ANDRÉ AQUINO

Dia da batata frita! E sem nenhum tipo de remorso

Por André Aquino | Chef de cozinha
| Tempo de leitura: 6 min
Pixabay
Dia da batata frita! E sem nenhum tipo de remors
Dia da batata frita! E sem nenhum tipo de remors

Dia da Batata Frita. E eu não tenho nenhum remorso.

Existe uma certa hipocrisia gastronômica que eu me recuso a praticar. É aquela de fingir que batata frita não é boa. Que não é viciante. Que você consegue comer só três. Mentira. Ninguém come só três batatas fritas. E quem diz que come está mentindo para si mesmo com uma habilidade que merece, inclusive, algum respeito.

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O Dia da Batata Frita, celebrado em 30 de maio, é uma data que eu festejo sem culpa e com bastante sal grosso. Porque antes de ser petisco de boteco, antes de acompanhar hambúrguer, antes de ser cone de papel kraft com maionese defumada em cima, a batata frita é uma das mais belas expressões da versatilidade na cozinha. Nenhum outro ingrediente transita com tanta desenvoltura entre o popular e o sofisticado, entre a mesa do boteco e o menu degustação, entre a infância e a fase adulta.

A batata frita é democrática. É memória afetiva em forma sólida, dourada e crocante.

E o Vale do Paraíba, felizmente, sabe fazer isso muito bem.

Cinco endereços para comer batata frita como se deve

Bar do Coronel — São José dos Campos (Centro)
Se existe um templo do boteco joseense, este é o lugar. O Bar do Coronel tem mais de 20 anos de história, fica na Rua Francisco Rafael no centro da cidade, e é daqueles endereços em que você entra para tomar uma cerveja e sai duas horas depois com a alma alegre e o estômago feliz. A batata frita aqui chega como deve chegar: crocante por fora, macia por dentro, sem floreios. É aquele clássico que não precisa se explicar. Mas o que me encanta no Coronel é o contexto: a porção de batata vai muito bem ao lado do pastel de carne seca com catupiry, do bolinho de bacalhau, do torresmo que eles chamam carinhosamente de “barra de cereal”. É um programa completo, com chopp bem tirado e aquela atmosfera de barzão tradicional que a cidade inteira frequenta. Imperdível.

Badarosca Botequim — Jacareí
Com alma e essência jacareiense, o Badarosca é daqueles botecos que fazem você se sentir em casa desde a primeira visita. Comida boa, cerveja gelada e o melhor da cultura de boteco definem bem a proposta da casa. A batata frita aqui entra no time de petiscos honestos, sem pretensão, feita para acompanhar uma boa conversa e um chope que vai e vem. É o tipo de boteco que qualquer cidade precisaria ter: com personalidade local, sem imitar nada de fora, celebrando o que tem de melhor na mesa do interior paulista. Uma descoberta que vale muito a visita.

Fritz Cervejaria Artesanal — São José dos Campos (Jardim Aquarius) e Taubaté
O Fritz é uma instituição. Nascido em Monte Verde, na Serra da Mantiqueira, o projeto do mestre cervejeiro alemão Jörg Franz Schwabe cresceu, virou rede e chegou ao Vale do Paraíba com tudo o que uma boa cervejaria precisa ter: chope artesanal de qualidade, ambiente aconchegante com clima de taberna alemã e uma cozinha que respeita a gordura com alegria. A batata frita aqui vem como coadjuvante de pratos generosos, acompanhando o famoso lanche Fritz com eisben, queijo e vinagrete, ou servida em porções rústicas que chegam quentes e crocantes. A unidade do Jardim Aquarius, em SJC, tem um Bier Garten encantador. A de Taubaté, no centro, é igualmente vibrante. Em qualquer uma delas, peça a régua de degustação de chopes e deixe a batata fazer o seu trabalho.

