CRÍTICA

Man on the Run revisita dores e reinvenção de Paul McCartney

Por Leonardo de Oliveira | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 7 min

Sair das amarras de onde viemos é, quase sempre, a travessia mais difícil de nossas vidas. É no confronto — muitas vezes involuntário — com as dores e rupturas que a vida impõe que o caráter se molda e se transforma. É sob essa perspectiva que se constrói o mais recente documentário sobre Paul McCartney.

Ainda jovem, em Liverpool, McCartney encontrou, aos 14 anos, em um festival de bairro, aquele que se tornaria não apenas seu principal parceiro artístico, mas também uma das relações mais profundas de sua vida: John Lennon, então líder dos Quarrymen.

Juntos, Lennon e McCartney formariam uma das parcerias mais importantes da história da música. A dupla foi responsável por uma sequência impressionante de sucessos, álbuns marcantes dos anos 1960 e uma estética que ajudou a definir o próprio imaginário do rock. Até hoje, qualquer debate sobre a contribuição individual de cada um ecoa na imagem icônica dos óculos de Lennon e no olhar atento de Paul.

O auge criativo, no entanto, não impediu o desgaste. Os The Beatles caminharam para uma separação inevitável, formalizada em setembro de 1969. Foi quando Lennon, já distante do grupo e profundamente envolvido com Yoko Ono, comunicou a decisão em uma reunião ao lado de Paul e Ringo Starr, nos escritórios da Apple Records, em Savile Row.

George Harrison não estava presente naquele momento — embora tenha, meses antes, demonstrado sua própria insatisfação com os rumos da banda. Em janeiro daquele ano, Harrison chegou a se afastar temporariamente, incomodado com a dinâmica interna e com o papel de liderança que McCartney assumira após a morte do empresário Brian Epstein.

Como em toda grande separação, alguém precisava carregar a culpa. No imaginário popular, rupturas pedem vilões. Liam Gallagher foi um deles no fim do Oasis, em 2009. Antes, Michael Jackson foi visto como o irmão que abandonou o grupo após a Victory Tour.

Com os Beatles, o rótulo recaiu sobre McCartney. Mesmo com John Lennon sendo o primeiro a anunciar a saída, foi Paul quem herdou a pecha de antagonista ao processar os colegas para romper definitivamente com a estrutura da banda e se desvincular da gestão de Alan Klein.

No documentário, ele reconhece o peso da decisão. Não queria enfrentar os “irmãos” na Justiça, mas via ali sua única saída.

É desse ponto que Man on the Run se desenrola. Um divórcio quádruplo — artístico, pessoal e simbólico.

Isolado na Escócia, barbudo e à deriva, McCartney encara o vazio deixado pelo fim dos Beatles. A imprensa britânica o pinta como o responsável pela implosão da banda. Enquanto isso, Lennon transformava sua vida em protesto ao lado de Yoko Ono, nos célebres “bed-ins” contra a Guerra do Vietnã.

McCartney, em contraste, se recolhia. Bebia mais. Falava menos. Até que precisou de um puxão de volta à realidade.

Veio de Linda McCartney.

Foi ela quem o fez olhar para si de novo, acreditar que não havia sido acaso, que havia algo ali além dos Beatles que ainda precisava existir. Sempre ela. A “Lovely Linda”, a “Long Haired Lady”, entre tantas outras formas que Paul encontrou para traduzir, em música, o amor que sentia.

Fotógrafa talentosa, Linda já havia capturado nomes como Jim Morrison e Jimi Hendrix, além de registrar com sensibilidade rara o cotidiano dos próprios Beatles. Suas imagens eram quase respirações congeladas no tempo — o retrato íntimo de uma geração que transformava arte em identidade.

Ironicamente, seria ela também a moldura da reconstrução de Paul.

Já casados, vivendo uma rotina distante dos holofotes e à espera de Mary McCartney — “grávidos”, como ele próprio descreve —, McCartney abraça uma vida mais simples. Ao lado de Linda, e de Heather McCartney, que ele adotara, encontra um novo eixo.

E é dessa simplicidade que nasce sua reinvenção.

Se há quem diga que McCartney flertou com o heavy metal em 1968, ao compor “Helter Skelter” no The White Album, é nesse momento que ele dá um passo ainda mais silencioso — talvez ainda mais influente.

Sozinho, reunindo fragmentos do que restava, ideias, instrumentos, sentimentos, Paul grava praticamente tudo por conta própria. Com o apoio da família, transforma isolamento em criação e lança, em 1970, McCartney.

Um disco cru, caseiro, despretensioso e, justamente por isso, revolucionário.

Sem saber, McCartney não apenas se reencontrava. Ajudava a abrir caminho para o que, anos depois, seria reconhecido como a essência do indie: liberdade criativa, intimidade sonora e a coragem de existir sem amarras.

