Uma receita Siciliana


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O pappardelle alla Norma é massa com molho de tomates frescos, pedaços de berinjela, ricota passada no ralo grosso; presta homenagem a Bellini
O pappardelle alla Norma é massa com molho de tomates frescos, pedaços de berinjela, ricota passada no ralo grosso; presta homenagem a Bellini
Entre o Jônico e o Tirreno, irrompe ao olhar do viajante uma ilha que por sua logística e belezas naturais foi invadida ao longo do tempo por gregos, romanos, normandos, cartagineses, árabes e espanhóis. É a Sicília. Principal ponto de comércio por séculos, lugar onde se misturaram raças, costumes e cores, seus habitantes se definem primeiro como sicilianos; depois, italianos. Nos livros escolares das crianças sicilianas, a ilha ocupa lugar de destaque, como se fosse um país.
 
A capital é Palermo, cuja herança monumental exibe quase meia centena de palácios e mais de oitenta igrejas em estilos diferentes, algumas muito divulgadas em fotos, como a de Gesù, de fortes características barrocas. Do cruzamento das ruas Magueda e Vitória Emanuelle, o turista pode sair para conhecer a cidade a partir das Quatro Fontes e depois buscar a estrada e transitar até Agrigento, o lugar dos templos gregos, desde 1998 Patrimônio da Humanidade; Messina, primeiro porto siciliano; Siracusa, com os fundamentos da antiga Neapolis e um castelo de pedra de perturbar o espírito; Catania, de impressionantes construções erguidas com lava do Etna; Taormina, encantadora, de onde se pode excursionar ao vulcão mais alto da Europa; Cefalù, toda murada e debruçada sobre o oceano. E Enna, Ragusa, Trapani... Pequenos centros urbanos que só fazem reforçar o que desvela o olhar do viajante: a beleza das cidades sicilianas extasia.
 
Não é à toa que dizem ser a ilha um museu a céu aberto. Só de sítios arqueológicos são mais de 260 catalogados, entre conjuntos de templos, anfiteatros gregos, fortalezas, torres, igrejas, palácios. E tudo lado a lado, mostra de arte de todos os povos e culturas que passaram por ali deixando sua marca. A emoldurar esse cenário de caminhos estreitos, pontes românticas, mercados ruidosos, temos um mar cristalino de águas límpidas e tépidas. 
 
Visitar a Sicília é descobrir um espaço completamente diverso do continente. Sentir por toda parte o perfume cítrico oriundo de limoeiros, laranjeiras e mandarinas plantados nas calçadas e canteiros públicos; admirar as cores intensas que vão do azul escuro do mar aos amarelos presentes na famosa louça; surpreender-se com sabores de peixes e legumes preparados de forma criativa e diversa- é um indescritível prazer.
 
Cultura gastronômica das mais ricas do país, fruto do passado que tem suas raízes em épocas remotas, a cozinha siciliana é caracterizada por pouca carne vermelha e muitos peixes como o atum e o espada , além de frutos do mar, legumes, verduras e, claro, pastas curtas e compridas, frescas e secas, algumas recheadas e de autoria local. Comer e beber na Sicília significa viajar no tempo e saborear as influências acolhidas desde muito tempo. Todos deixaram sua contribuição e ajudaram a compor a forma de viver dos sicilianos, que, no geral, são muito ligados à família e demonstram grande apetite por sol, música, comida. Reproduzo hoje um prato que degustei no Hotel Taodomus, há cinco anos, quando estive na Sicília com grupo de amigos viajantes. Trata-se da Pasta alla Norma, que  presta homenagem a um siciliano ilustre, Vicenzo Bellini.
 
Nascido em Catania, numa família de músicos, aos dezoito meses, no colo da mãe, Bellini cantou uma ária inteira de Fioravanti, surpreendendo os que o ouviam. Começou a estudar teoria musical aos dois anos e piano aos três. Aos cinco tocava fluentemente. Seu talento foi comparado ao de Mozart, também criança-prodígio. A primeira composição de Bellini data dos seis anos. O músico dividiu-se entre música sacra e sinfônica, mas foi a ópera que lhe deu fama. Sua obra mais difundida é Norma, em cujo protagonismo se destacaram no século XX as divas Maria Callas e Montserat Caballé. Mas bem antes o papel foi defendido por Giuditta Pasta, amiga de Bellini, ambos amantes de pasta. Então. Depois me digam se o nome não influencia a pessoa.
 
Para preparar una vera pasta alla Norma, comece pelo molho de tomates. Lave-os (não há necessidade de pelar nem de retirar as sementes), corte em gomos, junte cebola, alho, sal, pimenta, cheiro verde e azeite. Bata no liquidificador, coloque em panela e leve ao fogo alto. Quando levantar fervura, baixe a chama e deixe assim por mais ou menos uma hora, mexendo de vez em quando até obter molho espesso. Enquanto o molho fica no fogo, corte as berinjelas em rodelas, salgue de ambos os lados, coloque em escorredor e pressione com um peso - pode ser um prato de sobremesa. Este é o procedimento básico para desidratar as berinjelas e extrair o possível amargo de algumas espécies. Depois de uma hora, passe nelas um pano de prato limpo para retirar o excesso de sal. Frite em óleo bem quente e disponha sobre papel absorvente. Espere esfriar e corte em quatro cada rodela. Com delicadeza junte os pedaços ao molho de tomates. Misture com cuidado para que a berinjela não se desfaça. Cozinhe a massa escolhida em bastante água salgada até que fique al dente. A da foto é um pappardelle; mas pode ser qualquer uma de sua escolha. O fusilli cai bem nesta receita. Escorra a massa, coloque na tigela de servir, junte as folhas de manjericão e despeje o molho. Mexa com jeito para incorporar e finalize com ricota passada pela parte grossa do ralo.
 
 
INGREDIENTES
 
 2 berinjelas grandes
 1 kg de molho de tomates
 400 gramas de massa 
 1 xícara (chá) de folhas de manjericão fresco
 100 gramas de ricota ralada
 Óleo para fritura
 
Molho de tomates
 2 kg de tomates bem maduros
 2 cebolas médias
 4 dentes de alho
 Sal
 Pimenta calabresa a gosto
 2 colheres (sopa) de cheiro-verde
 
 
porção: 4
dificuldade: fácil
preço: econômico

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