O vereador Leandro o Patriota (PL) é acusado por profissionais de saúde de provocar tumulto, desrespeitar funcionários e tentar invadir uma área restrita do Pronto-socorro Municipal "Álvaro Azzuz", de Franca, na tarde deste sábado, 25.
O caso ocorreu enquanto o parlamentar tentava visitar uma paciente internada e, segundo a coordenação da unidade, comprometeu o atendimento por cerca de três horas. O vereador nega todas as acusações e afirma que apenas exercia sua função de fiscalização.
De acordo com a técnica em enfermagem Jaqueline Juvêncio, o vereador chegou ao local pedindo para visitar uma paciente, comportamento que, segundo ela, já seria recorrente. “Ele costuma conversar com pacientes hospitalizados, oferecendo ajuda para dor e prometendo vaga na Santa Casa”, relatou.
Ainda segundo Jaqueline, a equipe solicitou que o parlamentar aguardasse autorização da coordenação antes de entrar, procedimento padrão da unidade. No entanto, ele teria reagido de forma hostil. “Ele pediu para eu calar a boca e fazer meu serviço”, afirmou. A profissional disse ainda que o vereador foi “arrogante” e desrespeitoso com toda a equipe, além de tentar utilizar o cargo para pressionar os funcionários.
A enfermeira Mariana, responsável pelo plantão no momento, confirmou que a entrada do vereador só poderia ocorrer com acompanhamento de um profissional, o que não era possível naquele momento devido à equipe reduzida. Segundo ela, havia apenas duas enfermeiras de plantão, sendo que uma estava em horário de almoço e a outra atendia uma urgência.
“Eu não vou parar o atendimento ao paciente para acompanhar vereador”, disse Mariana. Ela afirmou que o parlamentar não aceitou aguardar, entrou na unidade “batendo o pé” e tentou acessar uma área restrita, destinada a pacientes em observação e casos mais graves.
A enfermeira relatou ainda que o vereador foi “extremamente grosseiro”, apontou o dedo em sua direção e insistiu que, por ser vereador, poderia entrar no local. “Ele disse que eu não poderia impedir”, contou.
A situação gerou tensão entre pacientes e acompanhantes. Segundo Mariana, uma acompanhante chegou a acionar a polícia ao presenciar a discussão. A própria enfermeira afirmou que não registrou boletim de ocorrência, mas não soube informar se outros funcionários tomaram essa providência.
Apesar do conflito, Mariana disse que, após a situação se acalmar, conseguiu acompanhar o vereador em uma vistoria pelas áreas permitidas do pronto-socorro. “Eu parei o atendimento, pedi para outra enfermeira assumir e acompanhei ele. Passamos pelos consultórios, balcão e áreas de livre acesso. O que não foi permitido foi conversar com pacientes no leito”, explicou.
A coordenadora do pronto-socorro, confirmou que o vereador tentou acessar uma área restrita da unidade, o que é proibido por normas internas e também por determinação judicial. Segundo ela, o local abriga pacientes em estado mais grave, com necessidade de privacidade e controle de acesso.
“Ele tentou invadir a área restrita e foi impedido por duas enfermeiras. No vídeo, é possível ver ele no corredor sendo contido”, afirmou.
Ela ainda relatou que o vereador discutiu com funcionários, filmou o ambiente, apontou o dedo para profissionais e mandou uma enfermeira “calar a boca”. Segundo a coordenadora, ele também teria coagido a equipe e instigado pacientes contra os trabalhadores.
“Foi um alvoroço. Ele parou o atendimento por cerca de três horas, porque a equipe não conseguiu trabalhar”, disse.
A coordenadora também afirmou que situações envolvendo o parlamentar não são inéditas. “Ele já veio outras vezes e sempre causa tumulto. Mas dessa vez foi além, porque tentou invadir uma área proibida”, destacou.
Versão do vereador
O vereador Leandro o Patriota negou todas as acusações feitas pelos profissionais de saúde. Em entrevista ao portal GCN/Sampi, classificou os relatos como “mentira” e afirmou que possui testemunhas que comprovam sua versão.
Segundo o parlamentar, ele foi ao pronto-socorro após ser chamado por uma munícipe cuja familiar estaria internada há mais de cinco dias aguardando vaga. Ele afirma que realiza esse tipo de acompanhamento desde o início do mandato, conversando com familiares e equipe para entender a classificação de prioridade da vaga.
“Eu sempre faço esse trabalho. Hoje não sei por que houve esse problema”, disse.
Leandro afirmou que aguardou atendimento por cerca de 30 minutos, mas decidiu entrar para cobrar uma resposta da equipe. Segundo ele, não houve invasão nem desrespeito. “Eu não gritei com ninguém e não mandei ninguém calar a boca. Isso é mentira”, declarou.
O vereador também disse que chamou a polícia para garantir o registro da sua versão dos fatos, temendo que apenas a versão dos funcionários fosse considerada. No entanto, ele afirmou que não chegou a registrar boletim de ocorrência.
Ainda de acordo com o parlamentar, após a intervenção policial houve entendimento sobre suas prerrogativas, e ele conseguiu realizar uma vistoria nas áreas permitidas da unidade, sem acessar a ala restrita.
Ele atribuiu o episódio a um possível mal-entendido e ao ambiente de estresse do pronto-socorro, além de citar uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que restringe a atuação de parlamentares em áreas internas de unidades de saúde, especialmente no que se refere a filmagens.
Investigação no Conselho de Ética
O episódio ocorre em meio a uma investigação já em andamento contra o parlamentar no Conselho de Ética da Câmara Municipal de Franca. O vereador é alvo de apuração justamente por condutas relacionadas a abordagens em unidades de saúde e denúncias de desrespeito a profissionais durante fiscalizações.
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