Tem gente que entra na nossa vida para ensinar. Outras, para proteger.
E existem aquelas pessoas raras que fazem as duas coisas ao mesmo tempo… enquanto carregam o mundo nas costas sem reclamar.
No meu caso, essa pessoa tem nome: Wilma Faggioni Bachur.
Neste Dia das Mães, muita gente vai publicar fotos bonitas, frases emocionantes e homenagens rápidas nas redes sociais. Tudo isso é válido. Mas existe uma verdade que pouca gente fala: por trás de muitas histórias de superação no Brasil, existe uma mãe que enfrentou filas, burocracias, negativas, medo do futuro e noites sem dormir tentando proteger a própria família.
E talvez seja exatamente aí que o Direito Previdenciário deixe de ser apenas um conjunto de leis e passe a representar algo muito maior: dignidade.
Porque quando falamos em aposentadoria da mulher, salário-maternidade, pensão por morte, segurada especial ou planejamento previdenciário, estamos falando, na verdade, de mães brasileiras tentando sobreviver, cuidar, sustentar, orientar e manter suas famílias de pé.
A minha mãe sempre foi assim.
Ela nasceu em Igarapava, no dia 5 de agosto. Porém, só nasceu lá, pois viveu toda a vida em Franca.
Ela é daquelas pessoas que chegam em um ambiente e conseguem iluminar até conversa de fila de banco. Quem conhece sabe: ela nunca aceitou um “não” como resposta definitiva. Nunca.
E talvez tenha sido exatamente essa insistência (que às vezes parecia teimosia profissional em tempo integral) que mudou completamente a minha vida.
1. O problema da aposentadoria que mudou meu destino
Eu ainda estava na faculdade de Direito quando começou a batalha da aposentadoria do meu pai, Faisal Bachur, conhecido por todos como Nadim.
E quando digo batalha, não é força de expressão.
Tudo o que podia dar errado… deu.
Documentos complicados, burocracia, demora, dificuldades, obstáculos e aquela sensação que muitos segurados do INSS conhecem bem: a impressão de que o sistema foi criado para fazer a pessoa desistir no cansaço.
Talvez meu pai tivesse aceitado o primeiro “não”.
Mas minha mãe não.
Ela tinha uma capacidade impressionante de olhar para um problema gigantesco e dizer algo como: “Vamos resolver.”
Sem drama.
Sem discurso motivacional de internet.
Sem coach.
Só coragem mesmo.
Foi naquela época que comecei a estudar Direito Previdenciário tentando ajudar meu pai. E quanto mais eu estudava, mais eu percebia uma coisa assustadora: milhares de pessoas estavam perdendo benefícios previdenciários simplesmente porque não conheciam seus direitos.
Foi ali que nasceu não apenas o advogado previdenciarista.
Nasceu também o professor.
O escritor.
O comunicador.
Tudo começou por causa dela.
Enquanto muita gente ainda enxergava o Direito Previdenciário como uma área burocrática e sem glamour, eu já conseguia enxergar outra coisa: histórias humanas.
Porque atrás de cada aposentadoria existe uma vida inteira de trabalho.
Atrás de cada pensão por morte existe uma família tentando sobreviver emocionalmente e financeiramente.
Atrás de cada benefício negado existe alguém desesperado sem saber o que fazer.
E minha mãe entendia isso antes mesmo de eu entender.
2. A mulher que abriu portas sem perceber
Minha mãe era formada na área da educação. Professora.
Mas acabou trabalhando muitos anos no comércio.
E mesmo sem atuar formalmente na advocacia, ela tinha uma habilidade rara: enxergar potencial nas pessoas antes delas mesmas enxergarem.
Foi ela quem insistiu para que eu escrevesse.
E insistiu mesmo.
Na época, ela procurava redatores, falava com jornais, incentivava, acreditava, empurrava.
Resultado?
Comecei a escrever semanalmente para veículos de comunicação como o Jornal Comércio da Franca, Portal GCN e outros meios de comunicação desde 2009.
Curiosamente, muita gente imagina que carreiras jurídicas nascem em grandes escritórios, congressos sofisticados ou planejamentos mirabolantes.
No meu caso, nasceu dentro de casa.
Com uma mãe dizendo: “Vai dar certo.”
E o mais curioso é que geralmente dava.
3. Quando chegou a vez dela se aposentar…
Depois de toda a luta da aposentadoria do meu pai, eu já tinha mais experiência.
Já estava ensinando outros advogados a trabalharem com Direito Previdenciário.
Já tinha escrito meu primeiro livro: Teoria e Prática do Direito Previdenciário — obra que considero uma homenagem direta ao meu pai e àquela batalha familiar.
Achei, ingenuamente, que a aposentadoria da minha mãe seria mais tranquila.
Achei errado.
Porque o INSS, às vezes, parece ter um talento especial para transformar procedimentos simples em testes emocionais avançados.
Fizemos o pedido.
Esperamos.
Esperamos mais um pouco.
E o processo simplesmente não andava.
Foi então que tomei uma decisão: impetrar um mandado de segurança.
Hoje isso pode parecer relativamente comum na advocacia previdenciária. Mas estamos falando de 2008. Naquela época, provavelmente foi um dos primeiros mandados de segurança previdenciários que chegaram naquela agência do INSS em Franca.
