Há maestros que regem orquestras. Outros regem escolas — ainda que ninguém lhes dê esse nome oficialmente. Luiz Biela de Souza foi um desses.
Não precisava de palco. Bastava uma sala de aula. Ali, diante de jovens perplexos, ele empunhava seu violino e fazia algo raro: organizava um coral.
Sempre de terno, foi o único professor negro que tive na educação básica. Chegava discreto, com seu violino nas mãos e ensinava a beleza que há no esforço de cantar juntos.
Nas suas primeiras aulas, o riso era inevitável. Havia algo de caricatural em sua figura — o gesto solene, o violino, o silêncio que ele tentava instaurar. Para nós, parecia engraçado. Ele não se importava e seguia firme no seu propósito: fazer-nos cantar.
E, aos poucos, ia afinando não apenas o violino, mas também os alunos — e algo acontecia dentro de cada um de nós.
O professor Biela não pretendia formar músicos. Queria, antes, despertar o interesse pela música — e, talvez, algo mais profundo: que ninguém canta sozinho. Que há beleza em depender do outro. Por isso, por onde passava, formava corais.
Foi professor no Instituto de Educação e marcou gerações. Compôs o hino da escola, que os alunos dos anos 1960 ainda sabem de cor: “Ó querido Instituto és sorriso, de alegria e feliz bom humor, onde a arte e a ciência refulgem no mais belo e encantado esplendor (...) do primário ao ginásio e colégio, sairão os gentis bacharéis...” Mas sua verdadeira obra não está nas partituras. Está naquilo que ficou na memória de quem passou por suas mãos. Porque ele nos ensinou mais do que música: ensinou que pode haver harmonia entre pessoas diferentes. Provavelmente nem ele tinha consciência desse papel que desempenhou para seus alunos.
Talvez por isso sua obra não caiba facilmente em registros oficiais. Está, de forma quase invisível, na vida de quem aprendeu a cantar nas suas aulas.
E havia também as histórias: o dia em que foi de carro à escola e voltou a pé, esquecendo o próprio veículo; o paletó exageradamente comprido, que chegava até o joelho. Histórias que ilustravam sua figura.
Há professores que passam. Outros que ficam. O professor Biela ficou. Ficou no canto que ainda ressoa na memória de seus alunos.
Hoje, uma escola municipal leva seu nome. É uma homenagem justa, a quem se dedicou à democratização do ensino de música. Mas, talvez, insuficiente. Porque sua verdadeira permanência não está na placa de uma fachada. Está naquilo que continua vibrando, silenciosamente, dentro de quem um dia aprendeu a cantar numa escola.
E às vezes, sem que eu saiba por quê, ainda me pego cantando os hinos que aprendi em suas aulas — como se, em algum lugar, ele ainda estivesse ali, mãos erguidas, esperando o momento exato de começar.
Francisco Carbonari é ex secretário de Educação
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