Compota de Kinkan


| Tempo de leitura: 4 min
As louças e utensílios usados na produção desta receita foram fornecidos pelo Espaço Casa
As louças e utensílios usados na produção desta receita foram fornecidos pelo Espaço Casa
Em nossa cidade já estamos encontrando nos varejões laranjinhas Kinkan a preços mais razoáveis. Tempo de safra, os produtos aparecem melhores e mais baratos. São uma presença recente entre consumidores brasileiros e por isso, às vezes, ouço pessoas perguntando: o que fazer com elas? Muitas sobremesas, entre as quais um doce em calda. 
 
A origem da fruta é a China, de onde ela se espalhou para outros países da Ásia, principalmente o Japão. “Kumquat” ou “Chin kan”, em chinês; e “Kinkan” em japonês, significam a mesma coisa: “laranja de ouro”. Como costumo lembrar, a etimologia nos ajuda a entender a essência das coisas nomeadas. É mesmo de ouro uma laranja de cor intensa, que possui em apenas duas unidades quantidade de vitamina C suficiente para suprir as necessidades diárias do organismo humano. Na China seu consumo é intenso.
 
Quando bem maduras são deliciosas ao natural. Mas sempre me acomete a tentação de fazer compotas com elas, desde que experimentei o doce há mais de dez anos. Foi na ocasião em que a médica Zilda Arns esteve em Franca e foi homenageada com um jantar pelo bispo Dom Diógenes. Convidada, estive lá. Tive a honra de me sentar ao lado dela, três vezes indicada ao Prêmio Nobel da Paz, e conversar sobre seu importante trabalho social que contemplava principalmente crianças e idosos. Naquela noite ela nos falou de suas campanhas de saúde, nutrição, educação e cidadania para comunidades carentes de todo o país e, já naquele momento, também presentes em países que enfrentavam guerras e catástrofes. Seis anos depois seria vítima de uma dessas no Haiti. Estava em Porto Príncipe, para a Conferência Nacional dos Religiosos do Caribe e para encontro com representantes de várias ONGs da América Latina. Tinha acabado de falar a religiosos latino-americanos em uma igreja quando um terremoto atingiu a cidade e matou milhares de pessoas. A morte de Zilda Arns foi perda enorme no âmbito dos que realmente se preocupam com misérias e carências. 
 
Como as associações de ideias são inevitáveis, sempre que me vejo diante de uma taça de compota de laranjinha Kinkan me lembro de Zilda Arns, recordo aquela noite, resgato o jantar onde o doce servido à sobremesa representou para mim uma novidade. Eu nunca o tinha visto e ao experimentá-lo adorei o sabor, a textura, a cor, o aroma, até o desenho limpo e um tanto infantil. Dona Zilda Arns o conhecia e elogiou muito, perguntando quem o tinha feito. Parece-me tê-la ouvido dizer que os catarinenses gostavam e que aquele doce bonito a fazia recordar-se de outro parecido, produzido por alguém lá da sua Forquilhinha. 
 
Por muito tempo fiquei pensando que deveria ser trabalhosa a feitura da compota, pois acreditava ser necessário descascar laranjinha por laranjinha- e eu não sou, sabem os que me conhecem, um poço de paciência. Mas o tempo passou e um dia encontrei uma boa alma que me fez ver que era puro preconceito de minha parte creditar dificuldades à elaboração. Que descascar, que nada! A casca desta laranja, fruto que na verdade não pertence à família dos citrus, é de outra espécie. Fina e tenra, poderia ser mantida sem comprometimento do sabor. O único trabalho seria retirar as sementes, o que, aliás, nem é unanimidade, pois há quem não o faça, optando por manter as laranjinhas inteiras. Por experiência própria digo que é importante retirá-las, pois podem amargar um pouco a calda. Mas isso se faz rapidinho. Basta cortá-las ao meio e, usando colherinha ou faquinha, desentranhá- las da polpa. Saem rapidinho. 
 
Há quem aconselhe flambar as laranjinhas com álcool para eliminar o excesso de óleo da casca. Já fiz das duas formas e não senti diferença expressiva. Esta que você vê na página não foi flambada e ficou ótima. Vou contar como fiz. Medi as laranjinhas- quatro xícaras de chá bem cheias. Lavei, enxuguei e coloquei aos poucos sobre uma tábua de madeira. Com faca afiada cortei ao meio as frutas e com colherinha de café fui retirando as sementes conforme se vê no passo a passo. Coloquei numa vasilha de inox, cobri com bastante água e deixei de molho por uma noite. No dia seguinte escorri, levei a uma panela, cobri com água fria e esperei levantar fervura. Escorri e repeti a operação. Em panela média coloquei no fundo uma xícara de açúcar e cinco cravinhos-da-índia. Despejei as laranjinhas e cobri com outra xícara de açúcar. Completei com água fria - duas xícaras. Levei ao fogo médio para que cozinhassem por vinte minutos. Este é o tempo que se leva para que as laranjinhas fiquem macias e brilhantes e a calda se torne espessa. Se houver necessidade, vá juntando aos poucos mais água. Isso pode ser preciso se a fruta ainda estiver dura e a calda seca. É necessário experimentar. No máximo em meia hora o doce deve estar pronto. Desligue a chama, deixe esfriar na panela, transfira para uma compoteira, leve à geladeira. Sirva em taças transparentes para que a beleza da cor e da forma se evidencie.
 
 
INGREDIENTES
 
 4 xícaras (chá) de laranjinhas Kinkan
 2 xícaras (chá) de açúcar cristal
 ½ litro de água
 5 cravos-da-índia
 
porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico

Comentários

Comentários