CRÍTICA

'Michael' encanta no visual, mas decepciona no conteúdo

Por Leonardo de Oliveira | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 6 min

Por diversas vezes, ao assistir a filmes e séries que adaptam obras já conhecidas, fica a sensação de que algo está faltando. E não seria exagero dizer que, na maioria desses casos, são as memórias afetivas que nos impedem de enxergar a obra pelo que ela é. Existe sempre aquele primeiro impacto - o momento em que fomos tocados de verdade, como a boa arte costuma fazer - e que acaba moldando para sempre a forma como revisitamos aquela história. É uma lembrança emocional que não se replica com facilidade.

De certa forma, a minha sensação com Michael passa exatamente por isso. O filme começa na infância de Michael Jackson - um caminho inevitável, já que ali estão as raízes de tudo o que ele viria a se tornar. E também de tudo o que talvez nunca tenha conseguido deixar para trás. Os abusos cometidos por Joe Jackson, aqui potencializados pela atuação segura de Colman Domingo, atravessam a narrativa quase como um eco constante. Em alguns momentos, o filme se permite aprofundar um pouco mais esse trauma, mas, no geral, o tema é tratado com uma cautela que acaba esvaziando parte de seu peso - compreensível, talvez, diante de um longa que claramente mira o fã.

E esse é um ponto importante: Michael parece ter sido feito para quem já conhece tudo. Para quem reconhece as eras do artista pelo contorno do corpo, para quem repete seus vocais quase por instinto. Só que, ao fazer isso, o filme assume que não precisa construir nada - apenas revisitar. E aí mora um problema.

Como se fosse moldado para uma audiência que já não tem paciência para narrativas mais longas, o longa corre pela trajetória de Michael como se estivesse sempre atrasado. Há uma pressa evidente em mostrar o palco, em reforçar a ideia de que ali ele era livre. Mas livre de quê? Essa pergunta paira, sem resposta.

O filme toca, de maneira quase protocolar, em questões fundamentais. O vitiligo aparece rapidamente, como se fosse apenas mais um detalhe - quando, na verdade, foi um dos grandes fardos que Michael carregou por décadas. O mesmo Michael que, até a entrevista com Oprah Winfrey , em fevereiro de 1993, foi alvo constante de ataques e acusações sobre sua identidade. O mesmo artista que precisou lidar com a ridicularização pública até mesmo após sua morte, quando a autópsia confirmou a doença.

As cirurgias plásticas, talvez o aspecto mais emblemático de sua imagem pública, até recebem algum destaque, mas novamente de forma superficial. Falta contexto, falta consequência. As ofensas que ajudaram a moldar a relação de Michael com a própria aparência são tratadas de maneira tão apressada que perdem força. Não há espaço para entender o impacto do lúpus, das crises severas de acne na adolescência, da dificuldade em se reconhecer no espelho. Esses elementos existem, mas apenas para quem já chega ao filme sabendo disso. A obra, por si só, não se propõe a contar essa história.

O longa também passa rapidamente pelo acidente de janeiro de 1984, quando Michael sofreu queimaduras graves durante as gravações de um comercial. Um episódio determinante, não apenas pelo trauma físico, mas pelo início do uso de analgésicos que marcaria sua vida adulta. O filme toca no assunto, mas não mergulha. Não conecta esse momento à dependência que se agravaria ao longo dos anos.

E é curioso como o filme escolhe deixar tudo isso em segundo plano. Estamos falando do mesmo Michael que rompeu barreiras raciais na MTV, que transformou Beat It em um símbolo cultural ao reunir gangues rivais em Los Angeles, que redefiniu o formato de videoclipe ao trabalhar com John Landis em Thriller. Estamos falando de alguém que ajudou a moldar o pop como ele existe hoje.

Mas Michael prefere ser uma biografia incompleta. Quer que você cante junto, que reviva os hits, que se emocione com o que já conhece - mas demonstra pouco interesse em investigar o que realmente fez daquele artista uma figura tão singular. Falta mergulho. Falta risco. Falta profundidade. Michael era mais. E merecia mais.

Isso não significa que não haja méritos. Antoine Fuqua demonstra competência ao recriar a iconografia das diferentes fases do artista, e o trabalho de Jaafar Jackson, sobrinho do astro, impressiona. Em alguns momentos, a sensação é quase desconcertante, como se o próprio Michael estivesse ali novamente. Não se trata de uma simples imitação. Há um cuidado evidente em capturar gestos, posturas, pequenas nuances que fazem toda a diferença. Jaafar não copia: ele incorpora.

O jovem Juliano Valdi, responsável por interpretar Michael na infância, também merece destaque. Existe ali uma compreensão genuína do carisma que transformou aquele garoto em um fenômeno ainda nos tempos de Jackson 5. Mesmo para quem não se conecta com o filme como um todo, é difícil não reconhecer que acertar nessas duas frentes já é, por si só, um grande triunfo.

Infelizmente, é aí que os elogios começam a rarear. O longa é apressado, fragmentado, e em muitos momentos parece ter sido reduzido de forma agressiva na sala de edição. As cenas não respiram. Os personagens entram e saem sem deixar marcas. Há uma sensação constante de que algo foi interrompido antes de chegar ao seu ponto ideal.

A narrativa salta entre anos e décadas com uma naturalidade que beira o descuido, como se partisse do princípio de que o espectador já sabe exatamente o que está acontecendo em cada período. Em vez de construir, o filme pressupõe. Em vez de explorar, resume.

Quincy Jones é talvez o exemplo mais gritante. Sua presença é mínima, quase simbólica, o que não faz jus à importância que teve na construção de álbuns como Off the Wall, Thriller e Bad. Reduzi-lo a um coadjuvante qualquer é ignorar uma das parcerias mais importantes da história da música.

O mesmo acontece com Bruce Swedien e Frank Dileo, que surgem como meras notas de rodapé. Em contrapartida, John Branca ganha mais espaço, em uma interpretação correta, porém pouco inspirada, de Miles Teller. Nada ali compromete, mas também nada se destaca.

Katherine Jackson aparece dentro de um recorte bastante limitado - a figura da mãe protetora, sem grandes variações. Nia Long faz o que pode com o material que tem, mas claramente há lacunas. Há indícios de que sua participação seria maior, o que reforça a impressão de que o filme sofreu cortes significativos.

Em uma conversa com amigos, todos fãs de longa data, surgiu uma pergunta inevitável: se Michael estivesse vivo, ele gostaria de se ver retratado dessa forma?

A resposta, honestamente, não é simples. Porque, de um lado, o filme oferece ao artista aquilo que ele sempre teve: o palco, o brilho, a consagração como um dos maiores nomes da história. Mas, do outro, nega ao homem o espaço necessário para existir.

O rei do pop está ali. Mas Michael, o ser humano, complexo, contraditório, marcado por dores que ajudaram a moldar sua arte, quase não aparece. E isso faz muita, mas muita falta.

Michael está disponível exclusivamente nos cinemas.

Nota: 7,5/10

Leonardo de Oliveira é músico, publicitário, repórter e escritor

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