Rocky Point — Taubaté (Av. Independência)
Ambiente descolado, iluminação intimista, DJ ao fundo e uma porção de batata rústica que faz bonito no começo da noite. O Rocky Point tem aquele jeitão de lugar que leva a experiência a sério sem perder a leveza. A batata chega bem executada, crocante na medida, em porção bem servida que funciona tanto como entrada quanto como acompanhamento para a noite inteira. É a pedida perfeita para quem quer começar com calma, um chope na mão e aquela sensação de que tudo está indo muito bem.

Burguin — São José dos Campos (Jardim das Indústrias)
Para quem quer batata frita na companhia de muita fartura e bom humor. O Burguin é muito conhecido pelo rodízio de mini hambúrgueres, mas o fondue de cheddar que acompanha o pedido transforma qualquer batata num evento à parte. Mergulhar uma batata frita quente no cheddar derretido é uma das experiências mais sinceras que a gastronomia popular pode oferecer. Sem pretensão, sem cerimônia, com muita satisfação. O bairro Jardim das Indústrias tem esse espírito de boteco moderno que eu aprecio muito, e o Burguin representa bem esse jeitão de SJC que come bem e sem frescura.

Agora, 5 dicas para fazer batata frita em casa do jeito certo

Porque nem sempre dá para sair. E porque batata frita feita em casa, com técnica e carinho, pode ser tão boa quanto qualquer uma das opções acima.

Dica 1: A batata palha raiz
Rale batatas cruas no ralo fino, misture um fio de limão para não escurecer, esprema bem em um pano limpo para tirar o excesso de água e frite em óleo quente em pequenas quantidades. Tempere com sal fino ainda quente. Fica crocante, levíssima e perfeita para cobrir arroz com lentilha, ovo frito ou aquele bife simples do dia a dia. A palha caseira tem uma crocância que nenhuma versão industrializada vai conseguir copiar.

Dica 2: A batata frita clássica com dupla fritura
O segredo que a maioria das pessoas não usa é o seguinte: frite duas vezes. Primeiro, com o óleo a 150 graus, por cerca de cinco a seis minutos, sem dourar, só para cozinhar por dentro. Tire, escorra e deixe esfriar. Depois, com o óleo a 180 graus, frite por dois a três minutos até dourar e ficar bem crocante. Tempere com sal grosso na hora que sair do óleo. Essa técnica é o que diferencia a batata frita de boteco daquela de casa que fica mole em dois minutos.

Dica 3: A batata rústica de forno
Para quem quer o prazer sem o óleo. Corte batatas com casca em palitos grossos, envolva em azeite, alecrim fresco, alho amassado, sal e pimenta. Espalhe em uma assadeira sem sobrepor e leve ao forno a 220 graus por cerca de 35 a 40 minutos, virando na metade do tempo. O resultado é uma batata levemente crocante por fora, com aquele perfume de alho e erva que enche a casa de um cheiro irresistível. Sirva com uma maionese de limão siciliano caseira.

Dica 4: A batata frita com tempero especial
Frite no método clássico da dupla fritura e, assim que sair do óleo, tempere com uma mistura de sal, páprica defumada, alho em pó, orégano e um toque de pimenta caiena. Se quiser sofisticar, acrescente parmesão ralado fino sobre as batatas ainda quentes. É uma explosão de sabor que transforma um acompanhamento simples em prato principal sem qualquer cerimônia. Fica ótima com uma cerveja artesanal bem gelada.

Dica 5: A batata frita recheada
Frite batatas em palitos grossos, retire, escorra bem e abra um corte longitudinal em cada uma delas sem separar. Recheie com creme de queijo coalho, bacon crocante e cebolinha, ou com requeijão e carne seca desfiada. Leve ao forno por cinco minutos só para derreter o recheio. É uma batata frita que virou prato, que virou festa, que virou aquela coisa que você faz uma vez num sábado e todo mundo pede para repetir no domingo.

A batata frita é assim: começa simples e não para de surpreender.

Viva o dia 30 de maio. Viva a batata.

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