O documentário percorre toda a década de 1970, mas encontra sua espinha dorsal em duas relações que definem McCartney naquele período: o amor que o sustentava e o conflito que o consumia.

De um lado, Linda McCartney. Do outro, John Lennon.

Se Linda representava reconstrução, Lennon ainda era ruptura. A tensão entre os dois extrapolou o campo pessoal e ganhou forma pública e sonora. Em “How Do You Sleep?”, faixa do álbum Imagine, Lennon direciona ataques diretos ao antigo parceiro. Anos depois, ele reduziria o episódio a uma “briga de irmãos”. Pode até ser. Mas algumas palavras não voltam atrás.

McCartney também não foi passivo. Em “Too Many People”, faixa de abertura do álbum Ram, há alfinetadas claras. A diferença está na escala: Paul lançou uma pedra; John respondeu com um míssil.

É nesse ponto que o documentário acerta ao não romantizar completamente a história. Há carinho, há saudade, mas há também feridas abertas e necessárias para entender quem McCartney se tornou fora da sombra dos The Beatles.

O que mais impressiona, no entanto, é a perspectiva do tempo.

Em meio a tudo isso — fim da maior banda do mundo, batalha judicial, reconstrução artística, ataques públicos e a tentativa de manter uma vida familiar — McCartney tinha apenas 31 anos. Dezessete deles dedicados à música.

Por muito tempo tratado como “o outro gênio” da dupla, Paul surge no documentário sob uma nova lente. Não apenas como compositor brilhante, mas como alguém que compreendeu cedo o que a música podia ser e, talvez mais importante, o que ele podia ser nela.

Os registros íntimos, muitos deles captados pela própria Linda, ajudam a desmontar a caricatura. Ali não está apenas o autor de “Silly Love Songs”, “Live And Let Die”, “Band On The Run”, “Another Day” ou o contraponto de Lennon. Está um homem em reconstrução.

Pai presente. Marido apaixonado. Amigo atento. Músico virtuoso.

E, acima de tudo, um artista em busca de identidade.

Porque, no fim, a pergunta que atravessa Man on the Run não é sobre quem foi mais importante nos Beatles. É outra, bem mais silenciosa e mais difícil: quem é Paul McCartney quando o mundo para de chamá-lo de Beatle?

Morgan Neville conduz Man on the Run com inteligência ao apostar em uma narrativa que equilibra intimidade e ritmo. O uso de fotografias estilizadas, combinado a movimentos suaves de câmera por regiões como Kintyre — onde fica a fazenda de McCartney — cria uma atmosfera contemplativa que dialoga diretamente com o estado emocional do artista naquele período.

A montagem é ágil, mas nunca apressada. Há espaço para respirar, para ouvir, para sentir. Embalado por faixas históricas e pela voz já marcada pelo tempo de McCartney, o documentário transporta o espectador de volta à estética britânica das décadas de 1960 e 1970 com uma naturalidade impressionante. O resultado é uma sensação rara de proximidade: como se o fim dos Beatles, o amor com Linda e a trajetória dos Wings tivessem acontecido há poucos anos.

Mas o recorte escolhido também deixa lacunas. A narrativa se encerra pouco após a morte de John Lennon, sem avançar sobre perdas fundamentais como a de Linda e a de George Harrison — eventos que ajudaram a moldar o McCartney contemporâneo.

Entre os depoimentos, Sean Ono Lennon se destaca pelo olhar sensível sobre a relação entre o pai e McCartney. Já Mike McCartney, irmão do músico, surge de forma mais protocolar, sem acrescentar novas camadas relevantes.

Ainda assim, o documentário encontra força ao tocar diretamente nas feridas. E é difícil não se emocionar com o relato de Stella McCartney sobre o momento em que o pai recebe a notícia da morte de Lennon. Ali, o mito desaparece. Fica apenas o homem.

Como sua própria estrutura sugere, Man on the Run é um recorte e não uma biografia definitiva. E talvez resida aí sua maior virtude.

A vida de Paul McCartney é grande demais para caber inteira em uma única narrativa. Ainda assim, o filme não soa incompleto.

Não é uma obra feita apenas para explicar um artista que atravessou décadas de transformação, mas para reafirmar algo que, injustamente, por vezes, foi colocado em dúvida: McCartney nunca deixou de ser central na história que ajudou a construir.

Se antes era visto como metade de uma genialidade, aqui ele se revela inteiro. Man on the Run não tenta encerrar a discussão. Ele só a reposiciona. Dá novas cores ao quadro que já conhecíamos desde “Please, Please Me”.

E, ao fazer isso, lembra que alguns gênios não precisam de conclusão — apenas de novos olhares.

O documentário está disponível no Prime Video.

Nota: 9,2/10

Leonardo de Oliveira é músico, publicitário, repórter e escritor

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