Se você convive com meninos ou meninas em plena adolescência, já terá chegado à conclusão de que esta é fase difícil e, num movimento natural de volta ao passado, se perguntado se foi assim no seu tempo. É possível que se lembre das próprias dificuldades; e provavelmente argumentará que agora essa travessia para a vida adulta se tornou mais complicada por conta das incertezas do nosso tempo tumultuado e, claro, das novas tecnologias, com destaque para o celular.
De fato, o uso do aparelho transformou radicalmente a experiência da adolescência, funcionando hoje como uma extensão da própria identidade. Se o aparelho democratizou o acesso à informação e facilitou a conexão com grupos de interesse, também estabeleceu uma dependência nociva. O pacote das ruindades digitais é amplo. A constância das notificações fragmenta a atenção, dificultando o foco nos estudos e o aprofundamento intelectual. O sono é frequentemente sacrificado em favor da rolagem infinita de conteúdos, impactando a saúde física e mental. E a comunicação, antes baseada no contato físico e verbal, tornou-se mediada por algoritmos, o que pode comprometer o desenvolvimento de habilidades sociais complexas. Concordarei com você, leitor, leitora, mantendo a ressalva de que não é apenas o mundo virtual o maior vilão. Como se diz popularmente sobre situações que não se deixam traduzir na superfície e pedem olhares mais profundos e escuta mais atenta, ‘o buraco é mais embaixo’.
Sobre o assunto venho aprendendo com adolescentes cujo comportamento observo, com psicólogos com quem converso, com artistas que têm levado o tema para telas e palcos, com escritores especializados que leio. Dentre estes, Daniel Siegel, psiquiatra norte-americano, neurocientista, autor de “Cérebro Adolescente”. Nesse livro ele explica que o cérebro dos adolescentes é, em relação ao dos adultos, muito mais guiado pela busca de recompensa. Todos sabem que experiências novas e intensas liberam mais dopamina e conferem a indescritível sensação de estar vivo. O problema é que a vida não oferece esse tipo de experiência 24 horas por dia, de forma que tudo pode acabar parecendo sem graça, insosso e entediante ao jovem dentro do cotidiano com rotinas e sem aventuras. É nesse ponto que podem entrar, no meio de tantas coisas, as redes sociais, o álcool, as drogas, s cigarros
Aliás, dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, feita em 2024 com adolescentes entre 13 e 17 anos, e divulgada recentemente, mostram que houve um aumento assustador (76%) no consumo de cigarros eletrônicos. Pesquisas também ajudam a entender melhor a situação dos adolescentes; e esta acima citada, que teve perguntas respondidas diretamente por eles em anonimato, acabou por desvelar situações que nem sempre os adultos percebem. Ou então tratam de forma superficial e rotulada, taxando de aborrecentes comportamentos que são relevantes para a compreensão do que acontece em termos de desenvolvimento mental e psíquico nessa etapa da vida. Há relatos perturbadores que desvelam o sofrimento emocional do adolescente brasileiro como algo que não é episódico nem exagerado. Analisando as respostas, a jornalista Renata Cafardo, fundadora da “Associação de Jornalistas da Educação”, diz sobre esse sofrimento que ele é “frequente, persistente e, em muitos casos, silencioso”. E continua: “Um dos dados mais inquietantes é que quase dois em cada dez acham que a vida não vale a pena. E 38% já sentiram vontade de se machucar de propósito; entre as meninas, são 43%. Com relação à última pesquisa, feita em 2019, menos adolescentes sentem hoje que seus pais entendem seus problemas.”
Refletindo sobre esses resultados, lendo Cafardo em seu artigo publicado no Estadão do dia 5 de abril; e evocando Siegel no livro anteriormente mencionado, não pude deixar de me lembrar da peça encenada em março no Teatro Pedro II, em Ribeirão Preto, ‘O Filho’, do premiado dramaturgo francês Florian Zeller. A obra coloca foco no labirinto da depressão adolescente e no despreparo dos pais ao lidar com o filho, dezessete anos, que sente o peso de viver como insuportável, e a dor de existir como intraduzível em palavras. É uma tragédia moderna, no sentido mais estrito da palavra: o destino parece selado, não pelos deuses, mas pelas limitações da própria compreensão humana sobre a mente. Para o público, o desconforto vem da identificação. Quantos pais já não tentaram animar um filho com frases vazias como "Vamos! Bola pra frente! Você tem tudo para ser feliz."? O desfecho da peça, obra necessária mesmo não oferecendo respostas fáceis, é um soco no estômago que nocauteia especialmente pais com duas perguntas mantidas no ar: Onde erramos? Como podemos ouvir o que não está sendo dito?
Como se respondesse a essas questões, a jornalista assim encerra o artigo ao qual aludi: “É preciso estar perto, mesmo quando eles dão toda pista de não querer. Conversar até quando eles parecem não estar escutando.” Isso é custoso e estressante? Pode ser, mas como ela diz, “é esse envolvimento que cria, no cotidiano, um ambiente em que adolescentes se sentem enxergados e cuidados. Claro que a fórmula não é simples, nem há receita que sirva para todas as famílias, mas a busca pelo vínculo tem de ser constante.”
Manter vínculos com adolescentes exige uma transição delicada entre o papel de protetor (a) e o de mentor(a). Nessa fase, a conexão não nasce do controle, mas da disponibilidade emocional e do respeito à individualidade que floresce. É preciso aprender a ouvir não apenas as palavras, mas os silêncios, criando um espaço onde o julgamento é substituído pela curiosidade genuína sobre o mundo deles. A base de uma relação sólida reside na validação dos sentimentos: o que parece trivial para um adulto pode ser o centro do universo para um jovem; reconhecer essa importância sem minimizar as dores é o que constrói a confiança. Praticar uma "escuta ativa" significa estar presente de corpo e alma, deixando o celular de lado (sim, adultos também!) e demonstrando que o que eles têm a dizer é a prioridade absoluta naquele momento. E em vez de focar apenas em notas escolares ou obrigações contratadas, pais deveriam focar em quem os filhos estão se tornando. O vínculo se fortalece quando o adolescente sente que é amado pelo que é, e não pelo que produz. No fim das contas, manter o laço é entender que eles estão se afastando para poderem voltar como adultos inteiros, sabendo que o porto seguro permanece intacto e acolhedor.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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