INVESTIGAÇÃO

Deolane movimentou R$ 7 mi em quatro anos, mas declarou só 7,5%

Por André Fleury Moraes e Francisco Lima Neto | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução/TV Record
Deolane Bezerra foi presa durante operação que investiga lavagem de dinheiro ligada ao PCC
Deolane Bezerra foi presa durante operação que investiga lavagem de dinheiro ligada ao PCC

Presa nesta quinta-feira (21) sob a suspeita de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital), a influenciadora e advogada Deolane Bezerra, 38, declarou à Receita Federal ter ganhado 7,5% do que recebeu em contas correntes ao longo de quatro anos, segundo investigação da polícia.

Foram R$ 7,6 milhões em créditos de 2018 a 2022, sendo que apenas R$ 577 mil foi relatados ao órgão de auditoria fiscal. Esses números constam do relatório final do inquérito que apurou um esquema de lavagem e dissimulação de valores envolvendo a facção criminosa.

A Polícia Civil diz ter identificado uma "complexa engrenagem financeira estruturada em torno da pessoa Deolane Bezerra", e a decisão que decretou a prisão preventiva (sem prazo) da influenciadora cita um padrão de vida "desproporcional a qualquer fonte de renda lícita apurada".

A defesa de Deolane disse nesta sexta (22) que ela é inocente e que "os fatos serão devidamente esclarecidos em momento oportuno". Afirmou ainda ter entrado com um habeas corpus contra a prisão da influenciadora e solicitado a mudança para o regime de prisão domiciliar.

A operação de quinta, conduzida também pelo Ministério Público, mirou ainda Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, familiares dele e outros suspeitos. O advogado de Marcola, Bruno Ferullo, disse em nota nesta sexta que seu cliente é inocente.

A investigação começou em 2019 e obteve duas grandes quebras de sigilo. A primeira delas de 2018 a 2022; a segunda, de 2022 a 2024. Ambas, segundo a polícia, revelam "um oceano de ilícitos de ordem financeira e fiscal, e em especial o branqueamento de capitais".

No caso de Deolane, afirma o relatório da Polícia Civil, a segunda quebra de sigilo mostrou "não apenas a continuidade, mas também uma assustadora intensificação da prática de atos ilícitos".

Enquanto os valores recebidos na pessoa física da influenciadora de 2018 e 2022 ficaram em R$ 7,6 milhões, aqueles obtidos de 2022 a 2024 somaram R$ 43 milhões. Quase metade disso vem de recursos não identificados, segundo a investigação.

O valor é muito maior se consideradas as empresas de Deolane. A Bezerra Publicidade, por exemplo, movimentou R$ 67 milhões no período da segunda quebra de sigilo.

Os indícios de lavagem de dinheiro, segundo a polícia, se dão também pelas diferenças nos valores que Deolane recebeu de fintechs entre um período e outro. No primeiro, a cifra não chegou a R$ 1 milhão; no segundo, foram R$ 30 milhões.

Trata-se, segundo a Polícia Civil, de "uma ruptura abrupta e incompatível com a evolução natural da atividade empresarial".

Algumas das fintechs têm inconsistências documentais e podem representar, ainda de acordo com a investigação, "estruturas de fachada ou controladas por pessoas interpostas para viabilizar a circulação de ativos de origem ainda não esclarecida".

Deolane estava até a manhã desta sexta-feira na Penitenciária Feminina de Santana, zona norte de São Paulo, mas foi transferida para a Penitenciária Feminina de Tupi paulista, no interior do estado.

A defesa da influenciadora, que é feita por seis advogados, diz que as medidas contra ela são desproporcionais.

"Esta banca de defesa seguirá cooperando tecnicamente com a Justiça para demonstrar a licitude de suas atividades na condição de advogada que é, confiando plenamente no discernimento, na razoabilidade e na imparcialidade do Poder Judiciário", diz a nota.

Na quinta, durante audiência de custódia, Deolane disse ter sido presa no exercício de sua função como advogada e que foi incluída na investigação por um valor que recebeu como profissional.

Sua defesa também disse à Justiça que ela tem direito ao regime domiciliar por ter uma filha de 9 anos e argumentou que este é um entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal).

A corte garante o regime domiciliar a mulheres presas preventivamente cujos filhos tenham menos de 12 anos, benefício que pode ser afastado "com fundamento nas peculiaridades do caso concreto".

A decisão que autorizou a operação desta quinta bloqueou R$ 27 milhões em bens e valores em nome de Deolane ou de suas empresas. É o valor mais alto entre todas as medidas semelhantes decretadas pela Justiça.

Familiares dela também são citados na investigação.

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