Se existe uma urgência em todas as cidades do Brasil, é a de conscientizar a cidadania de que ela tem uma grande aliada no enfrentamento dos efeitos das emergências climáticas. Chama-se árvore!
Nação abençoada com a maior biodiversidade do planeta, o Brasil não prima por conferir a esse patrimônio natural o valor devido. A especulação imobiliária, o mau gosto das obras de concreto e aço, a ignorância crassa que desconhece o valor do verde, torna as cidades muito feias e muito áridas.
É preciso reconciliar a cidadania com a árvore. É preciso devolver à natureza aquilo que dela se subtraiu para edificar coisas feias, de mau gosto, inimigas da saúde física e mental.
Cadê a coragem para subtrair pedaços de asfalto impermeável e nocivo por terra natural. Pela mãe-terra, onde podem nascer plantas ornamentais e árvores? Um dia isso será exigido pela saúde colapsada da maior parte dos humanos. Mas ainda haverá tempo?
Jundiaí já teve uma araucária que era visível por situar-se na colina central, junto à Escola Antenor Soares Gandra. Havia figueiras históricas no antigo “Largo de Santa Cruz”, hoje Praça da Bandeira. Foram sacrificadas, assim como o tradicional Parque Infantil “Prefeito Manoel Aníbal Marcondes”, para um discutível terminal de ônibus. Eram históricas porque ainda ostentavam as argolas onde os escravos permaneciam à espera de compradores. Perdeu-se a oportunidade de mostrar à infância que o seu país foi o último, em todo o mundo, a abolir a escravidão.
Quantas florestas urbanas foram criadas neste século? E no século passado? Quantas árvores foram plantadas nas vias públicas municipais?
Será que as crianças sabem quais são as árvores nativas da Mata Atlântica e que podem ser cultivadas com o nosso pedido de desculpas à mãe-natureza, pois depredamos o que era dela?
As aulas de educação ambiental não podem ser a descrição formal de dados insípidos, mas deveriam levar o alunado a conhecer a vegetação de sua cidade. Incentivá-lo a recolher sementes das árvores que restaram e que as distribuem sem qualquer coleta. A aprender a fazer mudas, formar viveiros, a plantar, repondo espécies abatidas e a zelar pela saúde da cobertura vegetal.
Pessoas sensíveis são aquelas que chegam a “conversar” com a árvore. Como fazia a inesquecível Lygia Fagundes Telles, a maior romancista brasileira, que percorria as ruas dos Jardins, na capital bandeirante, onde morava, e abraçava as velhas tipuanas. Passava as mãos no tronco, sentia sua textura, travava um diálogo carinhoso. Coincidência ou não, depois de sua partida, muitas daquelas velhas árvores foram ceifadas pela violência das ventanias.
Chega de “cegueira botânica”, enfermidade comum nas cidades. Basta da ignorância de dizer que árvore “estraga a calçada”, deixa cair folhas que têm de ser varridas, servem de esconderijo para bandido. Bandida é a cultura que baniu as árvores e deixou o concreto frio, o asfalto venenoso, a impermeabilização que mata.
Árvores não são apenas fator de beleza e estética. Elas reequilibram o regime das chuvas. Elas prestam serviço ecossistêmico regenerador da atmosfera. Reduzem a temperatura. Servem de abrigo à fauna silvestre. Mas também embelezam a vista e a alma. Em países civilizados, há excursões a lugares providos de intensa vegetação e isso contribui para aprimorar o estado físico e mental dos visitantes. Árvore é, acima de tudo, fator de saúde.
As novas gerações ganhariam muito, não só em tempo e longevidade, mas em qualidade existencial, se aprendessem a amar as árvores. E fizessem de sua vida o compromisso de tornar mais verde as cidades cor de cinza que esterilizam o clima e esterilizam a consciência humana.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo
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