Nelson Rodrigues, gênio da nossa dramaturgia que elevou suas peças a patamar internacional criando personagens universais em contextos bem brasileiros, era apaixonado por futebol. Tornaram-se clássicas as crônicas que tiveram este esporte como tema. Dizia que “no futebol o pior cego é o que só vê a bola”. E “muitas vezes, é a falta de caráter que decide uma partida’. Ao tratar um jogo como algo que se atualiza a cada instante, na sucessão dos segundos, transcendeu-o em entendimento e construiu uma analogia com a vida.
Lembrou, em estilo incomparável na clareza e refinado na ironia, que milímetro a mais da bola na rede do gol, gesto a menos de um jogador na grande área, deslocamentos impensados no meio de campo, comunicação bizarra do bandeirinha, decisão suspeita do juiz- e o rumo de uma partida se modificava, a história de noventa minutos ganhava perfil peculiar. Por isso era assertivo ao escrever que absolutamente nada se poderia afirmar quando duas equipes entravam em campo. Por ter essa certeza, de que tudo é incerto antes do apito final, Nelson Rodrigues radiografou partidas na Remington que usava na redação do ‘Ultima Hora’, jornal carioca onde trabalhava. Levando-as para colunas publicadas diariamente, de segunda a sábado, durante dez anos, aproximou muitas vezes a existência humana de um jogo de futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”, escreveu.
A aceitação da incerteza, que indefinia partidas e vidas, nunca foi ampla, geral e irrestrita. Havia controvérsias da parte de conservadores, burocratas, manipuladores, metódicos, obsessivos, arrogantes, inflexíveis, autoritários; também sonhadores e românticos; mais “os idiotas da objetividade que tentam prever o futuro com planilhas, ignorando que o coração humano bate em ritmo de prorrogação.” Esse era Nelson, buscando mostrar ‘a vida como ela é’, título da coluna cujos textos seriam reunidos em livro nos anos 60 e depois levados ao cinema e a uma série de televisão.
Os temas abordados por este jornalista/escritor continuam alçando sucesso de público e crítica porque são atemporais. Ainda hoje, se a gente observa bem, verá pessoas como as acima elencadas, sentindo-se ameaçadas diante da possibilidade de que seus planos para as próximas 24 horas sejam arranhados, na melhor das hipóteses; ou subvertidos, na menos incomum delas. Planejam dia, semana, meses, anos, trabalho, férias, aposentadoria, e relacionamentos, mantendo a firme convicção, sentimento perigoso, de que tudo seguirá o script por elas traçado, o mundo se movimentando para atender às suas expectativas, já que as circunstâncias devem favorecê-las e elas (claro!) merecem.
Na prática, o que se constata não é bem isso. Há forças misteriosas e desconcertantes atuando sobre nós, dentro de nós, frágeis humanos tantas vezes orgulhosos e confiantes em demasia. ‘A existência humana não passa de um estádio lotado em dia de clássico, onde a lógica é uma intrusa e o imponderável é o único senhor absoluto’ é outra frase de Nelson Rodrigues que deu uma certidão de nascimento a esse imponderável e o chamou de “Sobrenatural de Almeida”, personagem invisível que atropela nossas certezas.
Quem nunca se sentiu alguma vez diante dele como jogador marcado sem piedade, tomado por uma dor, confrontado com situações que precisaria transformar para continuar na luta? Não dá para alegar que isso não estava escrito no gibi, que não era bem o que se estava esperando, que mudar estratégia é difícil e refazer trajeto é custoso quando surgem ‘pedras no meio do caminho’, lembrando verso imortal de Carlos Drummond de Andrade no poema analisado em profundidade sábado passado por Mônica Faleiros em evento do ‘Semeando a psicanálise.’
A bem da realidade, a experiência de um único dia pode mostrar que viver surpreende mais que o esperável, desmente profecias, humilha oráculos, não oferece garantias. E só desvela aos poucos os mistérios da empreitada, exigindo grande dose de tolerância diante das frustrações. Viver pede coragem, como expressou Guimarães Rosa, e também habilidade diante do imprevisto. O que então dá para fazer é improvisar com os elementos de que dispomos, o que não significa agir de forma inopinada, ou, como diz nosso povo, ‘de supetão’. Criar na vida tem de ser como no futebol, quando o jogador, a partir de suas experiências e talentos, dribla obstáculos, inventa passes, avança, recua, conecta-se com os companheiros de time, faz o possível para chegar ao gol ou evitar tomá-lo. Modificações momentâneas que resultam da associação entre recursos acumulados e inspiração preciosa, quando não intuição poderosa, costumam fazer emergir no futebol e na vida uma magia que pode mudar o jogo para que ele continue a ser jogado. Mais que uma sugestão prática, este modo de encarar a vida é um jeito filosófico de entender o presente não apenas como soma de fatos que bem rapidamente formarão um passado, mas sim como o momento da escolha frente às circunstâncias, como postulavam os existencialistas para quem ‘a existência precede a essência’.
Pirandello, o siciliano apaixonado por literatura e teatro como o nosso Nelson Rodrigues, renovou a dramaturgia na Itália com uma peça que não tinha roteiro prévio nem mesmo atores, já que deveria ser interpretada por gente da plateia. Chamou-a “Essa noite se improvisa’ e com isso quis dizer que viver é, essencialmente, a arte do improviso constante, pois desde o momento em que saímos do útero de nossa mãe e abrimos os olhos, somos lançados em um palco onde as luzes já estão acesas, a plateia espera algo e nós nem conhecemos as falas. O "roteiro" que nos prometem na infância — estudo, trabalho, casa, filhos - é apenas uma sugestão que poderá ou não se concretizar, já que a realidade ‘é um diretor caprichoso que muda o cenário no meio do ato, retira atores essenciais de cena sem aviso prévio e exige que a gente continue a performance como se tudo fizesse parte do plano’. A frase é de Pirandello, mas poderia ter sido cunhada por Nelson Rodrigues. Ambos, embora separados por um oceano e por contextos sociais distintos, constituíram dois pilares inquietantes da literatura dramática do século XX. Suas obras são patrimônio da humanidade.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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