CRÔNICA

Onde o tempo vai para não morrer

Por Leonardo de Oliveira | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 4 min

Em dias menos produtivos, quase sempre me encontro à deriva de mim mesmo. Procuro qualquer coisa que me devolva ao eixo - aquele lugar silencioso onde a criação respira sem esforço e a inspiração parece existir antes mesmo de ser chamada. Em tempos como estes, sobreviver também exige pequenos rituais de reencontro.

Volta e meia, pensamentos intrusivos aparecem oferecendo velhas soluções, atalhos já conhecidos, promessas que um dia talvez tenham feito sentido. Mas há algum tempo deixei de me interessar por remendos rápidos para vazios antigos. Ainda assim, aqui e acolá, surgem oportunidades de experimentar o novo, descobrir algo que eu nunca havia sido antes. E é curioso perceber como, mesmo diante da novidade, continuo me perguntando até onde vai essa necessidade humana de buscar algo suplementar - alguma peça invisível que imaginamos faltar dentro de nós.

Talvez por isso eu sempre acabe voltando ao sebo.

Existe ali uma espécie de suspensão do tempo. Não sei dizer exatamente o que mais me atrai naquele ambiente. Os discos, já tocados centenas de vezes por mãos desconhecidas, carregam um desgaste quase humano. Os livros, muitos deles com dedicatórias esquecidas entre as páginas, revelam amores que existiram inteiros antes mesmo do meu nascimento. Às vezes encontro nomes, datas, declarações apressadas escritas à caneta azul — pequenos vestígios de pessoas que jamais conhecerei, mas que de alguma forma continuam vivas naquele papel amarelado.

E há também o cheiro. O cheiro de páginas antigas, de madeira envelhecida, de passado guardado em silêncio. Entrar num sebo é aceitar o convite para mundos cuja existência você sequer suspeitava alguns minutos antes. Cada lombada parece esconder uma possibilidade de vida.

Encapsulado naquele universo de passado corrente, existe um apreço profundo pelo que já foi. Não é difícil perceber o melancolismo que acompanha meu temperamento; as pessoas que passaram pela minha vida aprenderam cedo que isso dificilmente mudaria. Mas é justamente ali, entre páginas gastas pelo tempo e objetos esquecidos por outros, que encontro uma estranha beleza na correria do mundo.

Porque certa tristeza também ilumina. Certas saudades organizam a alma.

Creio que, ademais, encontramos no passado - em meio às horas silenciosas de dedicação de outras pessoas - uma maneira de compreender melhor aquilo que somos. Minha mente sempre se embaralha quando penso que, até chegar ali, repousando numa prateleira empoeirada à espera de alguém, aquela obra atravessou incontáveis mãos, casas, mudanças e despedidas. Houve alguém, muito antes de mim, que decidiu dedicar parte da própria vida a construir algo que, depois de pronto, já não lhe pertenceria por completo. E houve também outro alguém que, pelas exigências da vida ou simplesmente pela passagem inevitável do tempo, precisou abrir mão daquilo que talvez o tivesse acompanhado desde cedo. É assim que as coisas chegam até nós: carregando histórias e estórias, marcas invisíveis de vidas que nunca conheceremos inteiramente.

Raramente procuro informações sobre os livros que descubro nas prateleiras de um sebo. Existe algo de sagrado no desconhecimento. Gosto de pensar que a intuição ainda merece algum espaço num mundo em que tudo parece precisar de avaliação prévia, resumo crítico ou nota de aprovação. Às vezes, escolho um livro apenas pela capa desgastada, pelo nome curioso ou pela sensação inexplicável de que ele me encontrou antes que eu o encontrasse. E, se ao final ele não me oferecer aquilo que eu esperava, ainda assim não considero tempo perdido. Sempre fica alguma coisa: uma referência, um arquétipo, uma frase sublinhada décadas atrás, uma faísca tímida capaz de incendiar a criatividade nos dias mais cinzentos.

Com discos, no entanto, a sensação é diferente. Talvez porque a música tenha o estranho poder de conservar emoções em estado bruto. Certa vez, acompanhando um amigo, encontramos entre achados esquecidos uma edição de A Revolta dos Dândis, assinada em caneta esferográfica por Humberto Gessinger. E eu me lembro de pensar: olha quanta vida existe nisso. Quantas mãos seguraram aquele encarte, quantas tardes aquele disco embalou, quantas versões de alguém existiram enquanto aquelas músicas tocavam ao fundo. Um objeto assim deixa de ser apenas objeto e vira testemunha.

Não existe isso nas compras online. Não existe algoritmo capaz de reproduzir o acaso bonito de encontrar algo que não procurávamos. Quando tratamos a arte como qualquer outro produto de prateleira, esquecemos que, por trás de toda lógica de mercado, ainda existe uma força profundamente humana tentando transportar algum tipo de inspiração metafísica para os quatro cantos deste mundo redondo. Existe alguém escrevendo de madrugada, gravando entre inseguranças, pintando enquanto a vida desmorona, apenas para que outro alguém - anos depois - encontre conforto, identificação ou beleza.

Talvez eu me perca tentando oferecer ao leitor algo mais suplementar do que este texto realmente é. E tudo bem. Não escrevo para parecer superior por enxergar as coisas dessa forma, muito menos para convencer alguém a abandonar a praticidade dos tempos modernos. Faço apenas um convite. Um convite para desacelerar por algumas horas, entrar num lugar esquecido entre ruas movimentadas e permitir-se tocar por algo que vai além do costumeiro.

Porque, às vezes, tudo o que a gente precisa para se reencontrar é segurar nas mãos alguma coisa que já sobreviveu ao tempo.

Leonardo de Oliveira é músico, publicitário, repórter e escritor

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