caça e de agricultura. Neste início descobriu-se nos ovos da galinha um precioso alimento, proteína pura que sustentava por horas e era de fácil digestão. Além do mais, existia nas penas uma opção de ornamento. A galinha cava então seu espaço na cultura doméstica, de fixação a um território e de formação de comunidade. Membro cativo dos lares humanos, criado em pequenos cercadinhos, de fácil trato e transporte, o frango passa a protagonizar grandes banquetes e a funcionar como mimo e fortificante ao corpo adoentado. Na China, era valorizado na refeição de qualquer pessoa que contasse com um mínimo de recursos. Da Grécia do século IV aC, ele saltou para a Itália e seu consumo foi difundido através do expansionismo romano. Ou seja, por trás da simplicidade da ave emerge a história do desejo humano pela segurança de um lar e pelo conforto de uma boa refeição. Como esta, que o leitor vê na foto. São coxinhas de frango besuntadas com molho de damasco e assadas com pedaços de maçã e cebola roxa. Para acompanhar, basta uma salada de folhas verdes.
Não é necessário matar o frango. Compre as coxinhas no supermercado. Elas já vêm limpinhas e embaladinhas. Basta retirar da embalagem, lavar, secar e temperar com a mistura de geleia misturada a uma pitada de sal e outra de pimenta-do-reino. É essencial levantar a pele das coxinhas e untar também debaixo delas, puxando-a depois para cobrir a carne. Deixe descansar por uns quinze minutos durante os quais você corta as minimaçãs tipo Fuji em quatro, retirando as sementes. Corte também em quatro as cebolas roxas. Descasque os dentes de alho. Feito isso, escolha um refratário onde possa acomodar os ingredientes. É importante que fique tudo bem juntinho, como se pode ver no passo a passo. Depois, esprema em cima uma laranja bem ácida e leve ao forno preaquecido a 180 graus por cerca de 30 minutos. O visual é bonito. O sabor, delicioso.
Ingredientes
10 coxinhas de frango
4 mini maçãs tipo Fuji
4 cebolas roxas pequenas
4 dentes de alho pequenos
1 laranja ácida
4 colheres (sopa) de geleia de damasco
1 colher (café) de sal
1 colher (café)de pimenta-do-reino
porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico