OPINIÃO

A face digital da “vida para consumo”


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Expor-se ao contraditório, revisar crenças, questionar certezas. Ter a capacidade de sustentar o incômodo faz parte do pensamento crítico que exige esforço em um ambiente desenhado para facilitar exatamente o oposto. Estamos voluntariamente inseridos numa engrenagem digital que transformou não apenas o consumo, mas o próprio desejo. Somos o produto?

Se antes comprávamos para pertencer, agora pertencemos para continuar comprando, e também sermos consumidos. No livro “Vida para Consumo”, Zygmunt Bauman, descreve uma sociedade que deixava de valorizar o indivíduo por sua capacidade de produzir para medi-lo por sua capacidade de consumir. Hoje, talvez possamos ampliar a lógica da “civilização do consumo”. Saímos das vitrines físicas para aquelas que são invisíveis, os algoritmos. Não escolhemos mais apenas entre produtos. Nos iludimos ao acreditar que temos escolha, mas na verdade são versões de nós mesmos cuidadosamente moldadas por sistemas que aprendem com cada clique, pausa ou hesitação.

Satisfação, reconhecimento, identidade são promessas que permanecem, porém, a entrega é efêmera. As chamadas bolhas digitais oferecem conforto cognitivo, eliminam o ruído do contraditório e devolvem ao indivíduo a agradável sensação de estar sempre certo. Nesse espaço filtrado, opiniões são reforçadas, comportamentos são validados e a fricção, elemento essencial para o pensamento crítico, é silenciosamente removida. O preço desse conforto é alto, ainda que invisível.

Ao se evitar o confronto com o diferente, o indivíduo deixa de se desenvolver para apenas se manter aceito. A identidade, que antes se construía no embate entre o interno e o externo, passa a ser calibrada por métricas de aprovação. Curtidas, visualizações e compartilhamentos tornam-se indicadores de relevância e critérios de existência. Bauman observou que, na sociedade de consumo, objetos eram rapidamente descartados. Hoje, essa lógica se estende às relações, às ideias e às reputações.

Conexões são feitas na velocidade de um toque e desfeitas com a mesma facilidade. O vínculo perde profundidade e é substituído pela utilidade momentânea. No ambiente profissional, isso se traduz em relações frágeis, alinhamentos superficiais e uma cultura organizacional que, muitas vezes, prefere o silêncio confortável ao conflito necessário.

Comunicar deixou de ser um ato de transmitir mensagens. Tornou-se um exercício de romper filtros, sejam eles tecnológicos ou mentais. Ouvir e ser compreendido fora das bolhas é um desafio. Não basta falar com clareza; é preciso falar com consciência de que o interlocutor pode estar operando dentro de uma realidade informacional completamente totalmente distinta.

Bauman enfatizava a necessidade de uma reeducação da consciência, que no mundo digital passa, inevitavelmente, pela forma como consumimos informação, nos posicionamos e nos relacionamos. Talvez seja estratégico se observar. Testar a sua capacidade de sustentar o incômodo e autoestimular o pensamento crítico.

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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