Muçarela Mourisca


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A hortelã  embeleza coquetéis, decora sobremesas, aromatiza sopas de grãos, tempera carnes e ainda transforma  bolinhas de muçarela numa entrada fresca e perfumada
A hortelã embeleza coquetéis, decora sobremesas, aromatiza sopas de grãos, tempera carnes e ainda transforma bolinhas de muçarela numa entrada fresca e perfumada
“Vem o sol de agosto, vou dormir no prado/ Tudo lá é posto sem ferro de arado/A cama está feita de hortelã mourisca/E a macela espreita com graça de arisca!//Hortelã mourisca por entre a macela,/Vem lavar teu rosto no orvalho dela!/Hortelã mourisca pela madrugada,/Beijarei teus olhos, rosa perfumada!//Sob um mar de estrelas de flor de macela,/Não tenho fronteiras, não tenho janela!/Tenho a minha amada, cotovia arisca,/Toda perfumada de hortelã mourisca!”
 
Estes versos de José Vicente Oliveira foram musicados pelo compositor Arlindo Carvalho e fazem parte do cancioneiro da fadista Amália Rodrigues, cuja voz de mezzosoprano, e presença de grande dama na cena musical portuguesa por meio século , inspirou muitos poetas. Sobre ela escreveu assim Alícia Diaz: “Asas de vento/ cheiro de flores/ no peito um pássaro encarnado// Charneca ou monte/ desde o coração e Espanha/ Amália, obrigada!”
 
Amália Rodrigues tornou-se conhecida mundialmente como a Rainha do Fado e, por consequência, devido ao simbolismo que este gênero musical tem na cultura portuguesa, foi considerada por muitos como uma das melhores embaixadoras de seu país. Por décadas apareceu em vários programas de televisão ao redor do mundo. Marcante contribuição para sua biografia foi a novidade que criou, musicando poemas de autores clássicos como Camões e Fernando Pessoa. Amália teve infância pobre e era muito tímida. Quando completou 9 anos, sua avó, que era analfabeta, matriculou-a na escola. Aos 12, contrariando seu gosto pelos estudos, teve que interromper as aulas para trabalhar numa padaria; depois, foi bordadeira de tapetes; em seguida, vendedora de frutas. Aos 15, cantando numa quermesse, chamou a atenção de um músico e seu caminho como artista teve início. Amália da Piedade Rodrigues nasceu e morreu em Lisboa (1920 — 1999). Aclamada como a voz de Portugal, reconhecida como uma das mais brilhantes cantoras do século XX, sepultada no Panteão Nacional entre os portugueses ilustres, é considerada o exemplo máximo do fado, patrimônio cultural da humanidade desde 2011.
 
Gênero musical essencialmente português, o fado é cantado por uma só pessoa e acompanhado por guitarra clássica. O vocábulo vem do latim fatum, ‘destino’, e é a mesma palavra que deu origem ao substantivo “fada.” Estamos portanto no campo amplo dos significados metafóricos. Uma explicação popular para a origem do fado remete para os cânticos dos mouros que permaneceram no bairro da Mouraria, na cidade de Lisboa, após a reconquista Cristã, no final do século XV. A dolência e a melancolia tão comuns às canções teriam sido herdadas daqueles cantos. “Mouraria”, aliás, é título de uns dos mais famosos fados de Amália Rodrigues.
 
Mouros, mourarias, mourisco são termos que remetem para a impactante presença árabe na Península Ibérica. Não representam pouco tempo oito séculos, que foi quanto durou a permanência árabe, até que Isabel, a Católica, expulsasse o último contingente de Granada. Seriam portanto esperadas, naturais e enriquecedoras as influências em múltiplos segmentos, da música à culinária. 
 
Em se tratando de gastronomia, quer exemplo mais árabe na cozinha que o uso da hortelã? Ela entra em dezenas de pratos e alguns não se concebem sem ela, como o tabule, o pernil de carneiro, o quibe cru. Faz parte de pratos salgados mas também de doces, como o bolo de nozes que ganha sofisticação com as folhinhas na massa e no fondant. Em infusão torna-se chá ingerido por milhões no mundo muçulmano, onde bebida alcoólica é proibida pela sharia. No suco de abacaxi pode-se somar ao gengibre e se tornar uma bebida deliciosa no verão- além de detox, a nova palavra para desintoxicação. 
 
Embeleza coquetéis e decora sobremesas; aromatiza sopas de grãos e legumes; tempera carnes e peixes. Pouco exigente, é planta que adora ser cultivada em solos frescos e úmidos, ao sol ou meia sombra, sendo ideal para vasos e floreiras. Fez-se urbana e como tal frequenta casas e apartamentos. Para quem gosta de cozinhar, nada melhor que tê-la fresca, ao alcance da mão, no momento em que se está finalizando um prato: as moléculas de perfume se expandem quando cortamos os talos e esse aroma fresco contribui para o prazer da degustação. 
 
Do que eu não sabia é que pudesse se combinar tão bem com a pimenta calabresa seca, o azeite e o sal para virar um molho que pode mudar a aparência das bolinhas de muçarela que compramos em supermercados e geralmente se destinam a compor com o tomate e o manjericão a mais famosa das saladas italianas, a caprese. A de hoje é uma receita preguiçosa, no sentido de que não pede mais que alguns minutos pra ficar pronta. Afinal, o Carnaval já ganha as ruas e salões, entramos nos dias de Folia, ainda há um resto de férias no ar, uma compreensível má vontade em botar o avental e perder horas na cozinha. Além do mais, faz um calor danado e nada mais recomendável que pratos leves como estas muçarelas mouriscas perfumadas e deliciosas, que você prepara, deixa na geladeira e quem quiser que se sirva. É só lavar bem as folhas frescas de hortelã, deixá-las uns minutos sobre papel toalha para que a água excedente seja absorvida, picá- las finamente, reservando uns galhinhos para a decoração. Junte num almofariz a pimenta em flocos, as folhas de hortelã picadas, o azeite e o sal e dê uma leve machucada para liberar os aromas. Deixe descansar por meia hora e misture o molho às bolinhas. Tampe e leve à geladeira. Faça bastante, porque elas têm boa saída.
 
 
INGREDIENTES
 
 Ingredientes
 500 gramas de muçarela em bolinhas
 1 colher (chá) de pimenta vermelha em flocos
 2 colheres (sopa) de hortelã picada
 1 ramo de hortelã para decorar
 4 colheres (sopa) de azeite extra virgem
 Sal a gosto 
 
porção: 4
dificuldade: fácil
preço: econômico

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