E então aconteceu algo que jamais esquecerei.
O juiz concedeu liminar.
Determinou que o INSS decidisse rapidamente o pedido, sob pena de multa diária, possível responsabilização administrativa e até consequências por descumprimento de ordem judicial.
Detalhe importante:
Era sexta-feira de Carnaval.
Sim.
Justamente aquele período mágico do calendário brasileiro em que tudo parece entrar em câmera lenta.
Quando a liminar chegou à agência do INSS, um servidor ligou para minha mãe completamente assustado.
“Dona Wilma, não precisava disso… estamos resolvendo aqui…”
Ela ouviu tudo calmamente.
E respondeu algo que resume perfeitamente quem ela sempre foi:
“Hoje eu não posso ir, porque estou fazendo almoço agora.”
Enquanto o INSS estava em estado de tensão institucional máxima, minha mãe estava preocupada com o almoço.
Isso talvez explique muita coisa sobre a força silenciosa das mães brasileiras.
Depois de muito insistirem, ela foi até a agência (depois do almoço).
E naquele mesmo dia, finalmente, a aposentadoria foi concedida.
Sem gritos.
Sem vingança.
Sem humilhação.
Apenas justiça.
4. A aposentadoria dela acabou ajudando milhares de pessoas
A história não terminou ali.
Na verdade, estava apenas começando.
A experiência daquele mandado de segurança acabou originando outro livro: “Como conseguir sua aposentadoria e outros benefícios do INSS mais rapidamente através do mandado de segurança”. (Ed. Lemos e Cruz)
Escrevi a obra em homenagem à minha mãe.
Mas ela acabou servindo também para ensinar inúmeros advogados previdenciaristas a destravarem benefícios de pessoas que sofriam com demora excessiva do INSS.
E aqui existe uma ironia bonita da vida.
Minha mãe nunca imaginou que a luta dela pela própria aposentadoria ajudaria tantas outras famílias brasileiras.
Talvez ela nunca tenha pensado nisso dessa forma.
Mas ajudou. Muito.
5. O Direito Previdenciário fala sobre mães muito mais do que imaginamos
Quando se fala em Direito Previdenciário, muita gente pensa apenas em cálculos, regras e burocracia.
Mas quem trabalha diariamente nessa área sabe que não é assim.
O Direito Previdenciário fala sobre mães que interrompem carreiras para cuidar dos filhos.
Fala sobre mulheres que enfrentam dupla jornada durante décadas.
Fala sobre seguradas especiais que trabalharam a vida inteira no campo sem reconhecimento adequado.
Fala sobre salário-maternidade.
Sobre aposentadoria da mulher.
Sobre pensão por morte.
Sobre proteção familiar.
Sobre dignidade.
E talvez por isso eu tenha me conectado tão profundamente com essa área.
Porque tudo começou observando minha mãe lutar.
6. O legado que permanece
Minha mãe foi casada com meu pai, Nadim, até ficar viúva em 2011.
Mesmo diante da dor, nunca perdeu a capacidade de transmitir esperança.
Ela é mãe de três filhos: eu, Tiago; minha irmã Tânia; e meu irmão Túlio.
E hoje também é avó do Pedro Gabriel, meu filho, e do Samir, filho da Tânia.
Mas sinceramente?
Os laços dela ultrapassam a própria família.
Porque, de certa forma, milhares de pessoas foram impactadas pela coragem dela.
Toda vez que um advogado usa conhecimento previdenciário para acelerar uma aposentadoria injustamente parada…
Toda vez que uma família consegue uma pensão por morte…
Toda vez que alguém entende a importância do planejamento previdenciário…
Existe um pedacinho daquela história ali.
Da mulher que não aceitava desistir.
Da mulher que insistia.
Da mulher que acreditava.
7. Talvez essa seja a maior lição de todas
Com o tempo, eu entendi uma coisa.
Minha mãe não mudou apenas a minha trajetória profissional.
Ela mudou minha forma de enxergar pessoas.
Porque o Direito Previdenciário não é sobre processos.
É sobre vidas.
Sobre medo.
Sobre esperança.
Sobre famílias inteiras tentando sobreviver às dificuldades sem perder a dignidade.
E talvez seja por isso que, neste Dia das Mães, eu não queira apenas homenagear minha mãe.
Quero agradecer.
Porque se hoje eu ajudo pessoas a lutarem pelos seus direitos, foi porque uma mulher nascida em Igarapava decidiu, muitos anos atrás, que desistir nunca seria uma opção.
E sinceramente?
Ainda bem que ela insistiu.
Porque talvez seja exatamente isso que as mães fazem todos os dias sem perceber:
transformam o mundo silenciosamente.
Algumas sustentam famílias.
Outras inspiram gerações.
Minha mãe conseguiu fazer as duas coisas.
Neste Dia das Mães, minha homenagem à minha mãe, Wilma… e a todas as mães que, mesmo sem aplausos, seguem sustentando o mundo com coragem, amor e uma força que nenhuma dificuldade consegue aposentar.
Tiago Faggioni Bachur é advogado e Professor especialista em Direito Previdenciário. Autor de obras jurídicas
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